terça-feira, 14 de julho de 2015

Isto é um golpe


"Onde estavas no dia 12 de Julho de 2015?", perguntarão os europeus uns aos outros daqui a meia-dúzia de anos. Foi nesse nublado domingo de verão bruxelense que o euro, já cheio de fissuras, caiu num estado comatoso que levará a longo prazo ao seu desmantelamento, arrastando provavelmente com ele o projecto europeu como um todo.

A deriva totalitária impulsionada pelo ministro alemão das Finanças, o dr. Schäuble (secundado pelos ululantes aprendizes de feiticeiro vindos de outros países do Leste europeu, os sempre perigosos cristãos-novos da austeridade autoderrotista), não se satisfaria nunca com a simples rendição grega às tirânicas condições associadas a um novo empréstimo. Essa rendição aconteceu na quinta-feira, já depois do referendo em que 61% dos gregos disseram “não”: o governo de Tsipras não encarava a Grexit como solução possível por causa do caos que esta traria ao país, e logo estava colocado entre a espada e a parede porque, com os bancos encerrados e nenhuma alternativa, não tinha poder negocial. Levou o seu bluff o mais longe possível, mais até do que seria razoável – e acabou por perder a partida de poker em toda a linha, apresentando aos credores europeus um plano de resgate ainda mais duro que aquele que os eleitores, a seu próprio conselho, tinham rejeitado apenas quatro dias antes.

Mas os gregos, tal como todos nós, tinham subestimado a sanha ideologicamente alucinada dos déspotas que se apoderaram da Europa. A estes a vitória não lhes chegava, uma rendição sabia a pouco, a manutenção dos reembolsos aos seus bancos – tão pressurosos a emprestar à Grécia, mediante taxas muito agradáveis, dinheiro para comprar submarinos alemães, por exemplo – era apenas um fait divers; o objectivo era a capitulação total do inimigo (ex-aliado e parceiro europeu), humilhação necessária para vingar o desplante da afronta aos todo-poderosos.

O “acordo” – na verdade um diktat – que a Grécia terá de aplicar inclui todas as rendições que país tinha proposto e muitas outras, entre as quais um fundo de 50 mil milhões de euros (um terço dos activos do Estado grego) a constituir por privatizações e vigiado de perto pelos políticos alemães. Este “acordo” é da autoria do advogado Schäuble, um homem que no ano 2000, quando almejava chegar a chanceler, foi forçado a demitir-se de presidente do seu partido democrata-cristão por ter aceitado pessoalmente (muito) dinheiro de um lobbyista fabricante de armas; um homem que defendeu vigorosamente a invasão levada a cabo por George W. Bush no Iraque sob falsos pretextos; alguém que enalteceu Guantanámo como “uma resposta legal e responsável na luta da civilização contra a barbárie”.

Às mãos deste homem pouco recomendável, a democracia europeia sofre triplamente. Porque se pretende que áreas fundamentais num Estado de Direito (impostos, segurança social, código civil) sejam danificadas sem sequer um simulacro de controlo democrático. Porque quer manietar completamente um governo eleito (e reforçado em referendo), e submetê-lo às suas ordens. Finalmente, porque rejeita qualquer possibilidade de alternativa a ideologias económicas que falharam estrondosa e cruelmente, aprisionando-nos num túnel sem fim, condenados a invejar para sempre as soluções dos EUA para sair da crise.


Mesmo que a Grécia consiga implementar o que lhe impuseram, o remédio está errado; dentro de alguns anos, talvez meses, estaremos a discutir mais dívida, mais empréstimos, mais crises, na Grécia como em outros países de uma Europa desagregada. 500 mil utilizadores do Twitter resumiram tudo logo nas primeiras 24 horas: o que se passou aqui foi uma pura e simples tomada de poder por meios ilegais. Isto é um golpe de Estado.

Siiiiim!


Na Grécia, há um dia do Não. Cada 28 de Outubro é feriado, e todos os locais públicos são engalanados com bandeiras azuis e brancas. Os gregos relembram o dia de 1941 em que o primeiro-ministro grego foi acordado de madrugada e confrontado com um ultimato de Mussolini, que exigia o controlo imediato das áreas estratégicas da Grécia ou invadiria o país. A resposta em bom francês de Metaxas – “alors, c’est la guerre!” – ficou na História como, simplesmente, “Não!”. O exército grego acabou por rechaçar os soldados italianos, mas em seguida vieram as divisões nazis, que içaram a bandeira com a cruz suástica na Acrópole poucos meses depois. (Esta bandeira viria a ser retirada por resistentes gregos, um dos quais, Manolos Glezos, é hoje aos 92 anos deputado europeu eleito pelo Syriza).

A resposta de Metaxas era o Não mais célebre de sempre… até domingo passado, quando um povo – exangue, submetido a um tratamento de choque neoliberal ao longo de meia década, chantageado por decisões discriminatórias do Banco Central Europeu, ameaçado por uma fila interminável de políticos europeus a quem a fina camada de verniz democrático estala com demasiada facilidade, esfomeado pelos bens que começam a escassear – não se intimidou e gritou de forma avassaladora “Não”. Não a mais curas suicidas. Não a mais políticas austeritárias que já foram testadas e comprovadas como falhanços perigosos ao longo da História.

A revista “Der Spiegel”, num excelente artigo publicado um dia antes do referendo, chama ao ponto a que chegamos “as cinzas de Angela”. O estilo de liderança da chanceler – adiar, esconder, permitir que tudo permaneça vago, nunca tomar decisões impopulares para os seus eleitores – talvez funcione na política doméstica alemã, mas é um desastre quando as responsabilidades são maiores. E sob Merkel, a Alemanha procura efectivamente reinar sobre a Europa – mas não sabe o que fazer com esse poder. “A crise grega requeria liderança e um plano, mas Merkel foi incapaz de fornecer nenhum dos dois”, escreve a publicação alemã.

Um “Sim” no referendo, além de fazer cair o governo actual (genuinamente europeísta) e talvez abrir caminho para os populismos neofascistas, teria condenado a Grécia a anos (décadas?) adicionais de sofrimento (punição?) às mesmas políticas que diminuem o PIB ainda mais rápido que cortam a dívida, ou seja, piorando os problemas. Mas um claro “Não” abre uma janela de oportunidade que é absolutamente necessário aproveitar – já não para salvar a Grécia, mas sim o próprio projecto europeu, há demasiado tempo prisioneiro do “pensamento único” e dos egoísmos nacionais.

É simbólico que muito do que estava em jogo tenha sido entendido pela juventude grega, percentualmente a faixa da população que mais votou “Não” (sobretudo os mais jovens, alguns a exercer o seu primeiro voto de sempre). A taxa de desemprego entre os jovens já ultrapassa os 55%; a esmagadora maioria não pode, talvez nunca venha a poder, sair de casa dos pais e começar a caminhar na vida. É toda uma geração que está a ser desperdiçada pela Europa, e sobretudo na Grécia, em nome do pagamento de juros altíssimos a bancos alemães e franceses…

O voto “Não” foi na verdade um voto “Sim” – sim a outra Europa, a Europa da coesão, da solidariedade, do crescimento, da esperança, enfim, da racionalidade económica. Sim à Razão, sim a uma conferência da dívida entre devedores (Portugal incluído) e credores. Sim a um Acordo Justo.

As notícias da morte do euro são exageradas


Autor das “Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn”, Mark Twain foi um dos maiores escritores em língua inglesa. Talvez mais do que isso, era senhor de uma ironia mordaz e um talento para a comédia quando a comédia não era, como hoje, uma possível opção de carreira. Essa personalidade inspirou o comentário que fez ao ler o seu próprio obituário num jornal que, por engano, tinha anunciado o seu falecimento: “as notícias da minha morte são algo exageradas”.

O mesmo comentário poderia ter sido proferido pelo euro se a moeda lesse jornais e falasse. No dia em que escrevo, segunda-feira, o Los Angeles Times titula “O euro e a União Europeia estão em perigo”; a moeda desvaloriza nos mercados cambiais; as previsões para o futuro próximo da Grécia são todas apocalípticas, o que até é apropriado porque “apocalipse” é uma palavra de origem grega – e significa “descoberta” ou “revelação”.

Chegamos a este ponto impensável por via da insanidade: a insanidade política e económica das elites conservadoras que há demasiado tempo dominam, sem oposição, a Europa, impondo uma agenda ideologicamente extremista que não admite alternativa e muito menos dissidência. Merkel preferiria caminhar sobre carvões em brasa – ou então arriscar a destruição do projecto europeu – a permitir que os rebeldes do Syriza fossem bem-sucedidos e proliferassem até Portugal e Espanha. Sobre a parte política estamos conversados, mas o lado económico é mais grave.

