quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Continua a inércia

“Keep calm and have another summit”. A imagem humorística, glosando os famosos cartazes afixados nas ruas de Londres durante a guerra, começou a correr nas redes sociais logo na sexta-feira à tarde mal terminou mais um Conselho Europeu que decidiu... não decidir.

“Mantém a calma e organiza outra cimeira”. É isso que vai fazer a União Europeia, talvez em Fevereiro do próximo ano, de forma a obter um acordo sobre o orçamento deste clube de 27 Estados-membros (ou 28, já que a Croácia, que se juntará em Julho próximo, também faz parte das discussões). As cimeiras sobre o orçamento, sobretudo quando decorrem num clima económico minado como o actual, e ainda mais quando têm a missão de também decidir sobre o Quadro Financeiro Plurianual – ou seja, nos montantes para 2013 mas também nos fundos que a Europa terá à sua disposição até 2020 – são tão duras, mas tão longas e amargas, que justificam habitualmente a descrição de “a grande batalha”. Num dos campos, os contribuintes líquidos para a Europa, encabeçados como sempre por um cada-vez-menos-europeu Reino Unido (isto apesar de os britânicos serem o menos importante dos contribuintes); do outro, beneficiários líquidos, entre os quais Portugal (o sexto maior beneficiário por habitante). A linha que divide ambos é um fosso profundo, e na Europa de hoje há poucos construtores de pontes.

A novidade da semana passada foi exactamente a naturalidade, na fronteira da resignação, com que o falhanço das negociações foi encarado. No segundo dia da cimeira de Bruxelas, todos os líderes e assessores chegaram ao local das negociações já carregados de malas – prontos para partir de volta a casa ao final do dia, sabendo de antemão que do conclave não sairia fumo branco. E um ministro finlandês desabafava no Twitter ainda desde o aeroporto: “uma das mais amigáveis cimeiras europeias de que me lembro, mesmo que não tenhamos obtido um acordo. É curioso”.

Eu não descreveria esta inércia como curiosa, antes como previsível, considerando a fasquia cada vez mais baixa que as nossas elites políticas se auto-atribuem. Incapazes de lidar com problemas complexos, submergidos pela crise, confusos perante a evidência de uma Europa cada vez menos homogénea e logo com interesses divergentes, os nossos eleitos demitem-se de decidir. Encolhem os ombros e fazem as malas.

Imediatamente após a cimeira (e até mesmo antes da mesma) deu-se início ao costumeiro spin – o mascarar do fracasso. Reza a teoria que este “até pode ser bem-vindo”, porque neste momento há problemas mais prementes para resolver (mais uma possível bancarrota da Grécia, e a criação de uma verdadeira união bancária para estabilizar a zona euro), e adiando a discussão sobre o orçamento evita-se o envenenar do ambiente e pode-se continuar a contar com o Reino Unido como parte da solução. Logicamente, o argumento é rebuscado e não tem quaisquer garantias de sucesso; pelo contrário, Merkel, a sombra tutelar da Europa que temos hoje, estará no futuro cada vez mais pressionada com o aproximar das eleições alemãs, em Setembro. O que é garantido é que voltamos, europeus, a dar uma imagem de indecisão ao mundo e a nós próprios. Antes, a metáfora para a construção europeia era a da bicicleta (era preciso continuar em movimento para nunca tombar); ultimamente, parecemos seguir sim a política da avestruz.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Skyfall


“Skyfall” é, naturalmente, o título do último volume da franchise 007 – um filme entretido que vale em grande parte pela sua extraordinária sequência inicial e música de Adele com o mesmo nome, nome esse que poderia traduzir-se como “uma queda do céu”, no sentido figurado.

É nesse céu que se movem as companhias aéreas que, por entre discussões sobre altos salários e preços dos combustíveis, fazem recair todos os seus ónus sobre os viajantes – clientes e razão de ser da sua existência. Neste capítulo todos aqueles que costumam voar entre o Luxemburgo e Portugal são versados, já que esta rota é tradicionalmente umas das mais lucrativas para as duopolísticas companhias que nela operam: TAP e Luxair. O suspeitado conluio entre ambas, sob a observação atenta da mãe Lufthansa, permite-lhes combinar tarifas de força tão flagrante quanto impune; quantas vezes determinado bilhete para determinado dia não custa exactamente o mesmo, ou difere em um euro, numa e noutra (falsa) opção. Os horários de voos também indiciam uma cuidadosa divisão do mercado feita nos bastidores – uma estrutura que, sendo de cartel mais do que de duopólio, não é permitida às leis da concorrência. Aliás não por acaso a Comissão Europeia ameaçou no ano passado abrir uma investigação à mesma TAP e à Brussels Airlines (que pertencem à mesma aliança aérea) por práticas semelhantes na rota de Bruxelas, mas a investigação nunca saiu do chão.

Combinar preços não é o único truque constante do livro de uma companhia com uma posição dominante no mercado: o levantamento de barreiras à entrada de competidores é outro, e assim o aeroporto de Findel, com imensa capacidade instalada não utilizada, nunca acolheu um concorrente que possa minimamente desafiar os “direitos adquiridos” dos poderes ali instalados. Quem sofre mais uma vez é quem precisa dos aviões para viajar: em grande medida, somos consumidores especiais pois, devido às tão fortes ligações familiares, culturais, económicas, sentimentais ou muitas outras, não temos escolha senão pagar o que for preciso e voar desta terra de trabalho para Portugal. Sujeitamo-nos assim a toda a espécie de manipulações e desrespeitos, como um serviço subpadrão, preços obscenos (um bilhete simples para ir passar o Natal a Portugal custa neste momento 750 euros, bastante mais que um bilhete para Nova York para as mesmas datas) ou horários perfeitamente absurdos – na sua nova versão, por exemplo, a TAP pede-nos para estar no aeroporto de Pedras Rubras às 2 da manhã de domingo, de forma a podermos aterrar no Luxemburgo às 6 da madrugada!

Que opções temos nós, viajantes, para abalar este abusivo status quo? Não muitas. Por terra, a viagem é longa e também cara; no ar, a Ryanair também trata a rota Hahn-Porto como a sua “vaca leiteira” – os aviões, pouco frequentes para o potencial do mercado, estão sistematicamente repletos, mesmo que nunca sejam objecto das promoções de que usufruem os outros destinos (e mesmo que o presidente da companhia insulte frequentemente os seus próprios clientes, como fez no mês passado ou apelidar de “estúpidos” todos aqueles que se esquecem de imprimir o seu bilhete num papel). Acresce que esta é uma opção pouco prática, que o aeroporto de Hahn sofre de dificuldades financeiras, que as previstas alternativas em Bitburgo ou Metz não descolam, e que Charleroi também tem os voos sempre cheios. Existe um grupo no facebook que pressiona para que a Easyjet voe daqui para Lisboa; veremos o que acontece deste lado, mas por enquanto, não há outro remédio senão engolir em seco e economizar para as viagens. Ao contrário de um James Bond, o dinheiro não cai do céu.

A Europa prefere Obama, mas vota em Romney

Conheço muitos europeus que se interessam por política, mas muito poucos entre eles teriam preferido Romney a Obama como vencedor das eleições americanas. Tal não é surpreendente, a acreditar nas sondagens “mundiais” publicadas pela BBC ou a MSN; por exemplo esta última analisou 35 países ou áreas geográficas, num total de 570 mil pessoas, e em quase todos Obama foi declarado vencedor virtual com resultados absolutamente esmagadores. O único país em que “perderia” seria curiosamente a China, um país formalmente comunista onde Romney obteria 52% das preferências. Do outro lado do espectro está Portugal, onde Obama obteria uns quase ditatoriais 94%; em Espanha 84%, na Alemanha 92%, em França 88%, no Reino Unido 85%... a BBC corrobora estes resultados, temperando-os com alguma abstenção, e dá ao Paquistão (o país onde Osama Bin Laden foi assassinado por marines) o privilégio de se destacar como o único onde Romney poderia prevalecer. Mas entre os dois nem hay color, como dizem os espanhóis; se todo o planeta pudesse votar nas eleições americanas, Obama nem teria de sair do sofá para fazer campanha. E o seu maior feudo eleitoral estaria precisamente na Europa, que votaria em massa no partido Democrata.

A ironia aqui contida parece-me evidente e é de monta: quando chamados a escolher sobre o seu próprio destino, os europeus escolhem sistematicamente os seus Romneys. Não quero com isto dizer que ao mesmo tempo rejeitem os seus Obamas, dado que não existem no Velho Continente políticos inspiradores ou com carisma similar ao do reeleito presidente americano. Afirmo sim que, com apogeu em Dezembro de 2011 (altura em que, dos 27 da União Europeia, apenas 4 pequenos países não eram governados por membros do Partido Popular Europeu) a liderança europeia na última década pertence resolutamente à família política conservadora do partido Republicano – e as semelhanças estão também nas questões sociais, mas sobretudo em opções financeiras, fiscais e económicas. E foram essas mesmas opções que, nos EUA, transformaram os anos de bonança da era Clinton em anos deficitários com George Bush, e na Europa nos atiraram para um buraco do qual estamos a tentar escapar escavando mais e mais fundo.
Romney (e o seu parceiro candidato a vice-presidente, Paul Ryan, que representa uma autêntica versão americana do ministro português das Finanças) propunha várias medidas que o que incluiam cortes de impostos para os mais ricos e as empresas, mas também o equilíbrio do défice como prioridade – cortando brutalmente na despesa pública - e menos regulação da economia, além de aumento da idade da reforma, desmantelamento do sistema público de saúde ou o endurecimento das leis sobre imigração. Provavelmente tudo isto soa familiar, já que é esta a receita que temos aplicado deste lado do Atlântico, sendo por isso recompensados com o quinto ano consecutivo de recessão (em Portugal) ou de crescimento anémico (na zona euro). Esta semana chegamos mesmo a um ponto quase caricato: o FMI a aconselhar uma inversão das políticas de austeridade, e a Comissão Europeia a pedir mais da mesma – e sem a devida compensação necessária do lado monetário (simplificando, a impressão de mais moeda), porque a Alemanha assim não permite, mantendo-nos assim presos numa reedição do ano 1930. Nessa época, a meio da Grande Depressão, Keynes escreveu: “Os tempos de crescimento, e não os de depressão, são os indicados para a austeridade”. Nos Estados Unidos, há quem o saiba, e há sinais claros de que o pior já ficou para trás; a Europa aplaude, mas continua nas mãos de Romney.

