terça-feira, 5 de abril de 2016

O alfaiate do Panamá


"O alfaiate do Panamá" é um produto bem feito, falemos do livro de John Le Carré ou do filme. No filme, que inclui um Pierce Brosnan a gozar com agentes secretos (ele que era à época o 007 de serviço), Geoffrey Rush interpreta um alfaiate que para melhor esconder os seus segredos tenta passar despercebido - mas cujas ganância e estupidez acabam por quase provocar uma guerra.

O alfaiate é uma metáfora do Panamá, um pequeno país aparentemente inofensivo (como um Luxemburgo da América Central, digamos) onde na verdade se esconde uma impressionante quantidade de dinheiro sujo – não gerado no local, evidentemente. São milhões de milhões que se escondem das administrações tributárias, das polícias, e das populações oprimidas de regimes tão opressivos como altamente lucrativos para os opressores. Escondem-se da decência, da ética e da vergonha.

As revelações deste domingo – os “documentos do Panamá” – são brutais, pela sua crueza, pela sua dimensão, mas sobretudo pelo que significam: uma gangrena. E o organismo gangrenado é todo o nosso modo de organização de sociedade, que (à falta de melhor descrição) englobarei dentro da descrição genérica “sistema capitalista”, cujos alicerces estão putrefactos. São 11 milhões e meio de nomes envolvidos, numa só empresa, num só paraíso fiscal. Uma empresa fundada pelo filho de um foragido da Alemanha nazi que é apenas a quarta maior do mundo neste tipo de negócios escuros; não é difícil imaginar que, quase sem excepções, os nomes conhecidos não mencionados na imensa quantidade de informação agora revelada aparecem nas listas de clientes das três maiores evasoras… ou qualquer uma das outras.

E é aqui que, em todo o seu esplendor, a realidade se nos revela. A narrativa do “não há dinheiro” é uma abjecta mentira, contada precisamente pelos mesmos que escondem esse mesmo dinheiro perto de palmeiras. O dinheiro existe, mas está parado, é improdutivo, serve apenas e só os interesses de 1% da população – mas como sabemos, esses 1% detêm (muito) mais de metade dos recursos do planeta. Estima-se que o total escondido em paraísos fiscais seja equivalente a duas vezes toda a riqueza produzida, por ano, em toda a União Europeia. Pausa para respirar e apreciar a frase anterior. E então percebemos porque nos contam que é preciso cortar nos sistemas de saúde por serem incomportáveis, que não haverá Segurança Social no futuro, que é preciso desmantelar todas as funções do Estado, desde a segurança à educação passando pelas infra-estruturas. Somos nós, o leitor e eu, cidadãos comuns, quem sustenta essas funções básicas, com todos os nossos impostos, taxas e multas, que não param de aumentar. Quem tem um pouco mais de dinheiro, qualquer que seja a sua proveniência, imediatamente se demite das suas responsabilidades perante a sociedade e, em vez de contribuir, esconde; em vez de retribuir à sociedade um pouco do seu sucesso, foge; em vez de ajudar, aproveita-se gratuitamente do que é pago por aqueles com vidas bem mais difíceis. É o velho problema económico do “free rider”, aquele que viaja de graça no avião pago pelos outros, mas agora de forma sistemática – ocupam todos os lugares de classe executiva.

Nunca o poder político quis acabar com esta podridão. Os paraísos fiscais da forma como os conhecemos são uma invenção dos anos 1930, foram e são utilizados por tudo o que é regime ditatorial ou “democrático” desde aí – e, desgraçadamente, sempre mais e mais. O tema tem vindo a tornar-se politicamente ensurdecedor, mas os corruptos políticos a que temos direito continuam a assobiar para o lado o máximo que podem, até que, muito pressionados, lá vomitam umas regras para inglês ver (e inglês contornar), algo que muda para que tudo continue na mesma.