Em cinco anos de receitas austeritárias completamente erradas – algo que é, e importa sublinhá-lo outra vez, admitido relutantemente por alguns dos próprios “médicos” que as administraram – a Grécia realizou um esforço brutal de ajustamento económico. Entre 2009 e 2014, o saldo orçamental grego melhorou em 12% do PIB (e o país tem hoje um excedente orçamental significativo). O mesmo aconteceu com a sua balança de transacções correntes. Para obter estes resultados exigidos, metido numa camisa de forças económica, o país perdeu 25% da sua riqueza; o desemprego, a pobreza, a miséria e mesmo a fome dispararam. 3 milhões de gregos não têm hoje acesso a cuidados de saúde básicos. Agora os bancos estão fechados e falidos, e há um controlo de capitais em vigor (cada pessoa só pode levantar 60 euros por dia).

Não foi o actual governo grego quem criou este estado de coisas medonho (que aliás estilhaça muitos dos ideais românticos inspirados pela UE). Tsipras e Varoufakis tiveram o mérito de compreender que o país estava preso numa armadilha de que nunca se iria libertar, sendo ajudado apenas o estritamente necessário para não falir mas sempre impedido de crescer e tornar-se senhor do próprio destino. Daí as suas atitudes insolentes, próprias de quem pensa não ter muito a perder.

É uma irresponsabilidade, pois no curto prazo as consequências de uma saída do euro seriam terríveis para a Grécia (algumas já estão visíveis). No longo prazo, porém, o impacto nos credores – que nunca recuperariam o que emprestaram – e na própria Europa, dividida por feridas irreparáveis, seria muito mais devastador. É por isso que acredito que a Razão e a Inteligência acabarão por prevalecer entre políticos e economistas; que o referendo de domingo instará a um bom acordo; que a Grécia acabará por conseguir um balão de oxigénio; e que as notícias sobre a morte do euro são, de facto, algo exageradas.

Reciclarte


Nem tudo o que reluz é ouro. Por outro lado, nem todos os caixotes abandonados contêm apenas tralha sem valor – uma verdade que uma californiana anónima, mais do que ninguém, deveria conhecer. Esta mulher-mistério perdeu o seu marido e, passado algum tempo, decidiu libertar-se das suas possessões terrenas. Ofereceu as roupas, doou os livros, vendeu o carro. Por fim sobraram alguns caixotes com cabos e circuitos electrónicos na garagem. Provavelmente resmungando contra as manias de acumulação de lixo do falecido esposo, a nossa heroína dirigiu-se ao centro de reciclagem mais próximo e entregou-lhes todos aqueles resíduos, alguns deles com quase 40 anos.

Antes de destruir tudo e eventualmente aproveitar algumas pecinhas, os funcionários do centro de reciclagem abriram um caixote... e descobriram que aquele emaranhado constituia um dos apenas 63 exemplares sobreviventes do Apple Computer 1, ou seja, o primeiro produto da que é hoje a empresa mais valiosa do mundo – a capitalização bolsista da Apple já ultrapassou o PIB da Suíça ou da Arábia Saudita, e também os valores somados da Google e da Microsoft...

O primeiro Apple, produto exclusivo da mente brilhante de Steve Wozniak, tinha sido criado sobretudo para impressionar a pequena comunidade de “engenhocas” da cidade onde Wozniak e o seu amigo Steve Jobs viviam; basicamente era apenas uma placa-mãe de circuitos (não incluia teclado, caixa, alimentação nem ecrã) com 4 Kb de memória RAM. Foi Jobs quem teve a ideia de vender o aparelho a partir do próprio local onde ele era fabricado pelos dois: a garagem de casa dos pais. Custava na altura o equivalente a 2500 euros actuais; como peça de colecção, o seu valor é agora muitas vezes superior, e de facto o centro de reciclagem imediatamente vendeu o exemplar abandonado pela bonita soma de 200 mil dólares, dos quais metade pertencem à nossa viúva misteriosa. Pequeno problema, ninguém sabe quem ela é ao certo, e apesar dos ecos desta história terem corrido mundo nos últimos tempos, a incógnita sobre a sua identidade permanece.

Histórias de objectos desaproveitados, ou comprados por tostões quando na verdade valem milhões, são mais frequentes do que parecem. Já foram redescobertos móveis, jóias, quadros valiosos; um motorista de camião aposentado pagou 4 euros por um quadro “tão feio” que serviria para uma brincadeira de amigos, e acabou por levar para casa um enorme Jackson Pollock (quando informado do facto, usou um palavrão para perguntar “quem é esse?”). Mas talvez o caso mais impressionante dos últimos anos tenha acontecido quando uma senhora viu, por entre todos os bricabraques de um mercado de rua, uma moldura de que gostou e pela qual pagou 6 euros; no momento em que começou a separá-la do quadro (uma paisagem de flores e água), a mãe parou-a e telefonou a um especialista. Tratava-se de uma obra do mestre Renoir, valendo mais de 100 000 euros... num golpe de teatro posterior, descobriu-se que o quadro tinha sido roubado a um museu em 1951, pelo que a sua redescobridora não obteve qualquer compensação pelo feito.

A única lição possível é: antes do caixote de lixo, certificarmo-nos de que é mesmo tralha e não ouro disfarçado. E, cara leitora, se no mês passado andava pela Califórnia a deitar fora computadores velhos, apresente-se: há uma agradável montanha de notas verdes à sua espera.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Prometeu agrilhoado

O titã Prometeu é um dos mais personagens de maior influência na mitologia grega. Ao exercer um enorme fascínio sobre os autores clássicos, que por sua vez definem uma grande parte da cultura ocidental nos últimos dois milénios, a história de Prometeu é uma metáfora poderosa sobre as relações humanas ou, em última instância, do que somos enquanto espécie.

Segundo a mitologia, o titã era da confiança dos deuses e nomeadamente de Zeus… até ao momento em que levou o fogo, dentro de um caule de funcho, do Olimpo até aos humanos. O fogo assim descoberto significou para os mortais a sua relativa independência dos temperamentais deuses, e Prometeu tornou-se um herói na Terra; mas Zeus não achou piada nenhuma à façanha e condenou Prometeu à punição eterna de ficar acorrentado a uma rocha no topo de um monte onde, todos os dias, uma águia lhe comia o fígado, órgão que voltava a crescer no dia seguinte antes da chegada do pássaro.

Os deuses actuais da Grécia são os seus credores, nomeadamente os bancos alemães, e pelo uso descuidado do fogo/euro que a Grécia fez condenaram-na a nova punição eterna: a servidão financeira sem fim, sem redenção à vista, sem recuperação possível. A cada ponto percentual de redução do défice que a Grécia obtém – e os números mostram que o país tem feito um esforço verdadeiramente titânico nesse sentido –, logo aparece a águia da austeridade para comer fígado, coração e cérebro com o seu círculo vicioso, pois os multiplicadores macroeconómicos associados significam que para cada excedente do défice são precisos cortes duas vezes mais altos, e a economia vai contrair-se três vezes mais. Em números: nas duras negociações que estão a decorrer (e a falhar) enquanto escrevo estas linhas, os credores exigem uma melhoria orçamental de 1,66% do PIB grego (de um défice esperado de 0,66% para um superavit de 1%); mas para atingir esses 1,66%, serão precisas medidas (aumento dos impostos e corte nas despesas do Estado) no valor de 3,33% do PIB – e a economia vai contrair-se em cerca de 5% do mesmo. Finalmente, o aumento da dívida é grosso modo proporcional ao encolhimento do PIB – mas como a dívida grega já está nos 180%, o aumento seria de 9 pontos percentuais, caminhando a passos largos para uns impensáveis 200% do produto. Mais ou menos o dobro de antes da intervenção da troika, há cinco anos.

Há dois cenários indesejáveis na mesa: ou a Grécia continua a sua penitência para sempre, com toda uma geração de jovens gregos a ser punida por eventuais erros das anteriores gerações, um desemprego generalizado, uma economia espartilhada, uns pagamentos de juros agiotas; ou o país entra em incumprimento, sendo levado a sair do euro, os seus bancos deixam de funcionar, o dinheiro desaparece, e os efeitos dentro de portas – mas também nas restantes economias do euro e no próprio projecto europeu – são imprevisíveis mas certamente devastadores. E isto para todos.

A dívida continua a ser um problema político e não técnico. São os políticos – Tsipras, Merkel, Hollande, Juncker – quem o deve resolver de forma duradoura e não ideológica, e está a chegar a altura de o fazer. O eminente economista Thomas Piketty afirma que mais tarde ou mais cedo será obrigatório reestruturar e perdoar todas as dívidas soberanas, incluindo a de Portugal; quanto mais tardarmos, pior ficará a situação.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Se não há votos, não há impostos


A matrícula da limusina do presidente dos EUA tem o número 800 002 e diz “No taxation without representation”. Esta não é uma frase qualquer – está ligada ao nascimento dos próprios Estados Unidos. Em 1765, esta colónia debaixo da autoridade da Coroa inglesa não podia eleger qualquer deputado ao Parlamento de Westminster. Assim, os colonos americanos assistiam impotentes aos novos impostos que Londres lhes impunha; e num discurso que ficou célebre, James Otis gritou “Impostos sem representação significam tirania!”.