E tudo o vento lembrou


A capa desta semana da revista New York traz uma imagem extraordinária: uma foto da ilha de Manhattan, o núcleo da cidade que nunca dorme, tirada com “vista de pássaro” desde um helicóptero. Com uma arrepiante singularidade: metade da cidade está completamente às escuras.

O foto foi tirada no rescaldo da passagem do furacão Sandy, que inundou centrais eléctricas e cortou cabos, e mostra a parte sul da ilha sem electricidade. Curiosamente, é aqui que fica a zona financeira de Wall Street; o movimento Occupy Wall Street não conseguiu ocupar este verdadeiro governo-sombra do planeta, mas o furacão conseguiu apagá-lo (por um dia). A morte e destruição causadas pelo Sandy tiveram pelo menos um mérito: os ventos ciclónicos empurraram as alterações climáticas para as primeiras páginas dos jornais, local de onde tinham sido arredadas por preocupações mais comezinhas, como a crise ou o desemprego. E o aquecimento global inundou mesmo, repentinamente, a campanha eleitoral renhidíssima entre Obama e Romney – e durante a qual os temas ambientais primaram pela ausência. Tal foi o rasto deixado pelo furacão que, no dia seguinte, o mayor Michael Bloomberg (inicialmente eleito pelo partido Republicano) veio apoiar publicamente o candidato democrata, sublinhando que este, Obama, era o único a “considerar as alterações climáticas um problema urgente que ameaça a nossa existência”. Bloomberg não o fez, mas poderia ter acrescentado que Romney é financiado por milhões e milhões de petrodólares – e por coincidência, o plano energético que propõe consiste em “perfurar, perfurar, perfurar” toda e qualquer terra, incluindo parques naturais e ecossistemas protegidos no Alasca, que possa conter vestígios de petróleo. Ao apresentar este plano, em Agosto, Romney ridicularizou o discurso de tomada de posse de Obama, em 2009, quando o presidente prometeu “parar a subida dos oceanos” e começar a “curar o planeta”.

O drama? Esse discurso de abertura, proferido no primeiro dia da sua presidência, foi também um dos últimos em que o presidente dos EUA, ainda o país mais poluente do planeta (com licença da China, que também chegará a esta posição em pouco tempo), se referiu a temas ambientais nos últimos quatro anos – o que significa que também nesta área a “esperança” simbolizada por Obama desiludiu. Sim, é certo que alguns passos foram dados no sentido de reduzir as emissões de carbono e de mercúrio, mas isso não chega para estancar os oceanos – eles continuam a subir, inexoravelmente, e quatro vezes mais rápido que a média global no caso da costa Leste americana; foi exactamente destes mares inchados que o furacão Sandy se alimentou – e a próxima tempestade, mais fraca mas ainda mortífera, vai repetir a dose dentro de poucos dias.

O consenso científico é esmagador: as alterações climáticas são provocadas por nós, e elas estão a tornar-se, mais do que visíveis, evidentes; fenómenos extremos como furacões e ondas de calor são agora frequentes e cada vez mais fortes. O furacão Irene, que atacou no ano passado, chegou a ser classificado de “sem precedentes”; mas poucos meses depois, o Sandy eclipsou-o. Isto no ano que está a caminho de ser o mais quente de sempre desde que há registos nos EUA.

Mais uma vez, estamos numa encruzilhada – o futuro dirá se a maior de sempre, e se tomámos a opção correcta. Não fazer nada será muito caro (só este furacão custou 40 mil milhões de euros em prejuízos) e provavelmente letal a longo prazo; aumentar a dependência do petróleo, e as emissões que dele provêm, acelerará a nossa autodestruição; combater as emissões poluentes e “curar o planeta” será duro, lento, impopular e também caro, além de incerto. Os eleitores norte-americanos fazem esta semana uma destas escolhas – resta descobrir se disso se apercebem.

Os Intocáveis

Heinrich Kieber, Hervé Falciani e agora Kostas Vaxevanis. Fixe bem na memória estes nomes, caro leitor, porque estes são os heróis possíveis da sociedade em que hoje vivemos. Nenhum deles salvou donzelas em perigo ou conseguiu grandes proezas atléticas; o seu instrumento não é a capa nem a espada, mas sim o computador; e os seus feitos poderão não ser desinteressados, mas a verdade é que estes homens aparentemente banais não deixaram passar a oportunidade de lutar pelo ideal de Justiça, mesmo arriscando os seus pertences e a sua vida.

A história não se conta em poucas palavras. Kieber e Falciani eram ambos técnicos de informática dentro de bancos, o primeiro no Liechtenstein (o LGT, banco detido pela família “real” do pequeno principado, e que muito naturalmente também está presente no Luxemburgo) e o segundo na Suíça, o HSBC, um dos maiores do globo. Ambos compilaram pacientemente enormes listas com nomes de fugitivos aos impostos, pessoas (e companhias) que depositam em paraísos fiscais com forte segredo bancário enormes somas não declaradas ao fisco. Dinheiro de proveniência e/ou destino sujo.

A “lista Kieber” foi comprada pela Alemanha por 4,2 milhões de euros, e depois usada por vários países europeus para exigirem a alguns proeminentes cidadãos o pagamento dos seus impostos atrasados. Só a própria Alemanha recuperou perto de 300 milhões em impostos devidos, enquanto a Áustria investigou 180 dos seus nacionais. A Espanha calculou perder 16 milhões de euros anuais por não cobrar os impostos desta lista. Portugal... não quis saber quem lá constava. E Kieber, entretanto, correndo risco eminente de vida, desapareceu algures na Austrália em 2008.

A “lista Falciani” é ainda mais bombástica, porque este outro jovem informático, afirmando “não querer nada em troca e apenas estar a agir como cidadão cumpridor”, denunciou nada menos de 80 000 evasores ao fisco provenientes de 180 países diferentes – só franceses eram 8000, e foi a França que geriu o processo; perante insistentes pedidos da furiosa Suíça, a então ministra das Finanças Christine Lagarde copiou os nomes dos possíveis infractores e transmitiu-os a todos os Estados que por eles perguntassem. Nos últimos dois anos, foram recuperados graças a Falciani (que entretanto teve de mudar de vida e identidade, mas ainda assim foi preso em Espanha no passado Julho e pode ser extraditado) nada menos de 10 mil milhões de euros de impostos não pagos – três vezes a redução do défice que Portugal tem de fazer este ano. Mas Portugal, mais uma vez, não quis saber quem eram os seus criminosos fiscais que lá apareciam.
A razão para tanta falta de curiosidade portuguesa é simples: os grandes evasores são pessoas poderosas, bem-relacionadas, amigos ou cônjuges de políticos, colegas de juízes, companheiros de caça de banqueiros; resumindo, pessoas que em países de elites corruptas, como Portugal, estão facilmente acima da lei – agradecendo a complacência de quem se sacrifica para a cumprir. O mesmo acontece na Grécia, onde o governo tudo fez para ignorar a existência da parte grega desta lista para evitar ter de perseguir quem foge aos impostos em grande escala – aparentemente ali o Estado está a nadar em dinheiro. Mas esta semana (e tal seria quase divertido não fosse assustador) o caso provocou finalmente uma prisão: a do editor do jornal que, cumprindo a função da imprensa, divulgou a lista dos grandes evasores do país. Aparentemente, Kostas Vaxevanis esqueceu-se de que nem todos podemos fazer parte da casta dos Intocáveis.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

E os burros somos nós?

Alegrem-se, caros leitores: o FMI fez uma descoberta. Uma daquelas descobertas tão surpreendentes, mas tão inesperadas, que merecem o título de verdadeira epifania.

Que descobriu o venerando FMI, némesis da justiça e carrasco do crescimento? Pois bem, que se enganou nas contas. Oh, um pequeno engano, nada de muito grave; foi apenas uma ligeira discrepância no "multiplicador". Em vez de 0,5 como era até aqui assumido pelos seus modelos teóricos, a vida real parece indicar que o verdadeiro valor desse mágico multiplicador pode chegar a ser 1,7. Isto significa que cada euro poupado pelos Estados em "consolidação fiscal", como lhe chama o FMI - mas que é melhor descrito pelos nomes menos eufemísticos de "austeridade", "cortes" ou "aumentos de impostos" - não reduz a actividade económica do país em 50 cêntimos, mas sim em 1,7 euros (no máximo) ou em 0,9 euros (na menos má das hipóteses). E por cada 1% do PIB ganho em austeridade, o investimento da economia é destruído em 2%, e o desemprego aumenta em 0,5%. Exemplo: se o ministro das Finanças português aumenta outra vez os impostos sobre a classe média de forma a que o Estado lisboeta esmifre, perdão, arrecade receitas correspondentes a 2% adicionais do PIB, tal quer grosso modo dizer que Portugal no seu todo vai perder 3,4% da sua economia, o investimento vai cair em 4% (o equivalente a três Autoeuropas), e aparecerão nas ruas 60 000 novos desempregados. Como se demonstra, um erro de cálculo de somenos importância.

Esquecendo a linguagem crua dos números, o que o FMI nos veio dizer, sobretudo a nós ocidentais, sobretudo a nós europeus, e sobretudo a nós portugueses foi: mea culpa. Desculpem lá qualquer coisinha, mas enganámo-nos(vos). Depois de cinco anos das nossas receitas neoclássicas, a economia mundial está num estado lastimável e - está escrito preto no branco no relatório Blanchard - os riscos de recessão global são cada vez maiores, sobretudo devido à péssima situação dos países que foram mais longe na sua consolidação fiscal, e que do fundo da sua espiral recessiva (menos produto quer dizer menos impostos e mais desemprego, logo maiores défice e dívida) vêem as suas metas cada vez mais distantes, não obstante os sacrifícios da população. Sem luz no fundo do túnel.

Há duas ironias insultuosas em tudo isto. A primeira é que esta confissão parte da instituição que historicamente mais aperta o garrote às sociedades em dificuldades - devido a isso e não sem algum humor, a presidente da Argentina veio à Europa aconselhar-nos a "fazer exactamente o contrário do que o FMI aconselhar". Como membro da famigerada troika, o FMI aplica em Portugal ou na Grécia - e aconselha para todos os outros em melhor situação - as mesmas políticas que admite agora terem efeitos devastadores.

