quarta-feira, 16 de maio de 2012

Juncker está fora da UEFA

Para que serve o Eurogrupo? Está desculpado se não puder responder a esta questão, caríssimo leitor(a), ou mesmo se pensar que estamos a referir-nos à primeira fase da Liga dos Campeões em futebol. A verdade é que a “reunião informal de ministros das Finanças dos 17 países que compõem a zona euro” nem sequer tem um nome oficial designado nos tratados europeus, e as suas funções económicas e políticas repetem as desempenhadas por outros órgãos e cargos: o Banco Central Europeu, o presidente permanente do Conselho Europeu, o comissário europeu para os assuntos económicos, o conselho de ministros das Finanças (Ecofin, que reúne todos os 27 países, enquanto o Eurogrupo apenas reúne os 17 que utilizam o euro)...

Com o tempo, foi no entanto esta construção informal (tão informal que não existiam regras escritas para a sua existência até 2009) que se consagrou como a mais importante na arquitectura do euro e na governação económica de toda a Europa – e há poucas tarefas mais importantes no mundo político que esta. As características do grupo assim o proporcionaram: os 17 ministros das Finanças gerem todos a mesma moeda, por isso têm interesses similares, e tendem a ser menos demagógicos (e já agora, é suposto perceberem bastante mais de economia) que os políticos de carreira que chegam habitualmente a primeiro-ministro. E mais uma vez, o Luxemburgo beneficiou das suas fraquezas para conseguir um lugar de destaque nesta instituição de poder: como o país é inofensivamente pequeno e ocupa uma posição de charneira entre a França e a Alemanha, foi considerado campo neutro: o primeiro Eurogrupo deu-se em 1998 no castelo de Senningen, e em 2005, quando foi eleito um presidente permanente, a escolha lógica recaiu sobre o economista luxemburguês Jean-Claude Juncker. Até agora foi ele o único a ocupar o cargo, indo já no seu quarto mandato, que termina em Junho. “Certamente não serei eu”, disse Juncker quanto questionado sobre quem lhe vai suceder.

Não admira. Em Junho próximo, as capitais europeias verão com alívio a saída de cena de um homem directo (até algo brusco), que não tem problemas em dizer o que pensa e pensa muitas coisas, demasiadas mesmo – até porque algumas delas contraditórias. Sobretudo, Juncker será lembrado por não ter sabido ou querido actuar no momento e na medida certos para impedir a crise, o pânico e o quase desmembramento da moeda de que era suposto ser o mais activo defensor. Com um guarda-redes tão inactivo é difícil obter resultados nas competições europeias, e Merkel já avisou que a partir de agora será o seu próprio ministro – Schäuble – a defender os ataques.

A ironia é que, apesar do prestígio intramuros de que goza o homem que gere os destinos do país desde 1995 e o único luxemburguês a presidir a uma organização internacional (e também o único oriundo do país que é conhecido fora das suas fronteiras), Juncker, o europeísta,  abandona a Europa pela porta pequena: não conseguiu presidir à Comissão Europeia (batido por Barroso), não foi escolhido para primeiro presidente permanente do Conselho Europeu (batido no prolongamento por Van Rompuy) e não conseguiu realizar um bom trabalho como “senhor Euro” ao longo de sete anos. Se voltar ao grande palco internacional – do que duvido –, o seu próximo cargo será apenas honorífico.

O vídeo viral que pôs o Uganda no mapa

No dia 5 de março, a organização não governamental Invisible Children (Crianças Invisíveis) pôs um vídeo de meia hora de duração no YouTube. Ao fim do primeiro dia, o vídeo tinha sido visto 10 milhões de vezes. Ao fim de três dias, o contador já tinha ultrapassado a marca dos 52 milhões. E hoje, duas semanas após ter sido colocado em linha, o vídeo original mais as respostas também em vídeo que ele originou já foi visto mais de 100 milhões de vezes - o mais rápido da história a atingir essa marca.