A tensão foi-se acumulando até desembocar no famoso Boston Tea Party, considerado o ponto de não retorno para os Estados Unidos como país independente. Londres aplicava altas taxas a todo o chá desembarcado em portos americanos; algumas centenas de rebeldes tentaram afastar três navios ingleses carregados mas, ao não serem ouvidos pelo governador, acabaram por se disfarçar de índios e atirar para a baía todos os 342 caixotes de chá – o suficiente para fazer mais de 18 milhões de chávenas.

O resto é História: os EUA fundaram-se – e acabaram por conquistar o mundo – partindo da convicção profunda que o contrato social implícito numa democracia representativa é que os indivíduos têm responsabilidades (como a de obedecer às leis), deveres (como o de pagar os seus impostos) e direitos (como o de poder influenciar o rumo da sociedade e da sua contribuição para a mesma, escolhendo os seus representantes e líderes políticos). Sem cumprir esse contrato de base, uma sociedade pode pavonear-se como livre, democrática e evoluída, mas não o é mais que a Roma antiga, onde apenas uma elite de homens com terra e escravos era considerada “cidadã”, ou que o Qatar, uma monarquia fechada e elitista.

O Luxemburgo não está a cumprir o seu contrato social. Os números são assustadores: nas últimas eleições houve 203 mil votos válidos, mas a população do Grão-Ducado está agora estimada em 550 mil almas. 37% dos habitantes, um pouco mais de um terço, decidem por todos o que fazer com os seus direitos e o seu dinheiro… Não há registo de outro local assim no Ocidente, e ainda bem que o voto é obrigatório ou esta percentagem seria ainda (muito) mais baixa.

O tremendo resultado do “não” no referendo de domingo pinta um retrato algo assustador – até pelo seu realismo – do pequeno país. Mas tal era esperado: não se pode pedir às massas que exerçam o altruísmo. A natureza humana é egoísta e um privilégio como ter direitos cívicos é mais valioso se for exclusivo e raro – nesse sentido votaram os luxemburgueses, incluindo alguns “cristãos-novos”, portugueses que abandonaram a sua nacionalidade julgando assim poder passar da cozinha à mesa, por assim dizer, e que agora alegam que há poucos lugares à mesa, portanto o melhor é que os seus familiares continuem na cozinha.

Pouco importa. Vontades iníquas podem pouco contra o curso inexorável da História. Em 1983, a África do Sul também organizou um referendo onde só os brancos podiam votar; 66% aprovaram a criação de um subparlamento para mulatos e indianos, e disseram “não” ao direito de voto para os negros (a maioria). Apenas sete anos depois, Mandela saiu da prisão e o apartheid voou em estilhaços.

Se nem a FIFA limpamos…


Sepp Blatter sucedeu a Sepp Blatter. Isto não é notícia nenhuma, obviamente: esta afirmação tem ares de inevitabilidade cósmica. Ou seja, tal como se ensinava há muitos anos nas faculdades de jornalismo, se o homem mordeu o cão é notícia, mas se o cão mordeu o homem já não é. E não há cão mais mordedor que Blatter.

A notícia aqui é que continuamos a permitir, impotentes, que escroques se apoderem daquilo que nos é querido e importante – neste caso, do magnífico desporto que é o futebol, “the beautiful game”. Um jornal anglo-saxónico publicou ontem uma lista que faz tremer qualquer adepto, a dos 12 homens que arruinaram o futebol. Um deles é o português Jorge Mendes (simbolizando ali os agentes de futebolistas que também gerem os interesses de clubes inteiros, num conflito de interesses evidente), outro o tailandês que gere uma gigantesca rede de apostas ilegais em resultados combinados, ainda outro Jean-Marc Bosman, o futebolista medíocre que abriu o caminho à extinção completa do amor à camisola. Mas todos os restantes são o que os brasileiros designam por “cartolas”: os dirigentes que nunca jogaram, nunca treinaram, nunca vibraram, mas obtêm do futebol uma vida principesca e decadente. E à cabeça deles todos, obviamente, está o suíço Blatter, o homem que trabalha na FIFA desde 1975 (são quatro décadas) e é o seu presidente desde 1998. Nesse ano, o lucro desta organização sem fins lucrativos (suprema ironia) foi de 25 milhões de dólares, mas hoje em dia é de uns muito mais adequados 1500 milhões, provindos das multinacionais que pagam o carrossel: Coca-Cola, Adidas, Hyundai, Visa, McDonald’s, Gazprom e Budweiser.

As espectaculares detenções de 14 vice-presidentes e altos responsáveis da FIFA, ocorridas dois dias antes da reeleição do ditador de Zurique, só pecam por muito tardias mas têm também as suas zonas de sombra: foram instigadas pela Justiça dos EUA, um país que não quer saber de futebol mas consegue mais uma grande vitória no plano da imagem, bem nas barbas das passivas autoridades europeias (estas, como sempre, fortes com os fracos mas fracas com os fortes); e, apesar de ser mais um fortíssimo argumento para todos nós que sabemos quão podre e tóxica é a cúpula reinante do futebol, o processo está incompleto. O Padrinho Blatter passou incólume, foi reeleito e excedeu-se no desplante do seu discurso de vitória, na sexta-feira: “Sou o presidente de todos. E não posso andar a vigiar o que todos fazem”.

Não o subestimem. Blatter, o déspota apoiado por outros déspotas, é tão maquiavélico como hábil: não mudará os anfitriões dos próximos campeonatos do mundo, Rússia e Qatar, a não ser que sinta o seu lugar em perigo; e se isso não aconteceu até agora, é difícil imaginar que venha a acontecer. Pelo contrário, diria mesmo que existe uma boa possibilidade que o suíço queira alterar o seu legado histórico e surgir, nos próximos tempos, como o homem que está a limpar a FIFA, em vez de simbolizar o homem que conspurcou o futebol. Já houve transformações mais improváveis.

No fundo, a dúvida que me assalta ao assistir a todo este espectáculo deprimente é mais preocupante: os anos passam e simplesmente não conseguimos resolver um problema tão patético como a FIFA. Que esperança podemos ter então em salvar os mares moribundos, combater o fanatismo religioso ou alimentar todo o planeta? Nem quero pensar na resposta.

Gosta de vinho português? Processe o governo


2015 é um ano de Exposição Universal. A que está a decorrer, inaugurada a 1 de Maio em Milão, tem todo o ar de uma gigantesca oportunidade falhada, mas é chocante que Portugal não esteja entre os 145 países presentes (o Luxemburgo também não).

A Expo de Milão é sobre comida, ou para ser mais preciso, o tema é “Alimentar o planeta, energia para a vida”. O tema é acessível, interessa-nos a todos, e é de importância fulcral – sobretudo numa altura em que as dúvidas crescem sobre a sustentabilidade da produção alimentar na Terra. As ideias originais eram também elas de alta qualidade: replicar a organização da cidade romana, com duas ruas principais, e agrupar todos os países presentes em enormes pavilhões-tenda que não só eliminariam as diferenças entre países ricos e pobres, como também contariam com grandes quintais onde cada país produziria alguns dos seus produtos típicos que seriam posteriormente oferecidos numa longuíssima mesa na rua principal. Tudo isso por entre canais que serviriam para transporte e irrigação dos novos terrenos agrícolas assim recuperados.

É quase inevitável que essas ideias românticas chocassem de frente com a realidade de um evento deste tipo e os desejos do BIE e dos seus patrocinadores. E foi assim que os terrenos férteis da exposição foram cobertos com uma enorme placa de betão por cima da qual cada país pôde construir o pavilhão como bem quis, enquanto um enorme canal foi escavado e em seguida abandonado. Agora, durante a Expo, é possível ouvir falar de culturas sustentáveis ao lado do pavilhão da McDonald’s, ler sobre o chocolate do Peru mas apenas comer Nutella ou Rochero Ferrer, ver fotos do café de Timor mas apenas poder beber café do patrocinador Illy.

Problemas de organização aparte, uma Expo continua a ser um fenómeno de impacto global; a anterior, em Xangai (2010) teve um recorde de 73 milhões de visitantes, e é neste tipo de palco que os países têm de competir e construir a sua marca, atraindo investimento e turismo. Os custos de participação são negligenciáveis comparados com o impacto brutal que a presença pode ter nas exportações de um país, assim como nos visitantes adicionais que pode atrair. E como cereja no topo do bolo, a Expo 2015 é sobre comida; uma das áreas onde Portugal é especialista, tanto mais que a dieta mediterrânica é hoje celebrada como modelo a seguir e património da Humanidade.