A segunda ironia tem a ver com a arrogância daqueles que escolheram este caminho desastroso que estamos a trilhar, apresentado como a única escolha possível de alguém inteligente - e ainda há poucos dias António Borges, um dos mais sinistros representantes das elites a que temos direito, qualificou de "burros" todos os empresários que não concordavam com mais uma medida de austeridade à portuguesa. O relatório do FMI vem reequilibrar o debate, e ser-nos dada razão é sempre agradável, mas não passa de fraquíssimo consolo quando sabemos que é tarde demais - vivemos agora numa sociedade mais pobre e mais injusta, e a recuperação não será feita em uma década. Entretanto, assistiremos em breve ao cair no esquecimento deste relatório, enquanto salvaremos alguns bancos privados mais e sustentaremos vários exércitos de assessores e secretários de Estado com os nossos impostos cada vez mais altos. Os burros, realmente, só podemos ser nós.

Queremos Paz

“Queremos Paz” é a faixa de abertura da “Revancha del Tango”, o conhecidíssimo álbum dos Gotan Project, e inclui excertos de um célebre discurso do “Che” Guevara em Nova Iorque perante as Nações Unidas: “Queremos paz... queremos construir uma vida melhor para o nosso povo”. Guevara não encontrou a sua paz, e poucos são os aspectos em que o tal povo (cubano) vive hoje melhor que em 1964. Mas ao mesmo tempo, noutra parte do mundo, antigos inimigos ainda com feridas bem recentes davam passos de gigante no seu utópico projecto: a partilha voluntária de soberania e de recursos entre países de forma a tornar todos mais fortes. Naquela altura, a antiga Comunidade Económica Europeia preparava-se para derrubar as barreiras alfandegárias entre os seus seis membros originais. Em paz, sem estardalhaço, começavam a cair as fronteiras que retalham o continente e que, apenas alguns anos antes, tinham sido razão de guerra, morte e ruína extremas.

A União Europeia, esse projecto aparentemente utópico – e quão belas são as maiores utopias – de que todos nós, 500 milhões de europeus, somos parte integrante e continuamos a construir (de forma díspar e incoerente, por vezes...), merece absolutamente ser recompensada com o prémio Nobel da Paz que acaba de conquistar, e merece-o por razões passadas, presentes e futuras. O passado é esmagador, já que a grande conquista da UE é precisamente o maior período de paz consecutivo da História europeia: de 1945 até hoje - 67 anos -, nunca é demais relembrá-lo. Mas é também o “poder suave” com uma enorme influência para apaziguar conflitos pelo mundo e estabilizar países em perigo promovendo a boa governação, desde o Kosovo ao Sudão, desde Timor ao Médio Oriente. Esta é a região que encontra nos seus bolsos mais dinheiro para a ajuda ao desenvolvimento (53 mil milhões de euros em 2011, ou seja, 56% do total mundial, contra 20% dos EUA e ainda menos do Japão ou da China) e para a juda humanitária de emergência para catástrofes.


Um Nobel da Paz é uma esplêndida vitamina para o futuro de uma UE que, enredada nas suas contradições e confusa pela sua trágica ausência de líderes minimamente competentes, vive um presente angustiado e algo descrente. Exactamente por isso esta recompensa é a escolha certa no momento adequado: é verdade que tem uma componente congratulatória pela qual podemos e devemos estar orgulhosos, mas devemos sobretudo vê-lo como uma dourada sirene de alerta. Aquilo que conquistámos e o local onde queremos chegar, juntos, no maior espaço mundial de prosperidade, bem-estar e justiça estão seriamente ameaçados pelas loucuras, incompetência e/ou corrupção de uma infinidade de pequenos caciques locais ou nacionais. Que a Europa saiba meter a sexta velocidade, fazer uma fuga para a frente e coordenar-se para ser a solução do problema, em vez de ver a sua credibilidade caluniada pelas vistas curtas do homem da rua e dos ministros das Finanças que se escondem atrás das costas largas de Bruxelas; é este também o verdadeiro significado daquele estatueta que nos será entregue, a nós cidadãos europeus, em Oslo. Todos sabemos quão bom pode ser viver neste continente de excepção, e queremos as nossas vidas de volta. Queremos paz.

Homenagem à Catalunha

“Homenagem à Catalunha” é o título do amargo livro escrito por George Orwell contando na primeira pessoa as experiências como combatente na guerra civil espanhola. Orwell descreve como as Brigadas Internacionais que procuravam defender o governo eleito e resistir à sublevação de Franco se deixaram infiltrar por agentes estalinistas, e como a causa se tornou perdida em 1938; sendo uma das últimas partes de Espanha a cair nas mãos do exército franquista, a Catalunha pagou caro a sua resistência. O novo regime de extrema-direita procurou, após eliminar fisicamente os seus mais perigosos opositores, reprimir qualquer expressão de excepcionalidade catalã. A língua foi, como sempre, a primeira a ser proibida.

Mas o orgulho catalão não tinha começado como resposta a Franco, e também não desapareceu com ele. A região rebelou-se periodicamente contra a ingerência central e imperial de Madrid – e a revolta de 1640 desempenhou um papel fulcral na recuperação da independência de Portugal, ao obrigar o rei em Madrid a deslocar o grosso das suas tropas para Barcelona –, nunca deixando de suspirar por um estatuto especial, com cada vez mais autonomia, dentro do Estado-nação espanhol. Nada que abalasse, no entanto, o status quo instalado e a imutabilidade do Reino de Espanha dentro da União Europeia.

Só que nós vivemos tempos em que a mudança é a única constante, e em que o impossível rapidamente se torna provável e em seguida inevitável. A crise, esse pretexto magnífico concretizado na maior dívida pública de uma região espanhola, justificou na Catalunha os mesmos cortes desesperados tentados noutras regiões de uma Espanha sem rumo; o ressentimento anti-Madrid cresceu. Sentindo o pulso ao eleitorado que enche as ruas (e o estádio do Barça) com a bandeira vermelha e dourada, o líder regional, Artur Más, aproveitou a oportunidade para exigir do Estado central mais poderes fiscais – por outras palavras, quis deixar de financiar as outras regiões do país com os seus impostos – e recebeu o esperado “não” como resposta. Más subiu então a parada deste peculiar jogo de poker convocando eleições antecipadas e apresentando-as como uma espécie de “referendo à autonomia”: a 25 de Novembro, a Catalunha pode ficar muito mais perto de se tornar um novo país na Europa, ao estilo jugoslavo (aliás, a extrema-direita espanhola já advoga mesmo a “solução militar” para resolver o “atrevimento da região”!). E a acontecer, tal provocaria ondas de choque em toda a Europa: aceitaria Bruxelas, capital de outro país em desagregação, a Catalunha como 28.º país da União? Poder-se-ia manter a Espanha na zona euro? Será a própria Espanha, que veria o País Basco partir logo em seguida, ainda viável e desejável?

Artur Más proferiu uma frase histórica que estava há demasiado tempo arredada dos nossos ouvidos: “O nosso futuro está dentro dos Estados Unidos da Europa”. Porque acredito que uma Europa unida alicerçada em regiões, e finalmente livre dos espartilhos napoleónicos do Estado-nação, realizará finalmente o seu potencial de espaço de crescimento, liberdade e segurança – e também por ter por certeza que várias regiões em Portugal deveriam há muito ter seguido o mesmo caminho de libertação da asfixia imposta pela volúpia do Terreiro do Paço – deixo aqui a minha própria homenagem à Catalunha e à sua nova-velha luta pela autodeterminação.

O desporto mais avançado da Europa

Uma equipa da casa na liderança da partida, tranquila e confiante, apoiada por um público ruidoso e entusiasta que enverga as cores da equipa (vermelho); uma equipa visitante, vinda de muito longe, com pouco apoio nas bancadas (em azul), e em larga desvantagem no marcador devido a uma primeira parte desastrada. No relvado, os jogadores das duas equipas batendo-se com toda a dedicação. E a bola decisiva, já na recta final do encontro, a provocar uma comovente explosão de alegria.

Não se tratava de um jogo de futebol em Lisboa ou Londres. O desporto em causa é o golfe e a competição, jogada este fim de semana, é a sua mais extraordinária: a Ryder Cup. Organizada de dois em dois anos, a taça é especial por vários motivos – entre os quais o facto de, apesar de movimentar milhões em direitos televisivos e patrocínios, não conceder qualquer tipo de prémio aos jogadores. O mais incrível, no entanto, está mesmo naquelas cores envergadas pela equipa (que era este ano) visitante e pelos seus apoiantes: um azul-escuro polvilhado de estrelas douradas que quase faz lembrar... mas esperem... não pode ser... e no entanto... é mesmo! É a bandeira europeia, ouro sobre azul, aquela que é agitada freneticamente pela multidão – e mais extraordinário ainda, muitos daqueles que ostentam orgulhosamente as cores europeias são cidadãos britânicos, sempre tão prontos a considerarem-se fora do continente a que pertencem.

Tudo porque a Ryder Cup é a única competição desportiva onde a Europa compete com um “Team Europe” – e logo contra os Estados Unidos. Não apenas isso, como somos melhores: desde o início deste formato, em 1979 (curiosamente, também o ano das primeiras eleições para o Parlamento Europeu), a Europa perdeu 7 taças e ganhou 10. A última, no domingo, foi absolutamente épica e entrará na História do desporto, com uma recuperação de último dia absolutamente improvável e ainda por cima polvilhada com dramatismos adicionais – um dos jogadores europeus viu no seu iPhone a hora errada de início e só chegou a tempo de jogar graças a escolta policial; o discurso de incentivo à sua equipa de George W Bush no sábado à noite não parece ter resultado – a partir daí, os americanos perderam quase todos os seus jogos. Os golfistas europeus (de 9 países diferentes, e com Portugal a candidatar-se a organizar a edição de 2018), inabalados pelos gritos constantes de “U-S-A!” atirados pela multidão de Chicago, não nos deram apenas um motivo de orgulho inesperado: também voltaram a provar que as dimensões simbólica e afectiva do desporto são fortíssimas – e que já é mais que tempo para mais equipas pan-europeias competirem na arena global do desporto.

Poucos terão reparado no facto de que nos recentes Jogos Olímpicos uma Europa unificada a 27 teria contabilizado muitíssimas mais medalhas que os EUA, a China ou a Rússia, ocupando o primeiro lugar da tabela final e dominando na maior parte dos desportos. Um rápido exercício teórico permite desde logo perceber que uma Selecção Europeia seria a potência a bater em quase todos os desportos, desde o basquetebol ao atletismo (tirando as longas distâncias, feudo dos africanos), passando pelo voleibol ou a canoagem. Uma equipa europeia de futebol, então, seria imbatível e mesmo um desperdício por só poder conter 11: como escolher entre Casillas e Buffon? E quem jogaria com Ronaldo no ataque, Ibrahimovic ou Balotelli?