Se há uma esperança que os documentos do Panamá nos permitem é a de uma pequena janela de oportunidade para reformar a situação putrefacta a que chegámos. Ao longo das próximas semanas, à medida que mais nomes serão envolvidos – já não apenas ditadores contrários aos interesses americanos, mas também bancos, farmacêuticas, políticos ocidentais, cabeças coroadas, celebridades aparentemente impolutas – a justa indignação vai obrigar a uma limpeza séria, finalmente. Mas há uma alternativa, claro: que a raiva se esvaia e tudo continue como até aqui. Afinal, como o alfaiate avisa no filme, “ninguém perde a sua reputação no Panamá: deixa-se a secar uns meses e depois volta-se a usar, como se nada se tivesse passado”.

O embaraçoso amigo turco


29 de Maio de 1453 é um dia que viverá para sempre na parte sombria da História cristã e, porque não dizê-lo, europeia. Foi o dia em que Constantinopla caiu, após um cerco de 53 dias, nas mãos do sultão otomano Mehmet (então um jovem de 21 anos). Foi a perda que significou fim o do império Romano, após quase 15 séculos de existência.

Há um novo sultão na Turquia, um país extraordinário em muitos aspectos mas assustador, na ausência de um Estado de Direito, em tantos outros. Erdogan, o todo-poderoso líder do partido (islamista) da Justiça e do Desenvolvimento, resiste no poder há 13 anos à cabeça de um aparelho que se auto-perpetua enquanto reprime e bombardeia parte da sua própria população (curda). O regime turco vai perseguindo e desmantelando os meios de comunicação social que ainda não lhe tecem loas encantadas, como acaba de fazer com o jornal mais lido do país, o Zaman – invadido e saneado, os seus jornalistas despedidos e acusados de assédio sexual, artigos apagados dos arquivos, e o “novo” jornal coberto de gloriosas fotos de Erdogan e de como a Europa se verga perante o estadista.

E o pior é que neste último ponto estão certos. Nós, europeus, não queremos acolher as vagas de refugiados que batem às nossas portas. Nós, europeus, também não sabemos como resolver o problema, não sabemos como estancar essas mesmas vagas, não diremos como a América de outros tempos “Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres, as vossas massas ansiosas por respirar livremente” (o poema na base da estátua da Liberdade, da autoria da luso-americana Emma Lazarus). Decidimos subcontratar o trabalho duro a outrem, e para o fazer vimo-nos de repente a negociar, e ceder, perante o autocrata de um país vigiado e inseguro.

A Europa convenceu a Turquia – através de miraculosas promessas e generosos pagamentos (6 biliões de euros…) – a servir de zona-tampão para filtrar as dezenas de milhar de sírios, iraquianos ou afegãos que todos os meses chegam às margens do Mediterrâneo. Cada refugiado saído da Turquia que conseguir chegar à Grécia de forma “irregular” será reenviado à Turquia, que em troca enviará um refugiado presente no país para a Europa, já de forma “regular”, até um máximo de 72 000 pessoas (a partir daí os europeus só aceitam mais refugiados se quiserem).

O acordo é muito frágil no plano legal (para ser suave). Pressupõe que a Grécia vai processar todos os indivíduos que ali chegarem, o que será tarefa hercúlea; pressupõe também que a Turquia seja considerada “país seguro de reenvio”, algo que manifestamente não é (nem assim é reconhecida por nenhum país da UE, tirando a Grécia, que é obrigada a fazê-lo). Depois, em termos práticos, um acordo que aceita 72 000 sírios, quando há neste momento 2,7 milhões refugiados na Turquia, não lhes oferece uma perspectiva suficientemente animadora. Ou seja, os sírios (e os restantes) continuarão a arriscar a vida pelo mar; e não será necessário esperar muito para que tal se torne evidente.