Mas os governantes portugueses, os mesmos que venderam o Pavilhão Atlântico em Lisboa por menos de metade do custo do edifício – desbaratando assim 33 milhões de euros – não acharam que 7 milhões fossem um investimento meritório para promover perante o mundo aquilo que Portugal fez de melhor, nem aquilo que temos para vender ao mundo: os vinhos, o azeite, os peixes, o café, as frutas, tanto mais. Mais uma vez, foi deixada à UE a tarefa genérica de defender algo de português; e é com um misto de alívio e raiva que se visita o pavilhão espanhol, repleto de referências precisamente a tudo aquilo que deveríamos orgulhosamente apresentar mas não fazemos, por miopia, mesquinhez ou incompetência. Por falar em orgulho, o prego final no seu caixão chegou no final, com a imagem gigante de um bacalhau salgado… made in Spain.

Eu não produzo vinho português nem tento exportar produtos com essa marca desvalorizada. Mas se o fizesse, depois de visitar a Expo 2015, processava os governantes de Lisboa.

Juncker tem um (bom) plano


Jean Monnet, um dos “pais fundadores” da Europa, usou por várias vezes a metáfora da bicicleta: para ir em frente sem cair, a UE teria de estar a pedalar constantemente. E Jacques Delors, um dos seus ilustres sucessores, teorizou sobre os “pequenos passos” da construção europeia, que num mundo em constante mudança poderiam não ser suficientes e exigir isso sim mudanças quantitativas.

Depois do imobilismo de uma década de Barroso, a pergunta é legítima: qual foi a última vez que a Comissão Europeia usou o seu poder de iniciativa para impulsionar uma ambiciosa reforma? A resposta mais correcta será porventura a introdução do euro… em 2002. Há demasiado tempo.

Os primeiros meses do team Juncker não foram promissores, trazendo o cancelamento de vários temas que transitavam do passado sob o manto protector de uma anunciada intenção de “legislar melhor” (ou seja, muito menos). Mas a semana passada trouxe uma boa surpresa: sob uma pressão mediática terrível, com incessantes barcos de migrantes vindos de África e uma opinião pública polarizada sobre o problema, a Comissão adoptou a sua “Agenda para as Migrações”, mostrando que tem a determinação e os recursos (inteligência, coragem, peso político) para (pelo menos tentar) atingir os seus objectivos.

O plano apresentado tem principalmente dois pontos-chave: acabar com o absurdo de 28 políticas diferentes de migração e asilo num continente onde as fronteiras internas foram suprimidas, e enquadrar ao mesmo tempo um fluxo migratório inevitável de que a Europa, mesmo não o querendo admitir, tem necessidade. Mais do que isso: os imigrantes que chegam em barcos, bem como os outros que entram de outras formas, serão fulcrais para que no futuro esta parte do mundo se mantenha competitiva, relevante… numa palavra: viva.

O desafio é enorme. A Agenda obriga os Estados-Membros europeus a redistribuir o esforço de processamento dos pedidos de asilo, que neste momento recaem sempre sobre o Estado de chegada – ou seja, Itália, Grécia, Espanha ou Malta. E, de acordo com uma fórmula que tem em conta a riqueza do país, a sua taxa de desemprego e a sua população, estabelece uma quota de refugiados obrigatória por país – por exemplo, Portugal deveria receber a cada ano 704 refugiados, enquanto que no ano passado o país recebeu uns meros… 14.

O obstáculo reside precisamente aqui. Juncker teve a coragem de iniciar um braço-de-ferro com os Estados; estes, por razões que vão desde a falta de visão ao populismo egoísta, não querem ser forçados a nada e já rejeitaram maciçamente a imposição de quotas, ameaçando pela base todo o novo sistema, ao mesmo tempo que organizam uma operação naval para destruir os barcos utilizados pelos traficantes na Líbia – uma medida necessária, sem dúvida, mas muito longe de suficiente para resolver a crise.

A Comissão percebeu que a Europa precisa, também nesta área, de um salto em frente e mostrou audácia. Cabe aos líderes dos diferentes países europeus mostrarem-se ao mesmo nível, para que o nosso mar deixe de ser um cemitério, e porque não é possível simplesmente ignorar o problema. As perspectivas? Não são animadoras.

Mais sonambulismo


Escrito por um historiador britânico, "Os Sonâmbulos" é um trabalho de investigação notável sobre os anos que conduziram ao verão de 1914 e a catastrófica Grande Guerra. A tese central do livro de Chris Clark – que ensina História europeia moderna em Cambridge – é de que os principais actores políticos da época, desde o kaiser Guilherme ao rei de Inglaterra, passando pelo czar das Rússias ou o presidente francês, se depararam muitas vezes com sentimentos de "inevitabilidade". Ou seja, que considerando as acções de todos os outros, a sua reacção só poderia ser uma, e essa significava mais um pequeno passo em direcção ao abismo. Todos os passos somados levariam à queda – de repente, os sonâmbulos acordaram e a Europa estava em guerra total.

Perante os nossos cansados olhos, um processo similar desenrola-se neste momento (esperemos que com consequências menos trágicas) no que respeita à relação do Reino Unido com a família europeia. Na sexta-feira de manhã, a Europa acordou com os resultados bombásticos das eleições britânicas: os conservadores chegaram à maioria absoluta. Como o partido do primeiro-ministro Cameron, numa deriva cada vez mais eurocéptica, tinha prometido referendar a continuação do país na União Europeia se continuasse no poder (num dos tais "pequenos passos" que, de promessa eleitoral, passa a profecia que se auto-realiza), vamos ter direito a uma consulta ao povo em 2017 (ou mesmo já em 2016). O Reino Unido fica dentro ou fora da Europa?

Mesmo após o referendo, esta não é uma pergunta de branco ou preto, há muitas zonas de cinzento. Desde logo porque se pode argumentar que nunca – sobretudo com o actual primeiro-ministro – o país esteve realmente dentro da Europa, o que aliás provoca a situação paradoxal em que David Cameron se encontra: quer “reformar a União Europeia” e “renegociar a situação do Reino Unido na UE”, mas nunca teve tão poucos amigos, ou tão pouca influência, como actualmente. O que torna a sua tarefa numa quadratura do círculo: terá de apresentar propostas que agradem aos seus correligionários de partido, cada vez mais radicais; a um eleitorado cada vez mais simplista e nacionalista, a quem prometeu um referendo; e a uns parceiros europeus de paciência esgotada (não por acaso, a mensagem de parabéns de Juncker a Cameron na sexta-feira terá sido uma das cartas mais curtas de sempre).

Essa negociação impossível não vai resultar, logo a pergunta será colocada: sim ou não à Europa? Alguns amigos britânicos que trabalham em política professam-me a sua esperança em que o bom senso venha a prevalecer, e lançam os seus argumentos: os conservadores, no fundo, apenas obtiveram 37% dos votos expressos; perante uma alternativa clara à Europa, os britânicos, que bem no fundo se sentem europeus, votarão sim; e claro, o pragmatismo ajudará muito (3 milhões de empregos, 25 000 empresas e muitos milhões de milhões de libras dependem do mercado único e do facto de Londres ser uma capital europeia).

São ilusões. Neste momento, não há vitória possível para o “sim”; o referendo será sobre matérias mais emocionais – e totalmente falaciosas – como “mais soberania”, desconfiança em relação a Bruxelas, o facto do país ser uma ilha, etc. Enquanto sabemos o que o “sim” significa, não sabemos bem o que o “não” quererá dizer, mas isso é precisamente um trunfo para esse campo, que aglutinará tudo – desde o voto de protesto contra o sistema, como o nacionalismo radical, como aqueles que querem ser uma segunda Suíça… O “não” vai vencer a votação.

A Europa precisa e vai ter saudades do Reino Unido. Este, curiosamente, vai ter menos saudades da Europa, mas perderá muito mais com a separação. Os sonâmbulos estão outra vez a caminhar para o abismo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Plástico fantástico

O leitor conhece aquela anedota sobre o saco plástico? Claro que não, porque não há forma de fazer humor sobre o tema: sacos plásticos são uma autêntica praga para o nosso depauperado planeta. Não só o plástico é um material difícil e nocivo de produzir (o montante de petróleo necessário para um simples saco plástico seria suficiente para mover um carro por 11 metros), como também está cheio de substâncias químicas pouco testadas e ligadas a doenças graves. Pior que tudo, não se desintegra nem se degrada, pelo que o saco das compras que usámos por alguns minutos hoje vai andar por aí, em boa forma, por muitos séculos – a maior parte deles passados no mar a sufocar peixes, gaivotas e polvos.

O mundo produz anualmente 1 milhão de milhões de sacos plásticos por ano. É um 1, seguido de doze zeros, a cada ano somando aos resíduos de todos os outros anos. A este ritmo, em breve não existirá espaço no planeta para humanos, animais e sacos plásticos – será preciso escolher.