Somos, nós europeus, os melhores desportistas, mas não só: vivemos na maior economia do mundo (a Europa a 27), orgulhamo-nos de ter algumas das melhores cidades do planeta, e construímos as sociedades mais justas/menos injustas da História humana. Por vezes é fácil perder de vista o que atingimos no turbilhão de querer o tanto que falta atingir.

47%


Derrotar nas urnas um presidente americano em exercício não é tarefa fácil (só Bill Clinton o conseguiu nos últimos 30 anos), sendo importante que quem o tenta não cometa erros. Pois bem, o desafiante deste ano (faltam 7 semanas para as eleições nos EUA) parece ter cometido o seu momento “Lehman Brothers” – ou seja a escorregadela, aquela declaração patética que faz o candidato perder os favores do eleitorado e, com eles, as suas últimas hipóteses de vitória.

A gaffe do desafiante Romney foi surpreendentemente longa, a tal ponto que chega a ser doloroso ver todo o seu discurso proferido durante um jantar de angariação de fundos (e divulgado por, estranha coincidência esta, um neto desempregado do ex-presidente Jimmy Carter). O candidato republicano queixou-se de quase metade do país e prometeu esquecê-los, algo bizarro para quem deseja ser presidente. “47% dos americanos”, divagou Romney, “vão sempre votar por Obama, porque são pessoas dependentes do governo, que pensam serem vítimas, que pensam merecer cuidados de saúde, comida, alojamento, tudo o que imaginarem... estas são pessoas que não pagam impostos sobre o rendimento”. E culminou: “Não devo preocupar-me com essas pessoas, porque nunca as vou conseguir convencer a pegarem nas suas vidas e votarem em mim”.

Vejamos: Romney, na sua tentativa de se tornar um dos homens mais poderosos do mundo, procurou estereotipar quase metade dos americanos afirmando que estes a) votarão sempre em Obama b) recebem algum tipo de subsídio e c) não pagam impostos sobre o rendimento. Pessoalmente, o que considero mais extraordinário nestas declarações é que... elas são parcialmente correctas. Esquecendo o tom insultuoso que o candidato utilizou, é de facto provável que 49% dos americanos recebam algum tipo de ajuda federal – aqui inclui-se sobretudo assistência médica e segurança social, mas também senhas de alimentação (para 16% dos lares do país); nestas contas, a percentagem equivalente no Luxemburgo seria de 100%. Em seguida, é também verdade que Obama tem obtido percentagens constantes de 47% nas intenções de voto. E finalmente, por estranho que isso soe aos ouvidos dos europeus, há 46% de americanos que pagam 0 (zero) de imposto sobre o rendimento (as razões para tal são várias: as taxas de imposto são menos elevadas do que na Europa, e existem vários motivos para deduções, introduzidas no direito fiscal por ambos os partidos – desde baixos rendimentos a idade avançada, passando por investimentos em educação; além de que existem outros tipos de impostos aplicáveis). Não se pense que todos estes americanos que fogem legalmente aos impostos são pobres: no topo da pirâmide estão mesmo 4000 famílias com rendimentos de mais de um milhão por ano.

A grande manipulação consiste em apresentar estes três grupos como apenas um só, já que eles são radicalmente distintos: a maior parte do grupo que não paga impostos, por exemplo, tende a votar republicano – e portanto, bem ao contrário de estarem fora do alcance da confusa mensagem de Romney, constituem na verdade a sua base de apoio eleitoral. Isto para além, claro, dos grandes contribuintes para a sua campanha, empresas financeiras deliciadas com a mensagem de reduzir os impostos para os mais ricos e cortar também na despesa do Estado onde ele é mais necessário – nomeadamente, nos programas de saúde.

O que realmente atira o candidato republicano contra as cordas do ringue eleitoral, no entanto, é o desprezo óbvio que ele sente por tantos dos seus compatriotas. Isso, ou a hipocrisia de criticar os impostos alheios sendo alguém que, do alto de uma das maiores fortunas do planeta, pagou 14,1% de impostos em 2011.

O ataque das super-máquinas fotográficas

Há mais de dois anos escrevi neste mesmo espaço um texto que anunciava em título algo como “A maior feira de arte do mundo está a 200 km do Luxemburgo” (referia-me à TEFAL, que acontece todos os anos em Maastricht pela primavera). Mas fazendo os mesmos 200 km na direcção de Colónia é possível ver outra feira recordista – a Photokina, que só acontece de dois em dois anos, é o maior certame de imagem de todo o planeta. E para sua conveniência, caro leitor, acontece precisamente esta semana (até domingo).

Os números da Photokina são estonteantes, e ajudam a explicar o porquê do seu sucesso – no que é aliás uma história agradável para a Europa: de facto, é relevante que este evento não se realize nem no Japão, de onde são oriundas as maiores empresas de imagem, nem nos EUA, com o maior mercado, nem sequer na China, onde são fabricadas cada vez mais máquinas e objectivas, mas sim no coração do continente que é a nossa Casa Comum. Só na edição passada, em 2010, estiveram presentes nada menos de 1251 empresas expositoras, cujos produtos foram vistos por 181464 pares de olhos (e mãos, que muitas máquinas estão lá precisamente para serem manuseadas), pessoas essas vindas de 165 países diferentes. Tudo relatado por nada menos de 6307 jornalistas acreditados.


Por gargantuanos que sejam, os números apenas contam uma parte da história, e este ano eles devem subir: a fotografia sofre actualmente uma pequena revolução silenciosa, pouco influenciada pelos ventos adversos da economia global. É que finalmente, o mercado global da foto, dominado pelo duopólio Canikon (Canon + Nikon) desde sempre muito conservador na sua gestão dos produtos lançados, está agora a sentir a pressão de concorrentes que vendem menos mas são mais agressivos, tais como a Sony, Fuji ou mesmo Apple e Samsung. Estas últimas, a cada mês, vão engolindo fatias cada vez maiores da parte mais baixa do mercado da imagem – o das máquinas fotográficas compactas. Faz cada vez menos sentido gastar 250 euros em mais um gadget que é preciso transportar, além de pensar em carregar as baterias e comprar cartões de memória, se no outro bolso do casaco já lá está um iPhone ou Galaxy que têm (por enquanto...) quase as mesmas características técnicas, já incorporam de origem capacidades para partilhar facilmente nas redes sociais a foto que acabámos de tirar, e além disso são insuportavelmente mais cool...

Conscientes da inevitabilidade do desaparecimento deste segmento – que é ainda muito lucrativa para as marcas fabricantes - estas decidiram apostar em força na parte alta do mercado, e em 2012 assiste-se a uma situação curiosa em que chovem máquinas fotográficas full frame, até aqui reduto dos profissionais, dado que o seu preço facilmente ultrapassava os 7000 euros. Nestas máquinas, os sensores digitais são do mesmo tamanho de um filme 35 mm (ou seja, um rectângulo de 3,6 por 2,4 cm); estes sensores são uma espécie de cérebro da máquina, a sua peça mais importante. A passagem do filme para o digital fez-se ao substituir o filme de nitrato de prata que regista os diferentes tipos de luz por um pequeno chip digital que reage à exposição à luz, o tal sensor que nos primeiros aparelhos digitais eram pastilhas pequenas para reduzir custos, mas têm vindo a crescer inexoravelmente. Mais do que outra coisa, a Photokina 2012 vai ser a luta destas aparelhos de grande potência que abrem um enorme manancial de possibilidades para imagens cada vez melhores, mais nítidas, mais luminosas e com menos interferências. A técnica continua a proporcionar-nos verdadeiros avanços, pelo que há que aproveitar essa bonança – sobretudo durante estes tempos de retrocesso social e económico.

O bilhete para a feira Photokina custa 45 euros.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

É a austeridade, estúpido!


“É a economia, estúpido” tornou-se uma das frases políticas mais conhecidas de sempre, criada pelo estratega de campanha eleitoral de Bill Clinton, quando o então comeback kid conseguiu a improvável proeza de, partindo de uma base eleitoral pequena e relativamente pobre dos Estados Unidos, derrotar todos os adversários democratas e finalmente, já nas urnas em 1992, também o presidente em exercício, George Bush (pai) – o homem que apenas um ano antes tinha atingido taxas de aprovação na ordem dos impensáveis 90% e não compreendia por que razão estava agora em dificuldades nas sondagens.

Clinton lembrou-lho. A frase, criada para consumo interno, acabou por tornar-se no mote da campanha: Bush não iria conseguir renovar o seu mandato presidencial porque os EUA estavam em recessão. O repto, é necessário sublinhá-lo, não encerra em si um insulto pessoal; a palavra “estúpido” marca a evidência da incontornável explicação. Ou seja, em vez dessa, poderia lá estar a palavra “obviamente!” – porque o problema era, obviamente, a economia.

O governo português descobriu, espantado, que não vai conseguir cumprir o valor do défice prometido às instâncias internacionais – e decidiu anunciar uma ronda de cortes cegos que vão afectar os suspeitos do costume, ou seja, trabalhadores por conta de outrém, funcionários públicos, reformados, todos os rendimentos provindos do trabalho (mais uma vez, os rendimentos do capital escapam incólumes), e no fundo toda a gente; todas as pessoas que juntas constituem uma sociedade e uma economia, pessoas de carne e osso que respiram e riem e sonham e vivem e consomem e - a cada decisão maldosa das elites que os manipulam – fazem um pouco menos de cada.

Se uma pessoa têm (muito) menos rendimento disponível, perdido na enxurrada de um enésimo aumento de impostos para alimentar o pântano de Lisboa, e se ainda por cima não tem alegria no presente ou confiança no futuro, vai consumir menos. Todos estes efeitos individuais somados, o impacto é brutal – a economia portuguesa vive em grande parte do consumo interno, como dele vivem grande parte das suas pequenas e médias empresas que não têm vocação exportadora. Estas, não vendendo, vão continuar a fechar a ritmo de hip-hop, lançando ainda mais pessoas no desemprego, obrigando o Estado a custos acrescidos com subsídios sociais. Simultaneamente, do outro lado, a actividade económica abranda, o Estado cobra menos impostos, as receitas descem – e a própria doença que queríamos resolver, o défice público, cresce inexoravelmente, lançando a necessidade de nova ronda de medidas correctivas.

Neste ponto, justiça seja feita ao governo português, que apesar de ser actualmente um dos mais radicalmente dogmáticos do mundo ocidental, ocupa apenas uma carruagem no enorme comboio da economia neoclássica que preconiza a mesma fórmula cega, contraproducente e sem histórias de sucesso para contar: orçamentos equilibrados custe o que custar, desmantelamento, empobrecimento, regressão. Em nome dos míticos objectivos da “confiança expansionista” - que não cria empregos nem crescimento - cada vez mais sacrifícios são pedidos, e há um certo espanto quando o paciente económico não apenas não melhora, como parece piorar constantemente. E no entanto para este pequeno mistério a resposta até é simples: é a austeridade, estúpido!

