
Todos aqueles que
detêm depósitos bancários num pequeno país europeu chamado Chipre acabam de
sair tosquiados; no momento em que estas linhas são publicadas em papel,
quarta-feira, os bancos cipriotas estarão a reabrir as portas para receber uma
multidão em fúria, e cada um destes depositantes verá como a sua conta diminuiu
6,5% da noite para o dia (se lá estivessem menos de 100 000 euros, mas 9,9% se
estivessem mais). O corte de cabelo (“haircut”,
no jargão) foi imposto pela troika como
condição para resgatar o país da bancarrota: como os europeus deixaram arrastar
o problema de Chipre esperando que este se resolvesse sozinho ou desaparecesse
por artes mágicas, as soluções são agora poucas e desagradáveis. Sem ajuda
externa, os dois maiores bancos cipriotas iriam ao fundo ainda este mês; depois
destes, desapareceria o resto do sistema bancário do país, e com este, a maior
parte do dinheiro de todos os depositantes. Chipre viveria cenas dramáticas,
motins como os ocorridos na Argentina em 2001. Esse cenário, obviamente, ainda
não está posto de parte.
Ao contrário do
coro de críticas em choque que se estão a levantar, penso que a ideia de obrigar
os depositantes a participar no programa de ajustamento poderia, no caso
concreto de Chipre, ter sido interessante. O pequeno país vive dos seus bancos;
o dinheiro depositado é mais de sete vez o valor de toda a economia; e cerca de
40% desses depósitos provêm de estrangeiros não residentes, nomeadamente
russos. Uma grande parte deste dinheiro está em Chipre em trânsito de forma a
ser branqueado, não pagando impostos em parte alguma. Uma medida deste tipo,
para além de ser altamente efectiva e angariar mais dinheiro, será menos
dolorosa para os cipriotas que a tenaz que o governo de Lisboa está a aplicar
aos portugueses: estes, entre ficarem sem serviços de saúde, subsídios de Natal
ou férias, aumentos ou mesmo emprego, já pagaram muito mais pelo seu resgate do
que uns meros 6,5% da sua conta bancária.
... só que os
ininputáveis que nos (des)governam, da alto da insconsciência que passo a passo
nos vai destruindo a Europa, partiram para a humilhação. E isso significou
ultrapassar a linha vermelha de garantir os pequenos depósitos bancários (de 1
até 100 000 euros), custe o que custar, aconteça o que acontecer. Atentar à
propriedade privada que está, ainda por cima, segurada significa sacar dinheiro aos pequenos depositantes, às
economias de uma vida, ao pecúlio das pessoas que constituem a economia real e
são agora chamadas a pagar – de uma forma tão repentina como bem directa – as
lavagens de dinheiro, os esquemas financeiros e a especulação desenfreada numa
pequena ilha dividia que é, hoje, o maior investidor estrangeiro na imensa
Rússia. Mas só em números, porque todo esse dinheiro tem origens misteriosas na
própria Rússia.
Se nem as viúvas cipriotas estão imunes a um corte de cabelo financeiro, é tempo de colocar uma simples questão: que razão poderá ter, hoje, alguém de racional para deixar o seu dinheiro num banco do sul da Europa (de Portugal, por exemplo)? A resposta é: nenhuma. E o corolário: quanto tempo até que o sistema financeiro do Luxemburgo, afinal tão similar ao de Chipre, comece a tremer?
Se nem as viúvas cipriotas estão imunes a um corte de cabelo financeiro, é tempo de colocar uma simples questão: que razão poderá ter, hoje, alguém de racional para deixar o seu dinheiro num banco do sul da Europa (de Portugal, por exemplo)? A resposta é: nenhuma. E o corolário: quanto tempo até que o sistema financeiro do Luxemburgo, afinal tão similar ao de Chipre, comece a tremer?