O longo vídeo, apenas em inglês, não é engraçado nem musical e muito menos romântico: é sobre activismo político, sobre a guerra num miserável canto do planeta, sobre temas que ensombram o nosso mundo. E é feito a partir de uma visão muito americana - claramente maniqueísta e simplificada para um problema tremendamente agudo e complexo. Fala de um bárbaro, Joseph Kony, que durante anos aterrorizou o Uganda e países vizinhos durante uma guerra suja e sem quartel - como se assim não fossem todas... Kony recrutou, ao longo de anos, milhares de crianças (calcula-se que 60 mil), os rapazes como soldados, as raparigas como escravas sexuais. Quem se negava a fazê-lo era torturado ou desaparecia. E tais atrocidades passaram-se ao longo de uma década, o que levou Kony a ser procurado pelo Tribunal Penal Internacional - mas como encontrar um ditador todo-poderoso no meio da selva sem fim não dispondo de quaisquer meios para o fazer? Talvez por isso mesmo o procurador-geral do TPI fez um elogio sentido ao vídeo originário da Califórnia: "Isto foi feito por uns miúdos que podiam estar a surfar ou qualquer outra coisa, mas escolheram fazer isto. Estão a dar voz a pessoas que ninguém sabia que existiam e por quem ninguém se preocupava. E por isso saúdo-os".

Mesmo que simplificado, o activismo engagé destes putos californianos merece o respeito e admiração de todos. Pelo menos, do meu. Mas a chuva de reacções negativas acaba de levar o realizador e protagonista do filme, Jason Russell, 33 anos (e cara de surfista, efectivamente), a um esgotamento nervoso: em duas semanas, a Invisible Children foi acusada de só gastar 32% do que recebe nas actividades que se propõe financiar (o resto é em salários e outros custos), enquanto o filme, argumenta-se, "erra o alvo": irritou os ugandeses ao proclamar "vamos tornar Kony famoso" (uma expressão americana interpretada à letra no Uganda), irritou os diplomatas ao reduzir toda a guerra a um homem maléfico, irritou os especialistas no terreno que afirmam que "abrir uma caça ao homem sabendo que Kony já não mora aqui, e não referindo o fim da guerra e a reconstrução que decorrem agora no Uganda, é reabrir feridas desnecessariamente".

Mas o que ninguém nega é o sucesso estrondoso de uma campanha viral, baseada nas redes sociais da internet, e adoptada sobretudo por pessoas menores de 25 anos - as tais que têm a reputação de ocas e apáticas. Este sucesso deu muito trabalho - e trabalho de sapa: a Invisible Children tem anos de filmes activistas, trabalho porta-a-porta em universidades, milhares de seguidores no Twitter, narrativas fortes e focadas, e uma escolha criteriosa de celebridades que propagam a sua mensagem. Quase tão importante, não se escondeu quando criticada: o presidente da organização respondeu aos ataques ponto por ponto, sem se desviar de nenhum. Lições a aprender por todos que querem ser ouvidos - activistas sociais, políticos, empresas ou media.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Colheitas ou golfe?

Fevereiro de 2012 será lembrado em Portugal como o Fevereiro mais seco de sempre – é-o, pelo menos, desde 1931, primeiro ano de que existem dados meteorológicos fiáveis no país. Praticamente não choveu durante todo o mês, e o problema já vinha de trás. Resultado, um terço do território português está em seca “extrema”, e os outros dois terços estão em seca “severa”. O solo definha, os animais não se alimentam convenientemente, perdem os seus pastos e a sua saúde. As colheitas não são viáveis, pois os produtos agrícolas que necessitavam da água atempadamente definham, não atingindo o nível de desenvolvimento necessário. A rega é caríssima, e não é suficiente para obviar o problema. As barragens esvaziam-se, fazendo subir ainda mais o preço da electricidade num país que depende a 60% dos seus recursos hídricos para produção de energia. Um país ressequido assiste resignado a algo confrangedor: o início da angustiante época de fogos florestais de verão... logo no início de Março!