E a Europa escolheu: o Parlamento Europeu acaba de aprovar a proibição dos sacos de plástico “leves” (ou seja, os mais finos e que tendem a não ser reutilizados). A intenção é a de reduzir drasticamente a utilização daqueles exemplares mais desagradáveis e barulhentos, seguindo as práticas dos países mais avançados nessa matéria – na Dinamarca e na Finlândia, cada habitante usa apenas 4 destes saquinhos por ano… enquanto que os portugueses, no outro extremo, usam nada mais nada menos que 466 por pessoa, em média! Mesmo sabendo que até há pouquíssimo tempo cada supermercado parecia ter prazer em oferecer o maior número de sacos possível – e não era raro ver clientes a trazer cada peça de fruta num saco diferente – o valor não deixa de ser assustador. Era necessário mudar, e a proibição só peca por tardia.

Mas claro, nem o que terá sempre de ser considerado algo de positivo – o desaparecimento, a médio prazo, de algo terrível como o plástico ubíquo – deixa de envolver grandes consequências económicas. O caso vem sublinhar a dificuldade de tomar decisões políticas nas nossas sociedades nominalmente democráticas, porque há sempre interesses contrastantes (até num caso linear como este) e muitas vezes, ou quase sempre, são os poderes mais obscuros quem tem maior capacidade de influenciar a tomada de decisão. Neste caso, os sacos plásticos serão proibidos. Mas nem todos. 

O texto da lei foi sendo alterado ao longo do tempo, e uma grande empresa alemã produtora, principalmente, dos sacos mais grossos conseguiu, através dos bons serviços de uma firma de advogados lobbyistas, que os políticos europeus não incluíssem estes no alcance da directiva, e isto apesar de obviamente os sacos pesados levarem mais plástico e serem assim ainda mais poluentes que os leves. Em compensação, os sacos plásticos biodegradáveis foram mesmo incluídos na proibição (sob o argumento que eles se desfazem em pedaços que continuam a ser nocivos). Por tremenda coincidência, ou talvez não, os sacos biodegradáveis são patente da maior concorrente daquela empresa alemã (uma companhia italiana), que agora ficará sem produtos para vender. 

O problema é que no mundo dos negócios e da política existem muito poucas coincidências. E a economia europeia faz cada vez mais lembrar a famosa frase de Gary Lineker sobre o futebol: “É um desporto simples: 11 contra 11, e no fim ganham os alemães”.

O outro 25 de Abril


O passado sábado foi Dia da Liberdade. Em Portugal passaram 41 anos desde aquela épica madrugada de “E depois do adeus” e “Grândola Vila Morena”, desde os tanques no Largo do Carmo, desde aquela imensa alegria de um país finalmente libertado após quase meio século de fascismo. Foram 41 anos de evolução rápida no meio de alguns retrocessos como o actual – e é altamente simbólico ler a filha de Salgueiro Maia, emigrada no Luxemburgo, dizer “o meu pai deve estar a dar voltinhas no caixão”, como é preocupante ler o pacto de regime entre PS, PSD e CDS para amordaçar os media do país durante a sua cobertura da campanha, numa reedição moderna da comissão de censura prévia. Mas apesar dos escolhos no caminho, aquele dia de Primavera em 1974 foi, e sempre será, a origem de tudo.

A Itália comemora a mesma data como Dia da Libertação; foi há exactamente 70 anos, no final da II Guerra, que uma outra comunicação radiofónica anunciou o fim do fascismo e o renascimento de uma nova Itália. Mussolini seria fuzilado três dias depois.

Este ano, no entanto, uma outra efeméride histórica ultrapassa em significado e simbolismo aquelas duas, pois foi a 25 de Abril de 1915 – precisamente há um século atrás – que se deu o desembarque de Gallipoli, onde dois países tiveram o seu “baptismo de fogo” e tantos homens encontraram uma morte duríssima e absurda. A Austrália e a Nova Zelândia tinham acabado de ganhar o direito à autodeterminação, mas ainda faziam parte de um Império Britânico envolvido numa guerra brutal contra a Alemanha e os seus aliados com capital na mítica Constantinopla.

Conquistar Constantinopla a uns otomanos enfraquecidos e desmoralizados não seria difícil, pensava o exército britânico com a sua costumeira arrogância. Foram feitas incursões navais para controlar os estreitos (Bósforo e Dardanelos), e ultimados os planos para uma invasão terrestre, iniciada num desembarque maciço, para o qual restava escolher os pontos mais adequados; essa escolha recaiu em dois sectores da quase deserta península de Gallipoli. Um deles foi reservado para o Anzac – o corpo do exército constituído exclusivamente por soldados voluntários vindos do outro lado do mundo, na Oceânia.

Na madrugada do dia 25, os Anzacs desembarcaram no que é hoje conhecido oficialmente como “a enseada Anzac” – e que consiste numa estreitíssima língua de areia e pedras. O objectivo era chegar rapidamente aos pontos elevados do terreno e conquistar as poucas aldeias do território, abrindo caminho até à capital. Mas a prainha está rodeada por uma falésia, no cimo da qual estavam os canhões turcos prevenidos quanto a uma possível invasão. Foi uma carnificina absurda. Muitos soldados nunca chegaram a sair dos barcos; ao final do dia, os sobreviventes tinham conseguido amontoar-se ao longo da areia, entre centenas de cadáveres, completamente vulneráveis ao fogo inimigo no topo da falésia. O comandante australiano requereu a retirada imediata, alegando a condição dizimada do regimento; o general inglês respondeu-lhe “escavem, entrincheirem-se, aguentem-se” – não eram uns milhares de tipos vindos dos antípodas para morrer ali, naquele fim do mundo turco, que lhe iriam fazer perder o sono e o prestígio.

A invasão arrastou-se por 9 meses, sem qualquer progressão dos Aliados, encurralados, doentes e mortos em terras de ninguém, arrastados para longe de casa sem compreender porquê ou para quê. No total, mais de 110 mil mortos e quase 400 mil feridos em vão, vítimas da incompetência e arrogância das hierarquias militares, habituados então a enviar jovens homens para a morte enquanto beberricavam o chá.

Gallipoli, palco de emocionante missa no sábado com os PM australiano e neo-zelândes, tornou-se símbolo da vergonha da guerra. Mas estes homens do século passado lutaram por nós, deram a vida pela nossa liberdade. Merecem toda a nossa gratidão e respeito.

Mare Nostrum

Na base da estátua da Liberdade, em Nova York, há uma placa de bronze onde está inscrito um poema muito conhecido do outro lado do Atlântico. A sua autora é Emma Lazarus, uma judia sefardita do fim do século XIX cujos antecedentes estavam em Portugal, e o poema versa sobre os imigrantes, sobretudo europeus, que chegavam então em hordas aos Estados Unidos – de barco, naturalmente. Uma tradução livre do segundo soneto poderia ser algo como 

“Dêem-me os vossos exaustos, os vossos pobres
As vossas massas encurraladas ansiosas por respirar em liberdade
O miserável refugo das vossas costas apinhadas de gente
A estes sem-abrigo, aos sacudidos pelas tempestades, enviem-nos a mim
Eu levanto a minha tocha ao lado dos portões dourados”.

Os EUA são um país construído por imigrantes, e durante muitas fases da sua história encorajaram a sua vinda (em vez das “massas encurraladas” sempre procuraram ser, isso sim, altamente selectivos). Isso mudou: as pressões migratórias nas últimas décadas tornaram-se tão fortes que o país construiu um muro. Um muro, por vezes uma cerca, que cobre mais de 1000 km da fronteira com o México – e que divide populações índias, barra animais de chegarem aos seus habitats, destrói ecossistemas, e nem sequer é eficaz no seu objectivo (deter as migrações ilegais), sendo ainda por cima muito caro para os contribuintes. Mas continua lá, e os migrantes mexicanos continuam a morrer à sua sombra.

A Europa não tem um muro: tem um mar. Os sem-abrigo sacudidos pelas tempestades, pelas ondas, apinham-se nas costas da Líbia ansiosos pela oportunidade de, sendo extorquidos, poderem ainda assim apanhar um cargueiro, um pesqueiro, qualquer coisa que flutue e que os aproxime do Eldorado europeu – mesmo que este seja uma miragem, será sempre bem melhor do que as zonas de guerra ou fome de que estes africanos provêm.


Por outras palavras, elas continuarão a vir, essas massas ansiosas pela liberdade. Sem descanso. Só em 2014, foram 215 000 pessoas a atravessar o “nosso mar”. Temos de trabalhar para melhorar as suas sociedades de origem, minorando a guerra (ou pelo menos não a acelerando, como na Líbia), não apoiando ditadores corruptos, promovendo o crescimento económico; só que isso leva muito tempo. Neste momento, é necessário voltar a fazer o que a Itália fazia até ao outono passado, patrulhando o Mediterrâneo com muitos meios navais e aéreos numa missão humanitária e militar – a Mare Nostrum.