A RTP já não existe e ainda ninguém a avisou


A silly season de Agosto em Portugal tem três assuntos incontornáveis: incêndios, férias e a nova época futebolística. É adequado, porque em geral está calor e o cérebro merece descanso das preocupações trazidas pela política ou pela economia (ou melhor dito, por ambas). O governo do país aproveitou a distracção geral para lançar a discussão sobre um problema que urge resolver, lançando assim a guerra que está apenas a começar em nome do conceito - tão sacrossanto quanto mítico - do "serviço público de televisão".

O conflito acontece porque mais uma vez alguém tenta tocar na vaca sagrada chamada RTP - e quando tal sucede este lóbi, poderosíssimo no país, mobiliza todas as forças para morder quem ousou perturbar o seu sono profundo. Historicamente, a gigantesca empresa sai sempre vencedora destes braços-de-ferro, por vezes mesmo reforçada no seu rico imobilismo, e nada leva a crer que será diferente desta vez - até porque a carta ideológica foi imediatamente jogada, com todos os partidos à esquerda do centro político a saltarem a terreiro para defender o tal ideal mítico - que erroneamente, mas não por acaso, confundem com a velha empresa.

Não tem de ser assim. Sobretudo, não deveria ser assim. Olhemos de frente alguns factos: nos últimos dez anos, a RTP teve um prejuízo acumulado de 3770 milhões de euros. Para ajudar a medir a brutalidade de tal montante - suportado pelos contribuintes portugueses e europeus - consideremos outros dois valores ao acaso: no novo hospital de Barcelos, de média dimensão, foram investidos 50 milhões; e os custos dos mais caros filmes produzidos no país rondam o milhão de euros. Grosso modo, poderíamos afirmar que em vez de pagar a José Carlos Malato e outras pseudo-estrelas salários principescos de 28 mil euros por mês (4 vezes o do presidente da República), o Estado português poderia ter construído na última década 75 hospitais. Ou financiado 3770 filmes para promover a nossa cultura. Ou ainda construído uma rede de comboios rápidos para servir todas as cidades do território, ficassem elas no interior ou no litoral.

O que obtemos nós, cidadãos, por tanto dinheiro? Exactamente o mesmo que nos canais dos botõezinhos do telecomando mesmo ao lado: os mesmos concursos alarves, telenovelas, touradas, o mesmo entretenimento contínuo e embrutecedor, o mesmo jornalismo sensacionalista - só que com ainda menos profissionalismo ou isenção, seja esta política ou desportiva. "Serviço público" não é o telelixo; seria sim produção própria (de documentários ou investigação, não de novelas), uma defesa coerente da língua portuguesa, uma preocupação com a qualidade, a diversidade e os públicos minoritários (em vez da ditadura das audiências); algo como a RTP2, com um orçamento low cost, consegue raramente ser. E também - em vez de uma RTP Internacional que, na sua ideologia salazarenta, mostra ao mundo um Portugal de "quatro paredes caiadas" (em) que nenhum português (se) deseja ver ou rever - uma difusão para a diáspora portuguesa do melhor que se faz em televisão no país, viesse de que canal viesse. Mas não temos nada disto.

No fundo, a relevância da RTP terminou simbolicamente no dia em que o sinal televisivo foi aberto à concorrência, há vinte anos. Hoje, com audiências que não chegam a um décimo das de 1986, perante uma geração que olha muito mais para o ecrã do computador que para o televisor, se a RTP desaparecesse de um dia para o outro poucos se lembrariam dos seus canais ao fim de um mês; em certido sentido, na filosofia absolutista do "tudo para toda a gente" com que foi criada, já não existe há muito. Só ainda não se apercebeu que não passa de um espectro.

Morto a 4 de Julho


Não sou eu quem vai negar que os cínicos se sentem à vontade na política, mas por vezes esta também permite que a democracia representativa puxe dos seus galões, as elites decidam dar ouvidos aos cidadãos e os interesses destes prevaleçam sobre a ganância corporativa. Não acontece muitas vezes – e como tal, quando acontece, merece ser realçado.

A 4 de Julho, data mítica da independência dos Estados Unidos da América, o Parlamento Europeu reuniu-se em Estrasburgo pela última vez antes das férias de verão e fechou a época em beleza, ferindo de morte o acordo de comércio anti-contrafacção (ACTA, na famigerada sigla em inglês). O voto do hemiciclo europeu foi tão esmagador (478 votos contra, apenas 39 a favor, e 165 abstenções) quanto certeiro; Vital Moreira, o cabeça de lista socialista que no PE tem servido como verdadeiro testa-de-ferro das grandes corporações e obteve a duvidosa honra de ser o único deputado em toda a metade esquerda da sala (bem como o único de todos os deputados portugueses) a votar a favor, admitiu-o: "este acordo, neste formato, está morto".

O monstro que caiu trespassado a 4 de Julho era uma lei negociada às escondidas nos últimos meses por obscuros políticos e agentes não eleitos que trabalham para defender os interesses não dos eleitores, não dos cidadãos, mas sim das grandes multinacionais. Uma lei ratificada em tempo recorde - para que ninguém tivesse tempo para sequer se aperceber do que estava a acontecer, quanto mais para protestar - por quase todos os países ocidentais, entre eles 22 europeus; uma lei redigida em termos propositadamente vagos para que o poder discricionário da repressão fosse ainda mais vasto. Disfarçado de "acordo de comércio", coberto com uma fina camada de "anti-contrafacção" (para que a Europa, detentora da maior fatia de propriedade intelectual do mundo, engolisse melhor a pílula), o ACTA servia como (mais) um instrumento poderoso para retirar direitos a cada um de nós e atirá-los para o confortável regaço de governos sem rosto e corporações sem escrúpulos. O texto tencionava transformar os fornecedores de acesso à internet em polícias da rede, responsáveis por tudo o que nela aparecesse - e prontos a cortar o acesso, sem recurso possível, a quem eles bem entendessem. As indústrias musical e filmográfica passariam a ter a última palavra sobre tudo o que pode circular na net; a indústria farmacêutica, não satisfeita com o seu nível obsceno de lucros, poderia impedir o acesso dos mais necessitados a medicamentos genéricos, e a indústria agro-alimentar poderia cortar a utilização de muitas sementes "patenteadas", o que lhe daria um efectivo controlo sobre as colheitas e a cadeia alimentar.

A beleza poética é que a espada que derrotou este monstro foi espetada pela única instituição europeia directamente eleita pelos cidadãos, os mesmos que endereçaram sete petições ao PE - uma delas reunindo uns absolutamente impressionantes 2,8 milhões de assinaturas - exigindo a rejeição do ACTA em nome dos direitos humanos e da liberdade de expressão. Sim, esta batalha foi ganha, mas o império contra-ataca: nos EUA já há uma nova tentativa da indústria, chamada IPAA, a ser empurrada para os comités do Congresso antes que alguém repare; na Rússia, há apenas uma semana, foi aprovada uma lei que permite ao governo fechar qualquer sítio web dissidente. E na Europa, o fantasma do ACTA também regressará, fatalmente. Não baixemos a guarda.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O não assunto do não ministro


Leitor, gostaria de tirar um curso superior para subir (rapidamente) na vida? Não há qualquer problema. Inscreva-se numa juventude partidária, cole alguns cartazes e, ao fim de algum tempo, mande os outros colarem cartazes. Apareça em alguns jantares, vá lanchar com as pessoas certas, pratique actividades finas (equitação ou golfe nunca passam de moda) e sobretudo inscreva-se numa sociedade secreta qualquer (em Portugal, a Maçonaria trabalha muito bem). Depois escolha uma universidade privada onde os seus novos amigos tenham bastante influência, e já está: após um ano sem pôr os pés nas aulas e quatro meros exames (avaliados pelos seus companheiros de partido, lembre-se), já pode exigir que o tratem por "doutor".

Foi este o percurso do n.º 2 do governo português, o ministro Miguel Relvas, um político arrivista que graças à sua "experiência profissional" (de alguns meses em empresas de consultoria, por exemplo) obteve equivalências a 32 das 36 cadeiras que constituem a licenciatura em Ciências Políticas na Universidade Lusófona. Ironicamente, uma das cadeiras que Relvas foi mesmo obrigado a fazer chama-se "Introdução ao Pensamento Contemporâneo" - e haverá algo mais contemporâneo que o compadrio, a mentira e a corrupção? O professor da cadeira considerou que não, e avaliou o agora ministro com 18 valores. O primeiro-ministro português, Passos Coelho, desvaloriza todo o caso como um "não assunto" - mas um curso de Ciências Políticas (um a sério) ensinaria logo à partida que a relação de confiança entre eleitor e eleito é um eixo essencial de todo o sistema. E também que a ignomínia ao poder nunca deu bons resultados.

O ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares nem sequer é original: a política europeia apresenta-nos actualmente uma onda de casos de distorção do percurso académico cometidas por políticos de carreira com altas responsabilidades na gestão da coisa pública. Ainda em Portugal, o anterior primeiro-ministro, José Sócrates, licenciou-se a um domingo numa universidade sem qualquer credibilidade. Só na Alemanha foram descobertos recentemente sete casos de plágio de teses de doutoramento (todos bem dissecados pelo excelente sítio VroniPlag Wiki), atingindo em cheio dois deputados europeus dos liberais e, no caso mais mediático, Zu Guttenberg, o ministro da Defesa e "menino querido" de Angela Merkel e dos cristãos-democratas no poder.

Na Hungria foi o próprio presidente do país a cair em desgraça por ter copiado o trabalho de um conhecido autor búlgaro, e nem a maioria absoluta do seu partido no Parlamento o salvou da vergonha da demissão. Na própria Bulgária, a ministra da Agricultura inventou uma licenciatura em Berlim (falsificando para isso as assinaturas dos professores) e só foi apanhada por ter também tentado justificar a sua evidente gravidez com "um tumor". Na Roménia, o primeiro-ministro Victor Ponta viu dois ministros consecutivos escolhidos por si serem obrigados a demitirem-se por plágio académico - a ironia é que ambos os ministros tinham a pasta da... Educação. E agora é o próprio Ponta a ver-se envolvido no seu próprio escândalo de plágio, que certamente levará à sua demissão.

