Ainda não está chocado com estes números a grosso? Bem, o documento do governo prevê também que o desemprego atinja 13,4% da população activa. Trata-se tão-somente da maior percentagem desde a ditadura (quando grande parte dos portugueses perdia a vida guerreando em África e outra parte tinha de emigrar clandestinamente para fugir à miséria). Vai permitir a Portugal ultrapassar a Irlanda e a Eslováquia e tornar-se a segunda economia ocidental com mais desempregados (apenas atrás da Espanha). E claro, os valores da emigração - desta feita jovem e qualificada - não páram de acelerar.

Os impostos aumentam vertiginosamente, o investimento público cai a pique, os salários são cortados, os preços dos bens essenciais (e dos outros) sobem. O Estado central concentrará uma percentagem ainda maior do orçamento, mas ainda assim Lisboa é a região que mais dinheiro deve (bem mais que a Madeira, em segundo).
Tudo isto em nome do mantra neoclássico do "combate ao défice". O défice tem pais e mães, e eles são fáceis de identificar: a clique do Terreiro do Paço, aquela que vive de um Estado central que emprega 11% dos portugueses, esmagadoramente concentrado na burocrática capital; a malta que gravita entre governo, empresas públicas, e empresas privadas à sombra de dinheiros públicos, que arranja emprego por conhecimentos e passa uma vida a amamentar-se na torneira do Estado, até que se reforma... e continua a fazê-lo. O pântano dos institutos públicos, das fundações, das parcerias público-privadas, organismos que em comum têm o estarem baseados em Lisboa e beneficiarem a capital utilizando os impostos de todos. São os mesmos que fazem negócios escuros na Expo, no Centro Cultural de Belém, num novo e inútil aeroporto a ser construído em terrenos pertencentes a políticos ou numa linha de TGV que duplica uma autoestrada vazia para que um lisboeta possa ir passear a Madrid, ou ainda num metropolitano em que cada nova estação custa tanto como uma rede completa noutra cidade qualquer. São eles os implicados no processo Face Oculta e num banco privado, o BPN, salvo com dinheiro dos seus impostos para que alguns amigalhaços não perdessem os seus investimentos de risco. George Orwell satirizou-os cruelmente em "O Triunfo dos Porcos". O grande Eça de Queiroz era mais certeiro e mais prosaico - chamava-lhe "a choldra".





As águas agitam-se. O presidente do Sevilha, furioso, acaba de chamar à liga espanhola "a maior porcaria da Europa e talvez do mundo". O treinador do Arsenal e o presidente do Real Madrid já vieram propor uma verdadeira superliga europeia que substitua, em fins de semana consecutivos, a Liga dos Campeões. Eles sabem que a prosperidade do desporto futebol - que, sem o dinheiro dos oligarcas, incorre em défices crónicos - depende da incerteza dos resultados. O mesmo que já descobriram, a seu custo, os gestores da F1 e da NBA, que perderam milhões de seguidores sempre que foram dominados consistentemente por uma ou duas equipas.