Para se manter no terreno, a missão custava 9 milhões de euros por mês – uma gota de água para a Europa, mas demasiado para os depauperados cofres italianos. Roma pediu ajuda, alegando que o problema das migrações é comum e não apenas seu; 24 dos 28 países europeus (todos os outros menos Grécia, Malta e Chipre) responderam que não, não contribuiriam, acrescentando que isso de ajudar náufragos pobres só os incentivava a continuar a tentar, logo o melhor seria abandoná-los, a eles e ao Mediterrâneo, à sua sorte.

É assim que as coisas se passam nesta Europa “solidária” de 2015.

Memória do fogo


Em “Fotos do Fogo”, do seu excelente álbum “Tinta Permanente”, Sérgio Godinho exorciza os seus fantasmas da guerra colonial portuguesa, colocando-se na pele de um antigo soldado português que, muitos anos depois, relembra à lareira os dias em que lhe deram um lança-chamas cospe-fogo para a mão e lhe disseram: “agora queima aldeias”. Tudo em nome de uma suposta missão civilizacional, um colonialismo cego e racista que queimou toda uma geração, em Portugal, em Angola, em Moçambique ou na Guiné-Bissau.

O escritor de canções lançou o seu primeiro disco em 1971, “Os Sobreviventes”. 1971 é apenas mais uma de várias aparentes coincidências, dado que é o mesmo ano em que uma sua alma gémea, um outro jovem envolvido e desobediente, publica um livro que se tornará obra incontornável, aclamado e proibido pelas ditaduras que alastraram pela América do Sul, oferecido por Hugo Chavéz a Obama no único encontro entre estes dois estadistas, lido pelos jovens sul-americanos como uma espécie de ritual iniciático do despertar da sua consciência histórica, política, económica. O livro tem um título – “As veias abertas da América Latina” – que sugere desde logo aquilo que lá se encontra. “O desenvolvimento desenvolve a desigualdade”: a descrição de um continente estuprado pelo colonialismo e bloqueado por séculos de dominação europeia e americana. E obrigou o seu autor, o uruguaio Eduardo Galeano, ao exílio; primeiro na Argentina e depois, quando este último país também caiu na sinistra mão dos generais, em Espanha.

Foi já desde a Península, casa dos dois países que colonizaram a América Latina (e sem esquecer que foram os navegadores portugueses os primeiros a chegar ao que é hoje o Uruguai, que também chegou a fazer parte do tardio império português), que Galeano escreveu a sua obra de maior fôlego: “Memória do Fogo”. Prosas pequenas em linguagem poética, em que os narradores são os personagens, reais ou fictícios, da tradição oral sul-americana.

Mas o grande Galeano era ainda mais do que esse enorme livro. Era também um homem que se tinha transformado em consciência ética, ecológica, inconformada dos “ninguéns” – os ninguéns donos de nada, a quem tinha dedicado um livro. Era um utópico que acreditava ser a utopia a única forma de avanço. Era o arauto que tinha escrito (e estas palavras arrepiam-me sempre) “Oxalá possamos ser desobedientes de cada vez que recebemos ordens que humilham a nossa consciência ou violam o nosso senso comum; oxalá sejamos dignos da desesperada esperança. Oxalá sejamos capazes de continuar caminhando os caminhos do vento, apesar das quedas e das traições e das derrotas, porque a história continua, além de nós mesmos, e quando ela diz adeus, está a dizer: até logo. Oxalá possamos merecer que nos chamem loucos por cometer a loucura de nos negarmos a esquecer, nestes tempos da amnésia obrigatória.”

A História continua, além de nós mesmos, além do mestre Eduardo Galeano, que nos deixou a todos mais pobres de espírito dizendo-nos até logo no dia 13 de Abril, perto do Café Brasileiro que era o seu poiso favorito em Montevideu.

A hierarquia da morte


Era minha intenção escrever este texto sobre Manoel de Oliveira. Prestar ao Mestre uma pequena homenagem, falar sobre a relação tão profunda que ele mantinha com o Porto. Discutir a imagem da sua cidade, até certo ponto inventada pelo realizador. Lembrar que na incrível carreira de Oliveira apenas existiram duas longas-metragens de ficção antes de 1974, todas as restantes chegaram mais tarde. E por aí em diante.

Mas no mesmo dia em que Oliveira desapareceu aos 106 anos, o horror indescritível atacou-nos num ponto mais distante do planeta – uma pequena cidade do Quénia. 148 pessoas, quase todas entre os 19 e os 24 anos, foram barbaramente assassinadas pelos neonazis islâmicos do al-Shabaab (que significa, numa ironia arrepiante, “a Juventude”). Mais uma vez, como já tinha acontecido há dois anos quando o mesmo grupo de celerados atacou o shopping Westgate no mesmo país, os terroristas seleccionaram entre quem deixavam escapar (os muçulmanos) e quem assassinavam a sangue-frio (todos os outros, nomeadamente os cristãos).

148 jovens seres humanos devem ser mais importantes que 1, e por isso decidi por um dia inverter a “hierarquia da morte”: o processo pelo qual algumas mortes são altamente mediáticas e ocupam todas as redes sociais, enquanto outras não passam de uma desafortunada estatística que acontece confortavelmente longe. Esta hierarquia segue várias regras controversas, que é urgente contrariar: desde logo, que mortes nacionais são muito mais importantes que as outras, a um rácio nacionalista que deve andar pela cotação de 1 nacional = 500 estrangeiros. Em seguida, a qualidade e o pormenor da informação recebida dependem do local onde a notícia ocorre; Paris ou Alpes permitem actualizações constantes, enquanto países africanos ou asiáticos fazem-nos depender de uma, por vezes única, agência noticiosa. Por fim, é claro – quando um atentado num país instável faz mortes “esperadas”, já nem nos surpreendemos quando tal já nem aparece nas páginas interiores. É assim que “somos todos Charlie” (e ainda bem que assim é), mas não temos a mesma energia para sermos todos Nigéria, nem todos Quénia. Torna-se um círculo vicioso, porque a hierarquia é decidida em redacções de jornais de acordo com o interesse que as notícias provocam nos leitores, e esse interesse vai diminuindo à medida que sabemos cada vez menos sobre o distante e o alheio, recomeçando o processo.

Este estado de coisas não é uma fatalidade. Podemos e devemos desenvolver a nossa cidadania, aperfeiçoar o nosso conhecimento, criar redes de conhecimento partilhado que curto-circuitem os estafados clichés. No Twitter, a blogueira queniana Ory Mwangi criou o tema “148 não é só um número”, que procura dar caras e nomes às vítimas de mais um ataque aos nossos valores civilizacionais. É um bom início, mas claramente insuficiente. De Roma, o papa Francisco ajudou, condenando especificamente este acto onde se repetiram tantas violências indizíveis, e a ONU também foi veemente nas suas palavras, mas uma acção com muito mais impacto seria uma reedição da marcha de líderes políticos mundiais em Nairobi para demonstrar que não nos rendemos, não nos intimidamos, e não mudaremos. Uma marcha como a que supostamente aconteceu em Paris este Janeiro – só que real, desta vez, e não encenada.

A vida atrás de portões dourados


“Ninguém está mais desesperadamente escravizado que aqueles que erradamente acreditam serem livres”. A frase é de Goethe – o maior escritor de sempre em língua alemã, com licença de Zweig e Kafka – logo, tem mais de dois séculos. Mas nunca foi tão útil como agora.

Apesar de preenchermos discursos e filmes com grandiosas palavras como “liberdade” e “democracia”, a verdade pura e dura é que ambos os conceitos são cada vez mais relativos, para não dizer falsificados. São numerosos os pensadores que consideram as nossas sociedades como pós-democráticas (uma ideia que será objecto de outro artigo neste espaço); quanto à “liberdade”, sabemos hoje (sem querer sabê-lo) que somos vigiados, escutados e controlados, que as nossas opiniões são formatadas pelos media de massas, e que qualquer decisão que tomemos esbarra rapidamente na asfixiante colecção de regras e limitações que construímos ao longo dos tempos. Liberdade?

A frase de Goethe foi largamente utilizada durante os protestos “Occupy Wall Street” que procuraram, sem sucesso, recuperar pelo menos parte do poder público irremediavelmente escapado para algumas, muito poucas, mãos privadas. Mas essas mesmas manifestações descobriram, da forma mais dura, uma nova forma de cercear liberdades: a privatização do espaço urbano. A reunião de Londres, por exemplo, foi programada para acontecer em frente à Bolsa de Valores, na praça Paternoster. Acontece que essa praça, tal como quase todos os grandes espaços públicos na City de Londres, tem um dono – neste caso a Mitsubishi Corporation – que imediatamente conseguiu uma ordem judicial de expulsão da multidão. 