A seca não é uma situação normal, antes um valor extremo, excepcional por definição. O problema é que esses valores extremos repetem-se com cada vez maior frequência; os invernos chuvosos do litoral atlântico transformaram-se em amenos verões. As palavras proferidas em 2005 (aquando da última grande seca no Alentejo antes da deste ano) pelo presidente do Instituto da Vinha e do Vinho retinem, como escreveu Pessoa, lívidas ainda aos ouvidos: “Em 50 anos o Alentejo será demasiado quente para a produção de qualquer tipo de vinho. Será como Marrocos, e que eu saiba não se produz vinho aí ou na Argélia”. Se quisermos ser implicativos, ambos os países produzem efectivamente algum vinho (violento e de baixa qualidade), mas o ponto não é esse: a verdade inconveniente é que, indiferente à nossa típica estratégia da avestruz, o clima está a mudar rapidamente e perante os nossos olhos. E os avisos de diferentes analistas geopolíticos começam, aos poucos, a tornar-se plausíveis: as guerras do século XXI já não serão travadas tanto pelo acesso ao petróleo como pelo acesso à água. Também neste ponto, a China é um permanente factor de tensão – o país apresenta 20% da população mundial mas detém apenas 7% das reservas de água, e destas a esmagadora maioria está poluída. 330 cidades chinesas sofrem de falta de água crónica. O consumo de água per capita de cada habitante chinês é de um terço de cada português – o facto já é extraordinário por si, mas ainda mais ao descobrirmos o restrito lote de países que constituem os maiores consumidores de água por habitante no planeta: EUA, Tailândia, Sudão, Grécia, Itália, Espanha... e Portugal.


Um país em seca “severa” ou “extrema” é um dos grandes consumidores mundiais de água. Uma explicação fácil para o paradoxo estaria na invocação de falta de consciencialização e hábitos culturais: gostamos de tomar banho, de ter o carro lavadinho, de um quintal florido e cheio de couves... Mas melhores razões podem ser encontradas nas indústrias que restam no país: a do papel, para além de substituir pinheiros pela árvore voraz que é o eucalipto, exige grandes volumes de água para produzir. Já outro nicho económico é bem mais patético. Sob pretexto da atracção de uns poucos anglo-saxões endinheirados, Portugal cobriu-se com 79 campos de golfe, alguns deles altamente subsidiados como “projecto de interesse nacional”, quase todos nas áreas menos chuvosas do país, cada um deles utilizando água suficiente para abastecer uma cidade de 10000 pessoas durante um ano inteiro. Da próxima vez estiver de férias no Algarve, a ver os incêndios florestais na tv, e não houver água para um duche, já sabe: uma partida de golfe substitui tudo isso e muito mais. Vamos todos beber golfe.

Nunca desperdices uma boa crise

"Nunca desperdices uma boa crise", escreveu M. F. Weiner, um médico americano, em 1976. Weiner aconselhava os seus colegas a aproveitar a janela de oportunidade que um momento mais delicado na vida do paciente (ou até do próprio médico) poderia conceder em termos de melhoria da sua qualidade de vida ou de aspectos da sua personalidade. A frase remete directamente para o significado em latim da palavra "crisis", que não era mais que "a fase decisiva de uma doença". A etimologia já vinha do grego, onde a palavra transmitia a ideia de escolha, julgamento, decisão importante; a descrição corresponde a um momento basculante, de charneira, uma situação de instabilidade que vai conduzir a uma nova realidade. Um período "crítico", mas sem que este adjectivo tenha uma conotação negativa (ou positiva).


"Crise" escreve-se no alfabeto chinês com o auxílio de dois caracteres, wei e ji; o primeiro significa "perigo". Em muitos dos seus discursos, JFK popularizou no mundo ocidental a ideia que o segundo em contrapartida significaria "oportunidade" - na verdade, "ponto crítico" é uma tradução mais fiel para ji, mas de uma forma ou de outra, também aqui encontramos a noção de mudança, de escolha, mesmo de possível melhoria. O significado clássico, expurgado da sua monopolização económica, acentua o livre-arbítrio do indivíduo, a sua responsabilidade, a capacidade e a soberania que tem para julgar e decidir.