Mas o pior falhanço deste acordo não é legal, nem sequer prático, mas sim moral. Demitindo-se das suas obrigações e responsabilidades, os líderes europeus estão dispostos a pagar bem, a contornar o direito internacional e, sobretudo, a satisfazer as vontades de um governante insalubre, tudo para evitarem sujar as mãos acolhendo refugiados. A Europa fundou-se sobre valores éticos profundos, de respeito pela igualdade e dignidade humanas, da democracia e do Estado de Direito. Hoje em dia, atemorizada, prefere esconder-se atrás da ilusão de uma empresa de segurança colocada à porta. Uma das coisas que aprendemos na semana passada: não são os refugiados que devemos temer. Eles fogem precisamente de terror como aquele sentido em Bruxelas.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Só não sabíamos o onde e o quando

"Há algo mau que se passa. Vai a Paris. Vai a Bruxelas. Ali estas pessoas querem a lei sharia, querem isto, querem aquilo... Eu visitei Bruxelas há muito tempo, 20 anos, tudo era tão bonito. Agora é um buraco infernal".

Estas palavras foram proferidas em Janeiro por aquilo que há de mais próximo a um político inimputável: Donald Trump. E no entanto... Trump, pelo menos por uma vez (estatisticamente é sempre possível que isso aconteça), tem razão no diagnóstico, mesmo que não nas soluções. Há realmente algo de mau que se passa em Bruxelas, a tal ponto que até um demagogo perigoso como Trump consegue passar por balbuciar profecias em relação à cidade.


Sabemos que há algo de errado quando sabemos, antecipadamente, que a cidade e os seus habitantes vão sofrer um selvático atentado terrorista. Era o caso. Só não sabíamos o onde e o quando, mas sabíamos que iria acontecer. Mais, sabíamos que estava para breve. Quando digo sabíamos, refiro-me a todos nós os que passamos muito tempo neste "buraco infernal"; a detenção de Salah Abdeslam, o nojento operacional dos atentados de Novembro em Paris, tinha ocorrido apenas quatro dias antes e só veio acelerar o horror. Isto mesmo foi dito por vários responsáveis, e peritos em terrorismo, nos dias e horas que mediaram a detenção e as explosões.

Os atentados de ontem não são surpreendentes. Provocam uma dor enorme; provocam raiva, fúria, desejos de vingança, medo, pesar, desespero, luto e até, estranhamente, uma certa atitude de desafio, como o café que insisti em ir tomar ao meu café preferido, como o amigo que ao ler as notícias decidiu ir fazer jogging para o parque, como as pessoas que, aparentemente calmas, continuam a caminhar pelas mesmas ruas onde horas antes mais de 300 concidadãos foram chacinados ou feridos.

Mas não provocam surpresa. Não depois do que aconteceu em Paris, por duas vezes, em 2015. Não depois dos quatro mortos à queima-roupa no museu Judaico, em pleno centro de Bruxelas, em 2014. Não depois dos atentados evitados in extremis em Verviers e dentro de um comboio Thalys que ia de Bruxelas para Paris. Em comum, à primeira vista, todos estes actos abjectos têm algo em comum - foram idealizados em Molenbeek, e executados por islamistas provenientes de Molenbeek. Não é um acaso. Bruxelas sofre duplamente, por um lado com as doenças da Bélgica, por outro com as doenças da Europa.

A Bélgica é um Estado falhado. Eventualmente não ao nível desta classificação quando aplicada à Somália ou ao Sudão do Sul, dado que o país é mais rico e tem, na aparência, as estruturas que mentalmente associamos a um Estado-providência de cariz europeu - e esse é desde logo um dos problemas, o laxismo com dinheiros públicos que criou subsídios de desemprego para a vida e encorajou a réplica de radicais estruturas de clã marroquinas no coração de um Estado laico e liberal. Não é esse o único laxismo: a Bélgica não se reforma, deixa-se ir. Os túneis da cidade estão a desmoronar-se sobre os carros, porque durante 40 anos ninguém se preocupou em dar-lhes manutenção. Foram ficando. As polícias (porque só em Bruxelas há seis diferentes) são completamente ineficazes. Os tribunais são inoperacionais. As prisões estão cheias e não corrigem. Os serviços secretos permitem que indivíduos altamente perigosos, conhecidos de todos e ajudados pelas suas redes de subterfúgios, se passeiem impunes por meses.