Em todos estes casos, os detentores de cargos políticos lutaram com unhas e dentes para se agarrarem ao lugar e conseguiram-no durante uns tempos, apenas logrando com isso enfurecer ainda mais a opinião pública contra si próprios e, por extensão, toda a credibilidade da classe política - e do sistema de ensino superior. Como tal, a pergunta impõe-se, premente: que espera o ministro Relvas para se demitir das suas funções pagas pelo pobre Estado português?

Ainda não chega

Itália derrota Alemanha e acaba por beneficiar sobretudo Espanha, a maior vencedora. Portugal, entretanto, tem uma prestação digna por entre as suas várias carências.

Poderia estar a falar do Europeu de futebol que terminou no domingo, mas não; é uma simplificação dos desenvolvimentos do Conselho Europeu “decisivo” da semana passada. A cimeira foi apresentada como decisiva para salvar a moeda europeia – a 19.ª cimeira merecedora de tal título desde o início da crise financeira. Talvez pelo cansaço acumulado, a verdade é que as expectativas em relação ao resultado de mais este jamboree dos líderes europeus eram baixas... e acabaram por ser ultrapassadas. A Itália e a Espanha ameaçaram vetar qualquer acordo enquanto a Europa (leia-se, a Alemanha da chanceler Merkel) não concedesse medidas óbvias para reduzir a asfixia financeira em que se encontram os países da periferia europeia: sem liquidez na economia nem nos bancos e obrigados a financiarem-se a taxas de juro proibitivas nos mercados.

E, às altas horas da madrugada de sexta-feira, as decisões finalmente surgiram. Os fundos europeus de estabilização (o BCE ainda não, mas tal não passa de uma questão de tempo) vão poder comprar obrigações dos países que “que cumpram com as suas reformas”, permitindo-lhes financiar-se a juros razoáveis e não depender totalmente dos intolerantes mercados; os bancos em dificuldades vão poder recapitalizar-se para poder 1. sobreviver, e 2. começar a emprestar algum capital de volta à economia. E para compor o bolo há ainda 120 mil milhões de euros que serão redireccionados para grandes projectos de infraestruturas, ajuda a regiões desfavorecidas e crédito a pequenas e médias empresas.

Estes são os primeiros passos significativos que se afastam do mantra da austeridade, do ajustamento fiscal, ou da punição pelas políticas irresponsáveis. Quase quatro anos após o eclodir da crise, mais de dois anos após a imposição deste “caminho único” (e errado), as economias europeias estão de novo a entrar em recessão, o desemprego é galopante, e não se vislumbra a luz ao fundo do túnel. Mesmo que forçado por duras negociações políticas, o fim da inflexibilidade alemã é simbólico e motivo de júbilo, dado que pode significar o primeiro passo num longo caminho de recuperação económica. E as bolsas, pelo menos num primeiro momento, reagiram em verdadeira euforia.

Só que não chega. A magnitude dos problemas é tal que estas medidas não passam de cuidados paliativos de forma a melhorar os indicadores e ganhar algum tempo, esperando pelo melhor. A discussão sobre as soluções está inquinada à partida, porque foi estabelecido – de forma acintosa e enganadora – que a origem dos problemas estava no comportamento gastador dos Estados do sul. Pelo contrário, Espanha – o epicentro actual da crise – apresentava um rácio de dívida baixo e um excedente orçamental quando a crise começou; as políticas de cortes sucessivos só têm contribuído para agudizar os problemas, que começaram antes no altíssimo nível de bens não transaccionáveis (como casas ou autoestradas) comprados com financiamento de bancos alemães... até certo ponto, o mesmo pode ser dito em relação a Portugal.

Resolver a crise exigirá muito mais visão, coragem e europeísmo do que a timidez demonstrada até agora. Exigirá, para começar, dívida pública comum, um maior papel de intervenção do BCE, e uma taxa de inflação mais alta. Esperemos que a 20.ª cimeira para salvar o euro o perceba – já perdemos demasiado tempo.

A Microsoft mete mais um avançado

Se o caro/a leitor/a se interessar por futebol, arrisco-me a adiantar dois pontos prévios sobre o seu conhecimento: 1. sabe que a selecção portuguesa, ganhando à selecção espanhola, se poderá apurar hoje para a sua segunda final de um Europeu; e 2. também sabe que quando uma equipa grande está a perder com uma equipa mais jovem e aguerrida, a solução de que o treinador lança mão é inevitavelmente meter o avançado predador que o público pede desde o primeiro minuto, o salvador de quem se espera que seja capaz em poucos minutos de fazer o que o resto da equipa não conseguiu fazer em uma hora: dar a volta ao jogo.

De certa forma, foi isto que a Microsoft fez esta semana. Consistentemente batida no mercado dos computadores pela muito mais dinâmica Apple, sem armas para travar o sucesso retumbante da "ardósia" iPad - que ameaça agora arrancar milhões de utilizadores da frente dos seus PCs de secretária e sentá-los, em vez disso, no sofá em frente ao seu fino ecrã negro -, a Microsoft decidiu entrar no mercado florescente criado pelo mesmo iPad, o dos tablets. O novo ponta-de-lança que a empresa criadora do Windows lançou para o terreno de jogo chama-se Surface (superfície); é um tablet, ou seja, um computador (limitado nas suas capacidades) cujo formato físico não passa de um ecrã fino e leve. E sem teclado, embora o novo Surface se queira destacar exactamente por essa vantagem competitiva: a sua cobertura em borracha flexível inclui teclas e mesmo uma espécie de rato de portátil, medindo apenas 2 mm de espessura e acoplando-se magneticamente ao tablet. Interessante, como interessante é o formato 16:9 do ecrã, ideal para ver filmes.

Mas o Surface está a entrar num jogo minado, e é provável que se venha a juntar às fileiras de produtos medíocres que apareceram com a missão de combater o iPad... e perderam. A ideia da Microsoft é copiar as boas ideias da empresa da maçã, e a apresentação do Surface foi feita ao mais puro estilo Apple. O vice-presidente Steven Sinofsky, calvo, usou um pulôver azul liso e um estilo cool muito, mesmo muito similar ao do falecido Jobs; um vídeo muito popular no YouTube mostra que até as frases utilizadas foram decalcadas da apresentação do iPad há mais de dois anos. Viral, no entanto, e também o mais comentado sobre o novo computador, foi o vídeo que mostra o Surface a bloquear nas mãos de Sinofsky exactamente quando este lhe gabava as qualidades multimédia, multitarefa e de surfista de internet... o desejado ponta-de-lança já está lesionado e ainda não entrou em campo.

Ver o falhanço em directo do Surface incomoda, e isto porque é impossível não sentir alguma pena pelo abandonado apresentador. Consciente que o futuro da sua empresa reside até certa medida no sucesso daquela tablete nas suas mãos, Sinofsky lutou como pôde: primeiro escondeu o ecrã e continuou a falar, depois mudou de assunto - mas o computador continuou teimosamente bloqueado -, em seguida soltou um pouco convincente "ups!", finalmente pediu desculpa e correu para uma mesa perto, trocando de tablete. Aflitivo, e revelador: como sempre, a cópia não passa de uma pálida imitação do original. A Microsoft abriu uma frente de batalha contra a Apple que vai provavelmente perder, e não contente com isso, compete agora também com os seus antigos aliados (HP, Acer, Asus, Dell...) que faziam hardware com Windows e estão agora furiosos por nem terem sido consultados sobre o Surface.

Grécia-Alemanha


No sábado à noite, a seleção da Grécia surpreendeu a Europa ao qualificar-se para os quartos de final do Europeu de futebol. No domingo, a Grécia foi a votos pela segunda vez em seis semanas, numa eleição crucial para o futuro do país, e escolheu continuar no euro - a moeda, claro.

A ironia é que no futebol a Grécia vai agora defrontar a até agora imbatível Alemanha, que se qualificou no mesmo dia das eleições - e sobre estas já surgiu um cartoon certeiro: "Quem ganhou as eleições na Grécia?", pergunta um homem a um amigo que está a ler um jornal. "A Alemanha...", foi a imediata resposta.

As hipóteses da Alemanha para o jogo desta sexta-feira em Gdańsk são fortes, obviamente, e será complicado para o treinador que orienta a equipa grega (o português Fernando Santos) fazer prevalecer a habitual estratégia de antijogo dos helénicos. De uma forma ou outra, o vencedor do jogo será um e um só; já os resultados das eleições são bem mais difíceis de analisar. O partido mais votado (Nova Democracia, ND) pertence ao mesmo grupo de centro-direita a que pertence a CDU de Angela Merkel (o Partido Popular Europeu, que domina actualmente toda a política europeia); e a sua vitória representa, até certo ponto, uma decisão a favor do caminho pré-determinado de mais austeridade em cima do quinto ano de recessão no país. Rapidamente apareceram títulos de imprensa como "a vitória da responsabilidade sobre o aventureirismo", ou "a Grécia escolheu a Europa". Até certo ponto, isto é verdade e motivo de alívio e regozijo, porque o evoluir do país é crucial para o euro e a economia global. Mas cuidado com as análises rápidas; há imensos matizes cinzentos nesse retrato a preto e branco.

O primeiro é, desde logo, a História recente: em 2008, quando a economia grega implodiu, os conservadores estavam sozinhos no poder e, perante o agudizar da situação, pediram eleições antecipadas, sendo aí duramente castigados pelo eleitorado que quis punir a sua má gestão. Ainda assim, nesse ano, a ND foi para a oposição com 33% dos votos, enquanto agora não passou dos 29,7%... uma posição muito fragilizada sobre a qual tentar formar governo. E com quem? Com o Pasok, o anterior líder, que perdeu 2,3 milhões de votos (passando de 44% a 12% do total) em apenas três anos? Com a esquerda radical do Syriza, os populistas que desejam rasgar o acordo com a troika ao mesmo tempo que se manteriam no euro? Com o Dimar, uma pequena cisão deste último liderada por um advogado ex-comunista? Ou pior ainda com o Aurora Dourada, um partido abertamente neonazi cujo momento selvático da campanha foi a agressão em directo na tv de um seu candidato (homem) a duas candidatas (mulheres) da esquerda?

Nenhum destes parceiros é boa companhia para tranquilizar os mercados e os parceiros europeus, e acresce que o próximo primeiro-ministro, Antonis Samaras, se opôs em 2010 ao primeiro resgate do país - algo que não fica bem no currículo de alguém que quer convencer os credores que vai fazer tudo para cumprir as condições draconianas do segundo, e provavelmente de um terceiro. Sim, porque o caminho para a Grécia é cada vez mais sinuoso e o paciente está cada vez mais enfraquecido pelas exigências da suposta cura. O filme é desconfortável para os portugueses, que reconhecem nele demasiadas profecias, mas a verdade é que - exaustos, angustiados, confusos - os gregos mostram nas suas repetidas eleições que já não sabem bem por onde ir. Mas sabem pelo menos por onde não ir: nestas legislativas, o Partido Trabalhista Pan-Agrário, liderado por Miltiadis Tzalazidis, obteve exactamente... 1 voto. O senhor Tzalazidis também tem ainda algum trabalho pela frente.