A crise é a ruptura, ruptura de hábitos, de comportamentos, de ideias, de capacidades, mas essa ruptura pode ser um ponto de partida, um empurrão sem o qual não há energia para a evolução e para a gestão da mudança. O próprio Jean Monnet era sanguíneo sobre o assunto: "Os homens só aceitam a mudança quando estão em necessidade... e só vêem a necessidade quando estão em crise". Não deixa de ser uma pequena ironia que a União Europeia da qual Monnet foi um dos pais fundadores chafurde na crise - que não criou - há mais de três anos, e ainda sem luz ao fundo do túnel. O "momento crítico" prolonga-se e manifesta-se em incertezas e contradições, sem que o novo paradigma se defina. Todos sabemos que não poderemos continuar assim indefinidamente, porque nem os indivíduos nem as sociedades têm forças físicas ou psíquicas para tal; mas as nossas escolhas ainda são claras, porque nem a própria encruzilhada o é. Podemos, no entanto, fazer um esforço para apreciar o fim das ilusões que uma boa crise sempre proporciona: o momento da revelação, em que abrimos os olhos e descobrimos uma paisagem radicalmente diferente daquela que imaginávamos, é tremendo - mas também belo e possivelmente recompensador, se a encararmos da forma certa. Afinal, é bem verdade que nunca é possível encontrar uma oportunidade perdida.

"A crise de hoje é a piada de amanhã", escreveu H. G. Wells, autor de "A forma das coisas que virão" e que também sabia algo sobre o assunto - a sua vida foi uma sucessão de crises amorosas. O comediante Robert Orben tocou no mesmo ponto com mais verve. "Antigamente, a Humanidade tinha duas opções em períodos de crise grave: lutar ou fugir. Agora temos uma terceira opção: lutar, fugir ou rir". Riamos todos, então, e que seja bem-vinda a crise.

O último Benfica-FC Porto de sempre

Esta semana joga-se um Benfica-FC Porto para a liga portuguesa de futebol. Este jogo ("jogo" deixou de ser uma palavra conveniente para o designar; "batalha", "pálio", "justa" seriam muito melhores) é o melhor produto que o desporto português tem para oferecer: põe frente a frente, na modalidade mais popular do mundo, as nossas equipas de topo, as únicas que conseguem sustentadamente competir nos mercados europeus e globais. Tem implicações profundas, não apenas desportivas, mas também culturais, económicas, sociais; deixa poucos indiferentes, criando uma barricada que divide a portugalidade em dois pólos opostos, azul contra vermelho, Norte contra Sul, história contra sucesso recente, dimensão contra garra, e dezenas de outros valores que nos fazem optar por um ou outro lado. Como puro espectáculo desportivo, é também algo especial de se seguir, mas o mais extraordinário está nas paixões que desperta - até porque envolve uma rivalidade de um século construída por muitas histórias - e nas emoções que movimenta - até porque as duas equipas estão empatadas no primeiro lugar e os pontos em disputa, a dez jornadas do fim, são cruciais.

E se este decisivo Benfica-FC Porto fosse também o último da História? A assustadora ideia não é tão improvável como soa. O negócio do futebol está a atravessar tempos de mudança muito rápida, ainda que muitos dos que nele trabalham insistam em enterrar a cabeça na areia. E para os clubes portugueses, essas mudanças não apenas atingem o coração da sua estratégia para competir a nível internacional, como também os apanham numa curva que os torna vulneráveis.

A curva chama-se 255 milhões de euros. Este é o astronómico valor em dívida aos bancos pelos dois clubes no seu conjunto (Benfica 157 milhões, FC Porto com 98). Na conjuntura actual de aperto do crédito, é duvidoso que no momento em que chegue a altura de pagar esta dívida, os clubes consigam encontrar quem lhes empreste mais dinheiro para continuar a chutar a bola para a frente - e se esse crédito for encontrado, será a taxas proibitivas. O FC Porto, por exemplo, pagava 4,39% de taxa de juro em 2010, mas no ano passado esta já era de 6,78%. O Benfica, em 2010/2011, gastou quase 14 milhões de euros só em juros.