Bruxelas é um caso particular, mas é também um símbolo genérico de uma certa Europa, uma Europa que sempre foi ingénua, que não pensou no longo prazo, que tem preguiça de agir pelos seus interesses vitais. Mas que também (ainda) defende muitos valores pelos quais nos tornámos um alvo: a liberdade, a tolerância, a igualdade, a união. Estão todos colocados em causa, mas é precisamente estes que temos de manter, a todo o custo, para que valha a pena sobreviver. Não nos podemos deixar intimidar. Não podemos dar parte de fracos. Nesta guerra aberta contra o islamofascismo, prevaleceremos.

Dinheiro caído do helicóptero

E se na rua um banco desconhecido lhe oferecer dinheiro? Isso não é um impulso, como diria uma antiga publicidade a desodorantes, mas sim uma tentativa ponderada de trazer de volta à vida as nossas estagnadas economias. E há um homem em Frankfurt que, agora que as outras estão a esgotar-se, talvez venha a convencer-se dos benefícios da ideia de distribuir dinheiro pelos cidadãos.

O homem em questão, Mario Draghi, do alto do seu cargo de governador do Banco Central Europeu, tem poder para o fazer. Mas terá mesmo? A Draghi teremos de estar sempre agradecidos por ter salvado, em 2012, o euro da desintegração com apenas três palavras (“whatever it takes”, ou seja, prometendo que o BCE faria o que fosse necessário para defender a moeda). A afirmação resultou porque era credível: os famigerados “mercados” sabiam que se havia uma vontade férrea para que o euro sobrevivesse, isso poderia ser feito. Quatro anos mais tarde, a situação é menos premente, mas mais complexa: o euro não corre perigo imediato, mas a Europa continua no pântano económico de um crescimento anémico e uma inflação quase inexistente (a nova previsão para 2016 é que os preços subam apenas 0,1%...), o que significa que estamos perto de um pesadelo: uma deflação persistente, aumentando os encargos com a dívida e paralisando a actividade económica pela incerteza que provoca quanto ao futuro. Por outras palavras, caminhamos direitinhos para repetir a “década perdida” do Japão, preso nas mesmas condições a partir de 1990 (e ainda não totalmente refeito das mesmas, já quase uma geração depois).

O Banco Central Europeu tem apenas um objectivo no seu mandato: manter uma taxa de inflação “abaixo mas próximo de 2%”. Está a falhar perigosamente, mas nem sequer é por inacção ou desinteresse. Os economistas de Frankfurt têm sido especialmente proactivos, entrando mesmo nas águas desconhecidas da “flexibilização quantitativa” (QE na sigla inglesa), que é basicamente um eufemismo para o acto de imprimir dinheiro novo e injectá-lo na economia através de bancos e compra de títulos. Na semana passada, ultrapassando mesmo todas as previsões mais arriscadas, o senhor Draghi atacou com todas as munições ao seu dispor, anunciando seis medidas diferentes para tentar fazer subir a inflação e aumentar a circulação de dinheiro. Todas estas medidas são históricas, ou seja, nunca tinham acontecido antes, e além da injecção de ainda mais dinheiro, incluem o facto de os bancos comerciais poderem agora pedir dinheiro emprestado ao BCE à taxa de 0%, sem qualquer custo… tudo para os incentivar a conceder mais crédito. O que acontece, no entanto, é que os bancos preferem agarrar-se a todos estes biliões vindos de crédito barato ou injecções estatais (públicas) para sanear as suas contas tóxicas e conceder bónus chorudos a administradores, ao invés de reemprestar o dinheiro à economia real.

Pouco importa. A influência do BCE já não é a mesma, e todas estas medidas (apelidadas carinhosamente de “a bazuca de Draghi”) não serão suficientes para nos tirar da estagnação. As verdadeiras boas notícias é que, ao anunciá-las, e reconhecendo desde logo que está a chegar o fim da linha das opções convencionais, Draghi não fechou a porta a uma ideia que é defendida por cada vez mais académicos e tem verdadeiras hipóteses de resultar: injectar dinheiro na economia, sim, mas distribuí-lo directamente às pessoas, sem passar pelo filtro poluidor dos bancos e instituições financeiras, que procuram que este dinheiro permaneça parado nas mãos de muito poucos.