Visto do outro lado

“Mulheres lindas de morrer, mais um vodka para atestar... nas noites de Budapeste é sempre a rock ‘n’ rollar”, cantavam os Mão Morta há vinte anos, num dos melhores momentos da música alternativa portuguesa. Em 1992, com as ruínas do muro de Berlim ainda frescas, a Hungria fazia parte de uma Europa também ela alternativa, algo exótica e também um tanto inóspita, certamente desconhecida. Sair de Viena e chegar a Budapeste, as duas antigas grandes capitais do magnífico império Austro-Húngaro, significava atravessar uma fronteira que até há pouco tempo era estanque, quase como saltando um muro simbólico para aterrar no conceito cultural e geográfico da “Europa de Leste”.

O tempo passou muito rápido nesta zona do Mundo, Budapeste vai recuperando a sua aparência (e espírito) de grande metrópole sofisticada, e da mesma forma também os outros países do antigo Pacto de Varsóvia, da Polónia à Hungria, da República Checa à Lituânia, se vão ocidentalizando – por vezes de forma literal, dado que nenhum habitante destes países gosta de pertencer ao Leste: a simples menção do termo a um checo arranca a imediata resposta “Praga fica mais a Oeste que Viena”, na Lituânia afirma-se que o centro geográfico do continente se encontra ali (curiosamente, Eslováquia e França defendem exactamente o mesmo). Polvilhada pelas mesmas lojas que existem em Barcelona, Londres ou Estocolmo, Budapeste já não é exótica nem alternativa; as mulheres talvez continuem lindas, mas o vodka flui menos e o rock ‘n’ roll está confinado aos grandes festivais de verão patrocinados por telemóveis. A Europa Central entrou na Europa.

Aquela fronteira indisfarçável, o muro imaginário que divide o continente, simplesmente deslocou-se para montante: passa agora nomeadamente pela linha que separa a Ucrânia da Polónia, organizadores conjuntos do Euro2012. A competição está a ter o efeito indesejado de mostrar ao mundo o fosso que separa os dois. Na Polónia, membro da União Europeia (e da NATO), as cidades estão preparadas, os estádios são óptimos, as comunicações são fáceis; do outro lado, na Ucrânia, o standard é bem diferente. Chegar é logo difícil, dado que não há muitos voos e nas fronteiras terrestres a espera e a burocracia fazem lembrar outras eras; mover-se dentro do enorme país também não é divertido, com poucas estradas novas e comboios antigos que páram em todas as estações. O problema do alojamento seria anedótico não fosse grave, já que (à excepção de em Kiev) existem pouquíssimos e maus hotéis, e os que existem permitem-se cobrar somas verdadeiramente exorbitantes aos incautos turistas, numa ganância extrema que provocou inusitadas críticas da própria UEFA e do governo ucraniano. E depois há as questões que denotam amadorismo, como novos estádios construídos em sítios ermos que obrigam os adeptos de ambas as equipas a lutar corajosamente por um lugar num autocarro apinhado para voltar para casa (o que é inseguro), ou em alternativa a caminhar misturados por quilómetros (o que é ainda mais inseguro... até porque no futebol do país persistem problemas de violência e racismo).

Ainda do outro lado do muro, a Ucrânia não estava preparada para o Euro2012; várias vezes foi avisada que poderia perdê-lo. Mas agora a grande competição está a decorrer, e é possível que chegue ao seu termo sem nenhum choque de monta. E terá certamente efeitos positivos – o contacto dos habitantes com o diferente, e a própria melhoria da imagem que os outros europeus têm do país. Pelo menos a equipa que ganhar o Euro ficará a gostar muito da Ucrânia – esperemos que aquela seja Portugal, mas na minha opinião as probabilidades de tal sucesso são muito escassas.

O próximo grande projecto

O ideal europeu moderno não nasceu após uma boa noite de copos, nem muito menos após um festival de música de estádio tão cheio de boas intenções como de más performances. A Europa Unida, o sonho europeu encarnado em nomes tão diversos como Estados Unidos da Europa, Comunidade Europeia do Carvão e do Aço ou a actual União Europeia, foi a nossa resposta aos horrores da guerra. Foram as ruínas a que o nosso continente se viu reduzido, uma vez mais, em 1945 a definitivamente nos abrir os olhos para a necessidade de concretizar a utopia de alguns visionários. O projecto europeu era e é, antes de tudo o resto, um projecto de Paz; e após milénios de lutas intestinas, os seus integrantes - nós - conhecemos actualmente o mais longo período ininterrupto sem guerras internas de sempre. São apenas 67 anos, mas nunca tinha sido conseguido antes.

A Europa nasceu como resposta a uma crise - é esta a sua génese e, até certo ponto, o seu alimento. Através de grandes ou (mais frequentemente) pequenos passos, a força integradora do continente soube inspirar-se nos escolhos do caminho. É extraordinário ver hoje o edifício que, tijolo a tijolo, camada a camada, foi construído pelos homens que lideraram o processo, grandes políticos europeus de outras eras: as pegadas de Monnet, Schuman, Rey, De Gasperi, Spaak, Schmidt, Kohl, Miterrand, González, Delors e tantos outros foram deixadas em conjunturas económicas também difíceis, sem maior sustentação pública que a de hoje em dia, pisando o terreno historicamente inexplorado dos inimigos de ontem que decidiram juntar-se no amanhã. A sua inspiração é sentida hoje em dia por líderes fracos, indecisos ou populistas - não é possível esquecer o desabafo recente do velho Helmut Kohl que, referindo-se à sua sucessora Angela Merkel (do mesmo partido), lamentou amargamente que "ela esteja a destruir a minha Europa". Mas por muito populista que a presente geração de líderes seja, por muito pouco clarividente ou mesmo mesquinha que seja a sua baixa política nacionalista, o legado da construção europeia é demasiado precioso para pôr em causa. Está entranhado no sangue dos diversos Estados, está na nossa consciência e no nosso coração: não garante céus azuis nem um futuro róseo, mas pelo menos impede as elites dirigentes mais responsáveis (os extremos do espectro político estão isentos desta classificação) de alimentarem a ideia de que problemas globais poderiam ser resolvidos isoladamente, fora dos Tratados, fora das instituições europeias.

Hallstein, o primeiro presidente da Comissão agora liderada por Barroso, usou a famosa "imagem da bicicleta" para explicar porque era necessário um movimento constante para a frente, na direcção de novos projectos integradores: se a Europa parasse, poderia, tal como a bicicleta, cair. É de um novo projecto que a Europa agora precisa, apesar de nenhum dos anteriores estar adequadamente concluído; nem o mercado interno, nem a livre circulação de pessoas, a voz europeia afinada no mundo, a verdadeira governação política, ou (muito menos) a moeda única. Mas a crise actual já sugeriu soluções impensáveis até há poucos anos, como o direito da UE intervir nas políticas macroeconómicas de cada membro e, a prazo, a criação de um verdadeiro governo económico comum, acima dos países (nunca uma moeda única deveria ter sido criada sem este). Da crise nasceu, de forma inesperada, o nosso novo desígnio. É certo, um desígnio que existe pela negativa - salvar a Europa do declínio económico, da irrelevância e do desmantelamento - mas que não é menos absolutamente crucial por isso.

Adivinha quem vem jantar

Spencer Tracy era um actor extraordinário, a tal ponto que detém ainda hoje o recorde de nomeações para o Óscar de melhor actor, nove, tendo ganho por duas vezes. Infelizmente Tracy tinha diabetes, o que agravado pelo alcoolismo contribuiu para um ataque cardíaco que o fez parar de fazer cinema em 1963. Já em condições difíceis, o actor voltou aos sets para fazer um último filme em 1967 - Adivinha quem vem jantar - contracenando mais uma vez com a sua amante de longa data, Katherine Hepburn; Tracy ainda conseguiu filmar todas as suas cenas, e morreu duas semanas depois. O filme trata de uma temática difícil, os casamentos interraciais (numa altura em que vários Estados dos EUA ainda os ilegalizavam): a história inicia-se quando uma jovem branca decide apresentar o seu noivo aos pais "liberais" trazendo-o para jantar em casa deles, e gira em torno das reacções ao facto de o noivo ser negro, e os choques intermináveis causados por diferentes visões do mundo.

Os líderes europeus fizeram na passada semana uma espécie de adaptação política do filme. Na esteira da eleição de um novo presidente francês com uma agenda de "crescimento", os 27 governos organizaram um "jantar para o crescimento" nas instalações do Conselho, em Bruxelas. A ocasião serviu para apresentar Hollande aos seus novos pares europeus - um grupo em regra bastante conservador, sobretudo os partidários da linha dura da sra. Merkel, firme no seu papel de matriarca - e, tal como no filme de 1967, a química não funcionou e a consonância deu lugar ao amargor. O outro pretendente ao Eliseu, Nicolas Sarkozy, afinava estratégias antes de cada cimeira com mais ninguém que a chanceler, e Merkel participou activamente na campanha falhada pela sua reeleição. É óbvio que Hollande é um parceiro indesejado, e ele sabe-o.

As boas notícias são que o fosso que separa os dois cilindros do motor franco-alemão não é tão largo como o que é geralmente apresentado - e nunca poderia sê-lo, numa conjuntura tão delicada como a que vivemos. O encontro Merkel-Hollande (é uma questão de tempo até que o neologismo "Merkollande" substitua "Merkozy") tem sido apresentado quase como o duelo final de um vídeojogo, em que os respectivos bravos cavaleiros pugnam pela austeridade de um lado, pelo crescimento do outro. Naturalmente a realidade é bem distinta: todos desejam crescimento (a forma de o obter a prazo é que diverge), e todos concordam (menos os radicais gregos de esquerda que vão vencer as eleições de Junho) que alguma austeridade na despesa pública é neste momento desejável ou, pelo menos, inevitável.