Ao mesmo tempo, as regras do jogo mudam. A UEFA vai impôr regras de "fair-play financeiro" que terão como consequência certa baixar o valor das transferências milionárias que constituem a maior fonte de receita dos clubes portugueses. O seu modelo de negócio passa quase exclusivamente por encontrar na América do Sul jovens com potencial, adaptá-los ao futebol europeu e revendê-los com muito lucro, algo que vai mantendo a máquina a funcionar enquanto descaracteriza os clubes: o plantel do FC Porto conta com apenas 4 portugueses em 26 jogadores, o do Benfica apenas 7 em 25 (e nenhum deles titular). A asfixia financeira começa a ser cada vez mais difícil de esconder, no que espelha também a situação do próprio país.

A partida será decisiva em termos desportivos, porque quem perder ficará em segundo - mas este lugar ainda dá acesso directo à salvação chamada Liga dos Campeões. Paradoxalmente, o grande rival dos dois grandes é agora o Braga, que os persegue a apenas 3 pontos: acabar em terceiro e fora da liga milionária poderia significar a curto prazo, para Benfica e FC Porto, a incapacidade de pagar salários. O jogo de sexta relembra as palavras de Bill Shankly: "O futebol não é uma questão de vida ou morte - é algo de muito mais importante que isso".

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Da ditadura das maiorias

O pequeno país europeu alberga uma vasta minoria, mais de um quarto da população, que tem como materna a língua do seu país de origem ou do país de origem dos pais ou avós. A importância económica desta minoria dentro do país não é bem vista pelos habitantes mais antigos, que falam a língua oficial (uma língua raramente escrita até há poucas décadas e ainda não "consolidada") e acusam os imigrantes de não fazerem esforços suficientes para a aprender, ao mesmo tempo que procuram tácticas para lhes cercear os direitos cívicos, tais como o de voto. Por seu lado, os antigos imigrantes, muitos deles já nascidos ali e concentrados nalgumas áreas geográficas e nomeadamente na capital (onde constituem a maioria da população activa) preferem a sua própria língua, uma das mais faladas ao nível global, à gramática agreste da pouco conhecida língua do país de acolhimento. Apesar dos esforços para a interacção e uma convivência sã, próspera e democrática, é inegável que aquela sociedade está dividida em dois grandes campos - e o da maioria, que goza de plenos direitos e poderes, nega-os à minoria.

Não, esta não é mais uma história sobre o Luxemburgo e a sua relação paternalista com os seus habitantes de origem portuguesa. O país chama-se Letónia e organizou no sábado um referendo sobre a elevação da língua russa ao estatuto de oficial. E os argumentos para o "sim" em tal referendo parecem esmagadores: de acordo com o último censo disponível, o russo é a língua materna de 37,5% dos habitantes, e a segunda de quase toda a restante população, etnicamente letã e que era forçada a aprender russo na escola durante os 50 anos em que o território era apenas uma pequena república soviética. No total, 94% dos habitantes da Letónia conseguem falar ou pelo menos entender russo, mais do que os 91% que fazem o mesmo em letão.

E no entanto o referendo, revelador ao mundo de vários factos desconfortáveis neste membro da União Europeia, resultou num esmagador (e esperado) "não". 20 anos de independência não foram suficientes para que os letões ultrapassassem o rancor anti-Rússia dos tempos em que o país era colonizado com russófonos; hoje em dia, os letões "originais" atropelam se for necessário os direitos humanos de forma a assegurar que a minoria russa não usufrua da voz que a sua dimensão justificaria, num filme que já conhecemos demasiado bem. O resultado da consulta nunca esteve em causa porque 300 000 pessoas (15 % da população) não têm direito à nacionalidade letã e vagueiam pelo país onde sempre viveram com o estatuto de "não-cidadãos" comparável ao das mulheres, estrangeiros e escravos da antiga Grécia, que também não podiam deter propriedades nem votar no chamado "berço da democracia". Ainda assim, as últimas eleições foram ganhas por um partido centrista, Harmonia, que defende mais direitos para a minoria russa - mas os partidos "do arco da governação", com menos votos, preferiram coligar-se com a extrema-direita e deixar a Harmonia fora do governo. Os extremistas rapidamente procuraram proibir todas as escolas russas que existem, o que obteve como resposta o referendo agora realizado. O próprio presidente do país tomou partido pela maioria e fez campanha pelo "não" ao russo: "a Letónia tem outras coisas mais importantes com que se preocupar". Num país que saiu agora dum processo de austeridade 25% mais pobre do que era antes, a frase faz sentido, mas a divisão da sociedade em duas partes antagónicas não é de somenos.