É possível assegurar que novo dinheiro injectado beneficie cidadãos trabalhadores, consumidores, pensionistas ou desempregados. Três formas de o fazer: empréstimos directos à economia real através do Banco Europeu de Investimentos, a esquecida instituição europeia sediada no Luxemburgo; investimentos em infra-estruturas, cujo efeito multiplicador no crescimento é conhecido desde, pelo menos, 1933; e transferências directas a cada empresa ou agregado familiar de um montante a determinar – aquilo que é conhecido por “dinheiro de helicóptero”. Seria óptimo ter a minha conta bancária reforçada com, digamos, uns 10000 euros, senhor Draghi. Prometo gastá-los todinhos de formas produtivas – e nada de produtos chineses, isto se conseguir encontrar algo que ainda seja feito na Europa.

terça-feira, 8 de março de 2016

#NemUmaMais


Ontem foi Dia Internacional da Mulher. No mundo ocidental, o 8 de Março tem vindo a ganhar progressiva e saudável importância ao longo dos anos (curiosamente, na Europa de Leste a data está muito conotada com os antigos regimes comunistas e como tal é vista com desconfiança por parte da população). O dia serve diferentes propósitos, mas sobretudo permite parar para pensar e avaliar em que ponto estamos nisso da igualdade de género.

E o quadro continua negro.

É inegável que muitos progressos foram feitos, sobretudo nas últimas décadas (também mau seria…). Já não estamos na Antiguidade Clássica de Lisístrata, e muito nos separa das sufragistas que lutaram, por vezes com meios violentos, pelo direito de voto. O papel essencial das mulheres no domínio político e económico também já é (ou vai sendo…) reconhecido mundialmente. Tudo isto são conquistas árduas e meritórias.

Mas depois olhamos para os “factos duros” e somos forçados a perceber que muito está ainda por fazer. As últimas semanas têm sido pródigas em derrotas simbólicas para as mulheres; por exemplo quando alguma multinacional, como a Zara ou a McDonald’s, decide por razões puramente gananciosas criar produtos “neutros em género”, estes são invariavelmente uma capitulação ao gosto predominantemente masculino. Outro caso amplificado pelas redes sociais é a foto agora divulgada de Leonardo DiCaprio, aos dois anos de idade, carregado pelos pais; a “notícia” que se tornou viral não versa sobre o actor enquanto jovem, mas sobre as críticas às axilas não depiladas da sua mãe, como se esta não tivesse o direito de decidir sobre como tratar o próprio corpo (as guedelhas do pai nunca são referidas).

Esta exigência mais alta pode ser injusta, mas nem é nada comparado com o que se passa no mercado de trabalho, onde as mulheres participam, sim, mas continuam – não obstante legislação já antiga que procura assegurar “salário igual por trabalho igual” – a receber menos que os seus colegas homens. Quanto menos? As variações são grandes consoante o sector de actividade e o país, mas grosso modo será cerca de 25% a menos para o mundo todo, 15% se contarmos apenas os países da OCDE, onde alguns fazem fraca figura (Estónia ou Países Baixos, por exemplo) e outros ficam melhor na fotografia (os poucos dados disponíveis para o Luxemburgo apontam para uma diferença de 8,6%). No Reino Unido, novos cálculos afirmam que ser mulher pode significar, no total da carreira, auferir menos 400 000 euros que o seu colega masculino. É o preço de uma casa…

Mas ainda há pior, como o demonstrou um recente crime hediondo. Duas jovens argentinas foram agredidas sexualmente e depois assassinadas enquanto viajavam pelo Equador no final de Fevereiro. O caso comoveu grande parte da América Latina, mas os media relataram o caso, mais uma vez, culpando as vítimas – que “viajavam sozinhas”, por “sítios perigosos”, “brincando com o fogo”. Mas como podiam as turistas, maiores de idade e estando as duas juntas, “viajar sozinhas”? Tal nunca seria escrito sobre dois homens, mas se duas mulheres viajam juntas, parece que falta algo, e que os seus direitos se desvanecem – não têm elas o direito de ser respeitadas, de poder andar no espaço público sem receio, de manter o seu corpo intacto, nem sequer o de voltar a casa vivas?