O conceito de “Pops” – da sigla em inglês para “espaço público de propriedade privada” – foi definido do outro lado do Atlântico, e só em Nova York já há 503 praças, galerias ou parques assim definidos, com acesso restrito e controlado, apesar de aparentemente – e parcialmente pagos com dinheiros – públicos. Mas estes locais não são uma invenção americana, e é nos países onde as desigualdades são mais gritantes e a sociedade mais segregada que eles florescem, por exemplo nas monarquias do Golfo, na América Latina, na África do Sul ou na Índia – este último país está a construir uma cidade completamente privada, Lavasa, com um “administrador” não eleito em vez de um alcaide, e a um altíssimo custo ecológico.

Na Europa as desigualdades também são crescentes, são esses os tempos que vivemos. E nenhum país foi mais atingido pela crise económica que a Grécia, onde a esmagadora maioria da população vive hoje pior que há anos atrás – mas uma certa elite vive muito melhor. Terreno propício, portanto, para o maior projecto de privatização do espaço público no continente, no espaço do antigo aeroporto de Atenas – 620 hectares que serão cercados, vigiados e transformados em casino e complexo de lazer, tipo Las Vegas no Mediterrâneo. Os milhares que vivem por trás de sólidos portões em condomínios bem fechados – e os milhões que aspiram a fazê-lo – aplaudirão mais esta apropriação abusiva de pedaços do planeta em benefício de alguns; nós, os restantes, continuaremos a iludirmo-nos, repetindo o mantra “liberdade, democracia” – mesmo enquanto o espaço público se vai fechando à nossa volta, deixando-nos cercados.

Mais uma Mona Lisa, por favor


9 334 435 pessoas visitaram o museu do Louvre no ano passado, algo como 30 mil aficionados de Arte por cada dia de abertura. Estes números tornam o museu parisiense inaugurado na ressaca da Revolução Francesa no mais visitado do mundo, e são impressionantes, sobretudo se pensarmos que um quadro de tamanho médio, por exemplo, só pode ser razoavelmente contemplado por – no máximo – uma dezena de pessoas de cada vez (e idealmente bem menos do que isso). Não admira que procurar vislumbrar a Mona Lisa por entre uma miríade de cabeças e máquinas fotográficas se torne, quase sempre, numa desilusão.

Talvez seja melhor assim, até porque o quadro de Leonardo não é o mais interessante que o enorme museu tem para oferecer. Mas a “experiência” vivida pelo turista não pode ser sistematicamente estragada pelas multidões; um perigo para o qual os grandes museus do mundo – e quase todos eles ficam na Europa, algo que nos deve encher de orgulho – estão neste momento a acordar. “O Louvre foi concebido para receber 5 milhões de pessoas por ano”, afirmou o seu presidente, J-L Martinez, “e há três anos consecutivos que estamos bem acima dos 9 milhões”. Igual para o museu Britânico (quase 7 milhões), museu do Vaticano (6 milhões) ou muitas outras destas veneráveis instituições, pensadas para um tempo diferente com um público diferente.

O público dos grandes museus está a crescer essencialmente por dois grandes fenómenos: o triunfo das companhias aéreas low-cost – democratizando as viagens e tornando mais fáceis as visitas de fim-de-semana a uma grande cidade – e a explosão de mercados emergentes com novos viajantes cheios de dinheiro para gastar, com a China, que ainda há poucos anos praticamente não enviava turistas para o Ocidente e hoje já ameaça tornar-se o mais numeroso contingente estrangeiro em Versailles, como melhor exemplo.

Os problemas são semelhantes, as soluções talvez venham também a sê-lo. O MoMA, em Nova York, vai demolir o prédio vizinho (um plano altamente controverso); o palácio de Versalhes continua a agigantar-se, com mais 2700 m2 de jardins. Quando expandir não é uma opção, como no Louvre, a solução vai passar por repensar os acessos, as bilheteiras, os bengaleiros; a National Gallery ou o Guggenheim de Bilbao vão melhorar os seus restaurantes. E depois, claro, há sempre a hipótese de abrir durante mais tempo – nos EUA é possível visitar os grandes museus em qualquer dia da semana, o ministério da Cultura francês quer obrigar o Louvre e o museu d’Orsay a fazer o mesmo. 

Este último quer “distribuir melhor as pessoas dentro do museu” e acaba de eliminar a sua proibição a fotografias – os mais cínicos comentam tudo serve para acelerar processos já que tirar uma “selfie” em frente a cada quadro demora menos tempo que olhar para ele procurando compreendê-lo…

Não deixa de ser irónico que museus, cuja missão é precisamente a de mostrar as suas colecções difundindo a Cultura pelo camada mais alargada possível da sociedade, se queixem de receber “demasiados” visitantes. Mas há limites físicos que não há forma de ultrapassar. A não ser que mostrar cópias da Mona Lisa espalhadas por diferentes museus do mundo fosse uma solução aceitável para o público…

Libertem o meu telefone


Se o caro leitor tiver a perigosa ideia de entrar no território suíço para, por exemplo, passar um dia a esquiar, não é apenas o selo automóvel para todo o ano que terá de adquirir; é bem provável que também o seu telefone lhe transmita uma simpática mensagem do operador informando-o de que, por exemplo, um MB de dados lhe custará agora 15 euros. O que significa que ver um email de trabalho que contenha um documento .pdf, mais um saltinho ao facebook, pode rapidamente significar uma conta de 100 euros ou mais.

O caso acima é um exemplo extremo, se bem que real, dos efeitos diabólicos da itinerância móvel, vulgo roaming. E foi graças a surpresas chocantes com contas telefónicas após as férias de verão das suas filhas que Viviane Reding, então comissária das telecomunicações, começou a usar a iniciativa legislativa europeia para quebrar o cartel obsceno das telefónicas; primeiro convidando-as a auto-regularem-se (convite completamente ignorado, evidentemente), depois estabelecendo limites a cada ano mais baixos para os preços aceitáveis no roaming.

As gigantes rodas dentadas da política europeia continuaram a mover-se na mesma direcção, e em Outubro de 2013, os Estados-membros reunidos no Conselho aprovaram, com pompa, circunstância e urgência, o mercado único europeu das telecomunicações, para logo em seguida o Parlamento Europeu, antes das eleições de Maio passado, definir uma data para o fim absoluto do roaming: 15 de Dezembro de 2015. Faltam 9 meses.

Mas este bebé está em risco de não nascer, porque os mesmos governos europeus que há pouco mais de ano aprovaram um grandiloquente texto chamado “mercado único das telecomunicações” resolveram mais uma vez mostrar a quem devem verdadeira fidelidade: não aos cidadãos que os elegem, mas sim às grandes corporações que os financiam. E assim, o fim do roaming foi enviado pelo Conselho para as calendas gregas: o único compromisso é agora o de “rever a situação lá pelo ano de 2018”.

Ainda não foi dita a última palavra sobre o caso, porque os deputados europeus (e entre eles, de novo Reding) estão furiosos e vão insistir na sua posição original. Os lucros extraordinários obtidos pelas Vodafones deste mundo baseando-se em fronteiras que já não existem e alegando custos que nunca existiram não são defensáveis. Mas a luta das operadoras não é pelos milhares de euros do roaming; é pelos milhões do status quo, é por evitar a verdadeira concorrência que um mercado único europeu traria, obrigando as empresas a competir num grande relvado nivelado em vez de confortavelmente instaladas dentro dos seus cartelizados quintais nacionais. Exemplo: se eu pudesse escolher a melhor e mais barata operadora europeia sem ser penalizado fortemente ao atravessar uma fronteira, nunca seria cliente das exorbitantes operadoras do Benelux (Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos são os três países mais caros da Europa para se falar ao telefone); compraria o meu cartão SIM na Lituânia ou na Roménia, onde as chamadas são em média 77% mais baratas (e as redes são de melhor qualidade), e usufruiria de um verdadeiro mercado europeu como é tantas vezes propagandeado – mas nunca existe.

Já está teorizado, já há legislação, só falta concretizarem-no: libertem o meu telefone!

Eu, robot


Angela Merkel, a imperatriz da Europa, está em visita oficial ao Japão e um dos primeiros eventos da sua agenda foi o de conhecer “Asimo” – o robot humanóide desenvolvido pela Honda que tem servido de embaixador da tecnologia nipónica. Em Abril passado, por exemplo, o robot jogou um pouco de futebol com um divertido Obama, mas a entrevista com Merkel não correu tão bem: a crispação de parte a parte era evidente, e a chanceler alemã ainda fez menos movimentos que o robot. Este, quando voltou a receber a bola de futebol, chutou-a com força para longe em vez de a passar à representante do país campeão do mundo. No momento das despedidas a tensão tornou-se quase insuportável: Asimo, imóvel, recusou-se a apertar a mão a Merkel, que acabou por ter de se contentar em dar-lhe um toque desajeitado no ombro; mal a senhora virou costas, o andróide desatou a acenar efusivamente, num adeusinho zombeteiro.