Além da comida, o que esteve em cima da mesa no jantar para o crescimento foram medidas que já reúnem o seu consenso a nível europeu: grandes projetos de infraestruturas, mais dinheiro para o Banco Europeu de Investimentos, uma taxa sobre as transacções financeiras (ferozmente combatida pelo Reino Unido). Mas por outro lado também o tema escaldante das eurobonds, que Hollande considera o ponto de partida e Merkel apenas como o aumentar do problema. E os bancos da Espanha (e de Portugal...). E a Grécia. A Grécia que, em Junho, poderá ter-se votado a si própria para fora do euro. No final de Junho ocorrerá o verdadeiro Conselho Europeu "regular", que dura dois dias, e só aí chegará a pièce de resistance deste jantar.

Precisamos de Ti, 'mor

Uma das páginas mais belas da História portuguesa recente está relacionada com a independência de Timor-Leste. A população portuguesa mostrou uma solidariedade comovente quando a repressão se intensificou durante a década de 90 - o país inteiro vestido de branco chegou a paralisar em memória das vítimas, num momento arrepiante. E Portugal foi inexcedível em trazer a questão da ocupação indonésia para a agenda internacional, reclamando mérito na conquista da inesperada vitória que constituiu a criação de um novo país, o primeiro a ser criado neste século, em 2002.

Só passou uma década, mas o mundo muda muito rápido. Os timorenses já elegeram o seu terceiro presidente, Taur Matan Ruak, e o presidente da República Portuguesa está agora em Díli numa visita de Estado que despertou um tema surpreendente para as consciências lusitanas: chegou o tempo de ser Timor a auxiliar Portugal.

Timor-Leste produz petróleo. São empresas australianas quem o extrai do fundo do mar, mas as receitas do ouro negro (10 mil milhões de euros nos últimos sete anos) equilibram as contas do pequeno território, e permitiram mesmo a criação de um enorme mealheiro, uma poupança para permitir atravessar eventuais dias difíceis, à semelhança do que fizeram outros países bafejados pelos recursos naturais (o "fundo do petróleo" constituído pela Noruega, o maior do mundo, detém participações em quase todas as grandes companhias europeias). E Timor-Leste procura mais aplicações para o seu dinheiro, depois de já ter comprado dívida pública americana; a versão portuguesa promete hoje em dia taxas de juro bem mais aliciantes - e, com o risco adicional de uma possibilidade relativamente alta de bancarrota, aliando a essa remuneração atractiva as emoções fortes tão do agrado do investidor que tem os nervos de aço forjados em décadas lutando nas montanhas pela Resistência timorense.

A ideia de ter o Estado timorense a investir em Portugal já tinha partido do anterior presidente José Ramos-Horta, e desta feita Cavaco Silva nem pestanejou quando inquirido sobre essa possibilidade: "se o fundo do petróleo olhar para Portugal e considerar que pode fazer aí aplicações rentáveis... bem, é uma escolha dos timorenses", respondeu, num piscar de olho ao seu congénere. Taur Matan Ruak, nome de guerra que significa em tétum "dois olhos vivos" e cujo nome de baptismo é José Maria Vasconcelos, soube ler a situação e ripostou: poucas horas depois, avisou que o Português deve passar a ser ensinado como língua estrangeira, e nunca "como língua mãe". Ao fazê-lo, acertou-nos em cheio nas sensibilidades do antigo colonizador.

A opção sentimental tomada há 10 anos pelo Português nunca poderia ser pacífica num país que, na realidade, não fala a língua: oficialmente apenas 20% da população a compreende (menos que no Luxemburgo, portanto), e o número real deve andar longe deste. Só que Timor, onde se falam 17 línguas nativas sem expressão internacional, precisa de uma língua franca, e o português é ensinado nas escolas - estando portanto em progressão. Reduzir-lhe o estatuto seria provavelmente um erro irreversível, e desgastaria certamente algum do capital de simpatia com que o país conta entre os portugueses. A não ser, claro, que nos comprem muita dívida pública; se o fizerem, até toleraremos que Timor entre na Commonwealth e mude o nome para East Timor, que os tempos não estão para romantismos.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

E no entanto, ela move-se

"Eppur si muove", pronunciou Galileu ao ser condenado pela Inquisição a aceitar que era o Sol quem girava em torno de uma Terra supostamente imóvel. Tendo estas palavras sido realmente proferidas ou não, o "ela" referia-se aqui ao planeta Terra. Mas hoje, na Europa, algumas vozes com interesses inconfessáveis acabam de adoptar a sua própria versão de heliocentrismo - em defesa das suas próprias escrituras, o mantra neoclássico dos orçamentos a zero e do desmantelamento da economia pública.

O "consenso europeu" (e mundial) gizado como resposta à terrível crise iniciada em 2008 teve menos de consenso do que de hegemonia ideológica: em Novembro de 2011 apenas as pequenas Dinamarca, Áustria, Eslovénia e o minúsculo Chipre eram governados por partidos à esquerda do centro - todos os outros 23 governos europeus, incluindo os de todos os "grandes" Estados-Membros, eram essencialmente de matriz conservadora/popular. A solução encontrada, apresentada como não tendo alternativas, foi a da dor, da austeridade, dos cortes, dos "sacrifícios", da "punição" por crimes nunca bem especificados. A teoria era que estas demonstrações económicas de heroísmo salpicado de masoquismo teriam a sua recompensa (terrena) através de uma suposta renovada simpatia dos mercados e de um mirabolante acréscimo da confiança dos agentes económicos, que supostamente faria reavivar o produto da economia e fazer-nos a todos viver melhor muito em breve.

O curioso - e assustador - é que este tipo de pensamento, e de opções políticas e económicas, repete de perto o ocorrido durante a Grande Depressão iniciada em 1929, que só começou a ser combatida após a eleição de Roosevelt e o seu New Deal, quatro anos depois. Acreditar numa espécie de "austeridade estimulante" é o equivalente económico de acreditar no Pai Natal; agradável durante alguns anos, e uma desilusão forte quando a realidade entra em cena. No nosso caso, os resultados da austeridade já estão aí: economias paralisadas, uma segunda recessão, pânico nos mercados e desemprego. Tudo em crescendo, até porque as economias entraram em círculo vicioso.

Pois bem, se a realidade não valida as nossas opiniões, mude-se a realidade, pensaram alguns arautos do declínio, que acabam de declarar que a austeridade na Europa "não existe". E se ainda existiu alguma foi devido a aumento de impostos, que por alguma razão "não conta". Só por a austeridade "não existir" é que não está a funcionar, porque se existisse, certamente funcionaria.
Felizmente, há dados objectivos com que responder a estes desmandos, e é o próprio FMI que o demonstra: a austeridade não só existe como se move, e países como Portugal estão a fazer um ajustamento absolutamente brutal - porque muito oneroso e feito em muito pouco tempo - das suas despesas públicas: - 1,2% até 2011, e provavelmente -4,1% até 2013. A duras penas, a Grécia obteve uma melhoria de 11 pontos no seu défice estrutural. Até a Alemanha já cortou 2,3% da sua despesa só nos últimos dois anos.

O problema é precisamente esse: mais do não existir, a austeridade move-se para ocupar o espaço de qualquer solução complementar que se debruce sobre o crescimento. Precisaremos de eleger um novo Roosevelt? É que não se vislumbra nenhum no horizonte. Pelo contrário, há mais aprendizes do chanceler alemão que era seu contemporâneo.

A revolução dos detergentes


Proponho ao leitor um exercício: imagine que é dia de Natal, que está rodeado daqueles de quem mais gosta, e que o bacalhau e o perú estão quase a sair do forno. De repente, alguém ouve na televisão que o supermercado da sua rua tem produtos com 50% de desconto - e a debandada na sua sala é imediata e inevitável. O leitor, que nem tem paciência para ir às compras, ficou sozinho sentado à mesa, enquanto o resto da família passou o resto da tarde engalfinhado a lutar com o vizinho do lado pela última garrafa de detergente para a louça que ainda sobrava na prateleira dos produtos para a cozinha.

Grosso modo, foi isto que se passou em Portugal na semana passada, não no Natal, mas sim no dia do Trabalhador. Uma cadeia de supermercados, conhecida por ao longo de 17 anos de existência ser contra a estratégia de fazer promoções (ficou agora famosa, por exemplo, a campanha publicitária de há dois anos onde a mesma marca, referindo-se aos concorrentes, perguntava aos clientes "já pensou que se há condições para baixar os preços um dia, é porque eles são demasiado altos em todos os outros dias?"), optou no dia 1 de Maio por uma ofensiva de choque: sem o anunciar previamente, cortou para metade, só naquele dia, o preço dos seus produtos para a casa ou alimentares (nos quais os supermercados têm em média margens de 70% - logo, há mesmo condições para baixar os preços). O balanço foi extraordinário para a empresa, que esvaziou os seus stocks por todo o país, e colocou o seu nome firmemente nas bocas do mundo; um golpe profundo de marketing de que os supermercados (agora) holandeses bem necessitavam após ter perdido 1% de clientes exactamente ao mudar a sua sede (e os seus impostos) de Portugal para os Países Baixos...

O rescaldo da operação é bem menos meigo para os trabalhadores, que somos, fomos ou seremos todos. Desde logo, existe um desrespeito de cada um para consigo próprio: estragar horas preciosas de um dia de lazer primaveril, feito à medida para se respirar fundo, estar com os filhos, ir ao parque ou à praia ou ao café, e trocá-lo pela claustrofobia de um templo do consumo iluminado a lâmpadas fluorescentes e apinhado, é um verdadeiro atentado à própria dignidade pessoal - sobretudo quando a loucura colectiva impele a andar ao soco pelo último pacote de Skip (verídico, e não inédito, já que a polícia tomou nota de 50 ocorrências do género naquele dia). Em seguida há um dilema de respeito histórico: o feriado de 1 de Maio tem as suas origens em 1886 quando, em Chicago, a polícia disparou sobre a multidão que se manifestava a favor de dia de trabalho de "apenas" 8 horas, e em 1955, o Vaticano consagrou o dia como dedicado "a S. José, o padroeiro dos trabalhadores". Mas esses trabalhadores, envergonhados da palavra que os classifica como tal; incrédulos na utilidade dos sindicatos; aspirantes perpétuos a subir tanto na vida que esta os liberte da grilheta do trabalho e do cinzentismo da sua condição; incapazes de sair do sofá para se indignar contra o enésimo corte no investimento público em educação ou saúde; esses trabalhadores, no dia que os celebra, votam com os pés - não fugindo, nem em manifestações, mas sim pregando uma rasteira ao adversário na busca dos últimos espinafres ultracongelados. Como dizia o sociólogo Villaverde Cabral, "hoje a figura do consumidor é mais importante que a do trabalhador" - e esta é talvez a lição mais sórdida do 1.º de Maio de 2012.