A Letónia partilha agora com o Luxemburgo a duvidosa honra de serem os únicos países europeus onde uma língua falada por mais de um quarto da população não ser oficial. Na Letónia, o russo acabará mais tarde ou mais cedo por sê-lo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Por favor não me mordam o pescoço

Roman Polanski é um cineasta pouco convencional. Temperamental, algo tresloucado, o realizador polaco-francês tem uma carreira que mimetiza a sua própria vida pessoal: atribulada, irregular, depressões profundas seguidas por picos altos e vice-versa. Um desses picos altos foi o seu musical-comédia-filme de horror “Por favor não me mordam o pescoço”, de 1967. Uma espécie de paródia e homenagem aos filmes de vampiros, porque é de vampiros que se trata. O título do filme tem-me vindo muitas vezes à memória a propósito dos mais recentes disparates dos nossos actuais homens políticos.

Em rigor, foi o presidente do Parlamento Europeu a abrir as hostilidades da semana. O alemão Martin Schulz acaba de ser eleito para o cargo e, taxativo e opinativo como é, enredou-se num fio de raciocínio mal delineado e ainda pior explicado. Queria Schulz explicar (pelo menos assim alegou mais tarde) que os problemas de Portugal são problemas europeus, e que as soluções devem também ser encontradas na Europa. Em vez disso, pareceu estar a ameaçar o país de irremediável declínio se insistisse em tentar ter opções independentes das suas (como tentar obter investimento vindo de Angola), além de repetir a referência ao “antigo colonialista”. Uma mordidela inesperada esta, até porque imediatamente seguida de uma segunda apontando à mesma veia: dois dias depois, Merkel a Magnificiente decidiu usar a Madeira como exemplo negativo. “Ali, os fundos europeus serviram para fazer túneis e autoestradas muito bonitas, mas não para aumentar a competitividade”. A chanceler alemã equivoca-se várias vezes numa simples afirmação. O investimento da Madeira em infraestruturas, num território insular cuja indústria é naturalmente o turismo, veio realmente aumentar e muito a competitividade da região – a tal ponto que a ilha (graças também às transferências que lhe advêm de regiões mais pobres de Portugal e à sua imoral “zona franca”, é certo) é já uma região mais rica que a média europeia. A Madeira tem isso sim uma alta taxa de execução dos fundos europeus a que teve direito (que são muitos, devido ao estatuto de região ultraperiférica), como é reconhecido pelos relatórios do Tribunal de Contas e pelas instâncias de controlo comunitárias dos fundos, que aliás os atribuem a projectos concretos e têm portanto uma palavra importante a dizer na sua utilização. Finalmente, a crítica leviana e arrogante – que obviamente nunca seria aplicada, digamos por exemplo, à altamente subsidiada e economicamente problemática região da ex-Alemanha de Leste de onde a chanceler é originária – tem consequências directas na imagem exterior da Madeira, na sua atractividade, e como tal na sua capacidade de criar riqueza e sair do buraco financeiro em que se encontra. Uma bela mordidela na jugular.

A dentada final veio de mais perto – do próprio primeiro ministro português, que considera “piegas” aqueles que o elegeram para tão desprestigiado cargo. Infantilizando todo um país, Passos Coelho compara o seu governo aos professores “duros” e os portugueses a uma manada de alunos choramingões que um dia hão-de agradecer os cortes, as reduções, a austeridade, o empobrecimento, e o salvamento de alguns bancos com dinheiros públicos. Obviamente, o primeiro ministro não acredita nos beijinhos no pescoço para dourar a pílula. Mas deve-se sempre ter cuidado com aquilo que se deseja: um dia que os portugueses decidam deixar a pieguice da lamúria e, sem nada mais para perder, vierem queimar as ruas como está a acontecer na Grécia, Passos Coelho há-de olhar para trás e para esta nossa paz podre com nostalgia. Quiçá mesmo com pieguice.