de forma provocatória, convocando uma conferência de imprensa para dizer que “nos três países europeus que produzem petróleo, Reino Unido, Noruega e Rússia, o limite é de 110, e Hamilton [rival de Alonso nas pistas] é inglês e não adormece ao volante”.Por onde começar a demolir tão demagógica medida? O facto dos países produtores de petróleo terem limites de velocidade tão baixos já de si demonstra que o seu impacto no consumo é negligenciável – afinal, eles têm todo o interesse em maximizar o gasto de petróleo, ao qual devem grande parte da sua prosperidade... Na verdade, é bem possível que, a ser cumprido pela generalidade dos condutores, o novo limite mais baixo leve a um *aumento* do combustível consumido pelos veículos. E isto porque uma condução “em comboio”, com mais carros viajando perto uns dos outros todos a velocidades parecidas, levará forçosamente a mais travagens e acelerações – exactamente os dois factores que mais influência exercem sobre os consumos. Para não falar, claro, na acrescida possibilidade de congestionamentos, sobretudo em autoestradas “urbanas”.
A peregrina ideia nem é eficaz nem original; logo em 1973, na sequência do primeiro choque petrolífero, as autoridades federais dos EUA decidiram impôr um limite máximo de 90 km/h em todos os Estados, que antes tinham limites variando entre os 105 e os 121 km/h. Acreditava-se que a medida fosse poupar uns meros 2,2% de combustível (e estamos a falar de motores americanos dos anos 70, infinitamente menos eficientes que os motores europeus e japoneses actuais). Mas na verdade, a própria administração admitiu que a lei apenas permitiu poupar 1% de combustível – e estudos independentes situam essa marca em, no máximo, 0,5%. O limite federal de 90 foi finalmente levantado em 1995, e maioria dos Estados voltou então a subir o limite para 105 km/h. Resultado: o número de acidentes *decresceu* entre 3 e 5%... talvez o problema da concentração ao volante, referido por Alonso, mereça reflexão.
Um governo que fosse sério na sua intenção de reduzir o consumo poderia, por exemplo, legislar no sentido de encorajar a adopção de pneus de baixa resistência ao atrito – estes reduzem em 25% o esforço necessário para manter o movimento do carro. Mas reduzir ainda mais os limites de velocidade, quando os carros, as estradas, a sinalização e os próprios condutores são cada vez melhores, apenas contribui para esses limites sejam percebidos como uma espécie de piada elaborada que não é para ser cumprida. Todos nós, se tratados como responsáveis, reagimos responsavelmente; se nos tratam como crianças, agiremos como crianças, e certamente as multas por excesso de velocidade vão-se multiplicar. Ah, acabamos de chegar à verdadeira razão da nova lei espanhola.


A história tem contornos simples, até porque (lamentavelmente) tantas vezes vistos. No sábado, um passageiro dirigiu-se ao aeroporto de Lanzarote, Canárias, para apanhar o avião para regressar a Charleroi, Bélgica. Trazia consigo a mesma bagagem que no voo de ida, mas desta feita e arbitrariamente um zeloso funcionário do aeroporto espanhol, devidamente instruído pela Ryanair ou simplesmente mais mesquinho e zangado com a vida, decidiu que a mala seria demasiado grande ou pesada e exigiu-lhe uma dessas multas traiçoeiras: 40 euros. O funcionário, por detrás do seu mais que provável bigodinho aparado, esperaria a reacção do costume, ou seja alguns resmungos seguidos do sacar do cartão de crédito e do aumento da conta bancária da empresa aérea. Só que desta vez o copo transbordou. O homem recusou-se a pagar. Talvez se tenha lembrado que, afinal, um homem não é um rato; que existe o direito à indignação; que temos sempre o poder de dizer “não”. Ou talvez, simplesmente, não tivesse 40 euros consigo. O que é certo é que a revolta do passageiro serviu como a proverbial faísca – a “Revolução de Jasmim” na Tunísia começou com uma banca ilegal de venda de legumes confiscada prepotentemente pela polícia. Em minutos, 104 estudantes universitários belgas sentados no mesmo avião à espera de regressar a casa, todos de uma idade mais utópica onde ainda acreditamos poder mudar o mundo, amotinaram-se em protesto. 104 pessoas é muita gente – o avião só transportava 168 no total – mas do alto da sua infalibilidade a companhia de baixo custo e baixo serviço preferiu resolver as coisas da forma mais mubarakiana possível: chamou a Guardia Civil espanhola e evacuou o avião, negando o transporte aos indignados. Na altura em que escrevo estas linhas, e mesmo após a intervenção da diplomacia belga, os passageiros estudantes estão ainda bloqueados nas Canárias.