Estou maravilhado com a humanidade de Asimo. A pouca consideração política que ele demonstra pela chanceler advém certamente da política económica autista que ela imprimiu, imprime e imprimirá à Europa; uma política que tem como um dos seus efeitos mais perigosos procurar reduzir o Banco Central Europeu a mero polícia da “estabilidade de preços”, procurando conter a inflação e restringir o consumo através da redução de massa monetária em circulação (por exemplo mantendo as taxas de juro mais altas do que elas deveriam estar, e por demasiado tempo assim). O resultado é temível: a Europa está perto de cair na armadilha da deflação. Quedas nos preços dos bens e serviços levam à descida da produção e do investimento, que por sua vez levam à queda nos salários e na procura, fechando o círculo com novas quedas dos preços e assim por diante; enquanto isso, as dívidas – o grande fantasma da economia europeia – tornam-se cada vez mais difíceis de pagar, porque aumentam em termos reais.

Asimo, o robot, sabe do que fala. O Japão ainda não saiu completamente das suas duas “décadas perdidas” depois de ter caído em deflação no início dos anos 90. Nessa altura, foram vários os factores a contribuir para a crise: política monetária restritiva; preços do imobiliário em queda depois de uma bolha; bancos insolventes e pânico em relação à possibilidade de mais bancos estarem insolventes; deflação importada através de matérias-primas e bens de consumo baratos vindos de países com baixos salários, como a China; e uma população a envelhecer devido a taxas de fertilidade historicamente baixas. Sim, tudo isto soa assustadoramente familiar para um europeu. E já caminhamos a passos largos para a nossa primeira década perdida.

Tinha alguma esperança que a visita da chanceler alemã ao Japão servisse para aquela aprender com erros alheios, de forma a não os repetir; algo essencial na actual conjuntura. Mas o discurso de Merkel foi virado para o passado, com a intenção de ensinar ao primeiro-ministro Shinzo Abe a melhor forma de lidar com a efeméride dos 70 anos do final da II Guerra (e da derrota de ambos os países).

Compreende-se que o robot tenha boicotado o aperto de mão; ele está mais preocupado com o presente e o futuro. E diga-se, com razões para isso.

À picareta

O mundo é um lugar pouco recomendável. Frequentá-lo é fazer um verdadeiro percurso dos combatentes, e mesmo o simples facto de estar informado sobre ele requer grandes doses de relativismo e insensibilidade – sem estes seria difícil abrir um jornal a cada dia. Só que nem isso nos salva de ler sobre o Estado Islâmico e pasmar, em choque, enquanto os restos da nossa fé na espécie humana escorrem pelo cano de esgoto abaixo.

A barbárie que se desenrola nas áreas do Médio Oriente controladas pelo Estado Islâmico – grandes partes da Síria e do Iraque, a uma distância de não mais de 600 km de uma fronteira da União Europeia (em Chipre) – é indescritível, mas quotidiana. Jornalistas e turistas ocidentais são decepados e os vídeos difundidos para o mundo no Youtube; as violações de mulheres tornaram-se prática corrente de uma política de humilhação e limpeza étnica; minorias e opositores são discriminados, presos, ou feitos desaparecer. A loucura totalitária não tem freio, tal como nos momentos mais sinistros dos regimes nazis ou estalinistas.

É precisamente a estes regimes que o último vídeo atroz divulgado pelo EI, na quinta-feira, faz um piscar de olhos macabro. Nele vêem-se homens barbudos a usar armas rudimentares, martelos e picaretas, contra estátuas milenares provindas das mais antigas civilizações do planeta; em 1940, foi também com uma pequena picareta que Trotsky foi assassinado por ser o único opositor sério a Estaline, enquanto que poucos anos antes o regime nacional-socialista tinha queimado montanhas de livros e organizado as suas exposições de “arte degenerada” – condenando centenas de artistas e escritores ao suicídio, ao exílio ou à vergonha. E tal como acontece no EI, que contrabandeia a maioria das peças “não islâmicas” para se financiar, também os nazis confiscavam a arte que etiquetavam de degenerada e a vendiam em seguida por bom dinheiro.

A violência das ditaduras só pode sobreviver apagando a memória, destruindo a cultura, o saber e o conhecimento. É nesse contexto que é preciso ver o vídeo do ataque ao museu nacional de Mossul, cidade do norte do Iraque que envolve a bíblica Nínive – capital dos assírios, um povo que dominou a Mesopotâmia nos primórdios da civilização. Niníve foi a maior e mais magnífica cidade do seu tempo de apogeu, durante o século VII a.C., e os seus portões de entrada guardados por enormes touros com cabeça humana esculpidos na pedra estão famosamente reproduzidos no museu Britânico em Londres.

Os originais, esses, depois de quase três milénios a atravessar todo o tipo de guerras, acabam de ser esfarelados às mãos de vândalos armados de um martelo pneumático. As imagens são dolorosas de ver, não apenas por sentirmos que é parte da nossa memória colectiva que desaparece ali para todo o sempre, mas também pela ameaça evidente que estes bárbaros constituem para o nosso futuro se alguma vez se expandirem e prevalecerem. Como advertiu Heinrich Heine, autor alemão do século XIX cujos livros também foram queimados pelos nazis: “Ali onde os livros são queimados também se acabarão por queimar pessoas”.

Caros gregos: signomi

Sexta-feira passada foi dia de duelo ao anoitecer. Schäuble e Varoufakis encontraram-se frente a frente numa rua poeirenta de Bruxelas e os seus olhares impiedosos cruzaram-se num frémito de desprezo. O ministro das Finanças alemão sentado na sua carreira de rodas, e o ministro das Finanças grego dentro do seu blusão de cabedal à motoqueiro, fizeram uma pausa antes de disparar. Algures ouviu-se uma harmónica.

E então, dentro do Conselho Europeu extraordinário, começou o duelo, ou seja a negociação. O novo governo grego entrou nesta com uma corda ao pescoço, pois só tinha financiamento para as suas dívidas até dia 28 de Fevereiro. A sua pretensão era a obtenção de uma linha de crédito que permitisse ao país ir respirando até ao verão, mas sem que esse dinheiro viesse condicionado às irresponsáveis exigências da troika. Não era essa a única reivindicação do pistoleiro Varoufakis, claro; digamos que a Grécia entrou no duelo exigindo 20. E a Alemanh… perdão, a Europa respondia que estava disposta a conceder zero.

No final a Grécia obteve 2; ou seja uma possibilidade de reduzir ligeiramente o excedente orçamental exigido (ainda assim fixado nuns totalmente utópicos 4,5% antes do pagamento de juros da dívida, isto já para 2016); e quatro meses de prolongamento do programa de empréstimos vigiado pela troika. Esta última palavra desaparece, mas trata-se apenas de uma questão semântica – o BCE, a Comissão Europeia e o FMI continuarão a vigiar de perto, assegurando que as medidas de austeridade não abrandem, antes pelo contrário.

Não era esse o mandato do Syriza, reverter as políticas autoderrotistas e virar a agulha para o crescimento? Claro, e nesse aspecto o acordo atingido na sexta-feira constitui para eles (e nós) uma derrota em toda a linha – o que já está a provocar contestação no próprio governo grego, que será obrigado a impor medidas em tudo semelhantes às dos seus antecessores. O primeiro-ministro pode sempre alegar que obter “2” é sempre melhor que obter “0”, e talvez mais importante ainda é o facto de existirem aqui outras vitórias mais intangíveis – a capacidade de um país humilhado se levantar e voltar a discutir olhos nos olhos, ao mais alto nível (e não apenas com burocratas não eleitos), uma solução alternativa que sirva a todos os europeus e não passe simplesmente pela lenta agonia sem fim imposta pela Alemanha.

Essas ideias não passaram. O choque com a realidade revelou-se muito forte, e o senhor Schäuble venceu o primeiro duelo. Para isso ajudou contar com todo um arsenal, mas também com dedicados acólitos (no fundo todos os restantes ministros da zona euro mais o inefável Dijsselbloem) e dois políticos travestidos de abutres: os dois ministros das Finanças ibéricos, com o espanhol a gritar “mata!” e a portuguesa “esfola!”. Apesar destes dois países serem precisamente aqueles que mais teriam a ganhar com uma mudança das políticas que os empobreceram, os seus governos de direita estão tão assustados com um possível sucesso do novo governo grego e do contágio que isso provocaria nos seus países que decidiram borrifar-se para o interesse nacional e aparecer ao mundo como “mais alemães que os próprios alemães”. A sua oposição a qualquer alívio para a Grécia foi encarniçada e a ministra portuguesa até viajou de antemão a Berlim para pedir “pessoalmente” a Schäuble que não “cedesse”.


No meio da cegueira e da estupidez políticas, a ministra acertou: a sua posição é apenas pessoal. Estes governantes cínicos e destrutivos não me representam, nem a Portugal, muito menos à Europa. Por eles vejo-me obrigado a dizer aos gregos: signomi (desculpem).