Aparentemente ainda não. Por isso a missiva escrita por uma estudante paraguaia sobre o caso, e que começa com as palavras “ontem mataram-me”, é tão forte quão difícil de ler sem sentir lágrimas nos olhos. Por isso foram criadas nas redes sociais as campanhas #ViajoSola e #NiUnaMás. Ou seja, nem mais uma mulher duplamente vítima: de crime, e do machismo remanescente.

O Caso Spotlight


Um filme sobre três crises acaba de ser considerado o melhor do ano. O Caso Spotlight venceu, para surpresa generalizada, o Óscar de Melhor Filme, ultrapassando grandes produções – cheias de vedetas e efeitos especiais, muito mais ao gosto de Hollywood – como eram O Renascido ou Mad Max. Mas não é só por isso que a vitória de Spotlight numa competição industrial tão desacreditada como os óscares surpreende: é porque se trata de um filme sério, sóbrio, bem delineado, que não apela para os instintos mais básicos do espectador mas antes lhe desenvolve (e o envolve em) uma óptima história que o vai fazer pensar. Assim chegamos à primeira crise de que trata Spotlight: a do cinema, uma arte tornada produto, e um produto tornado de consumo rápido que deixa nos nossos sentidos um certo sabor a plástico. Mais do que isso, um produto esgotado de ideias, agora que o barril das sequelas de super-heróis já foi raspado até ao fundo. O óscar de Spotlight também acontece porque a indústria do cinema tem a consciência pesada (ainda mais por, no ano passado, não ter outorgado a estatueta ao ponto de viragem conceptual que representava “Boyhood – Momentos de uma vida”) e quer ser vista como também sendo capaz de gostar de filmes para gente grande.

Spotlight é um filme sobre a investigação feita por um jornal americano, o Globe, desvendando o escândalo de abusos sexuais cometidos por padres sobre menores na arquidiocese de Boston, nos EUA. O próprio filme, no final, refere que no total foram acusados em tribunal 169 padres, e referindo “mais de 1000 sobreviventes” na área (muitas das vítimas caíram em dependências várias e não viveram muitos anos). Naturalmente, estas revelações encorajaram muitas outras vítimas a ousarem falar, tendo escândalos similares sido revelados em outros locais do planeta. A crise subsequente, não obstante algum trabalho de reconciliação que tem sido feito, continua hoje a abalar os próprios pilares da Igreja Católica.

Não pretendo escrever sobre cinema, até porque o Raúl Reis já o faz muito bem neste mesmo jornal, que por sinal conta também com cronistas muito mais habilitados em dissertar sobre a acção da Igreja. A crise de Spotlight que me interessa é a terceira: a do jornalismo. A investigação do jornal durou seis meses, durante os quais a célula de jornalismo de investigação (quatro pessoas que podiam passar um ano sem escrever uma linha no jornal, um luxo já na altura, em 2001, e algo utópico nos dias de hoje) sofreu todo o tipo de pressões para abafar a história: desde advogados a outros jornalistas, passando por católicos devotos e antigos colegas de escola. Logo no início, ao ouvir as possíveis implicações do caso, o maior accionista do jornal avisa o repórter: “mais de metade dos nossos leitores são católicos… e eles não vão gostar de ler esta história”. O jornalista responde “acho que lhes vai interessar”.

Como se lida com a descoberta de uma verdade explosiva? Os jornalistas do Globe, entre eles o lusodescendente Mike Rezendes, ganharam o prémio Pulitzer, recompensando o “excepcional serviço público graças a um corajoso trabalho de investigação que furou o secretismo, provocando reacções internacionais e reformas nas instituições”. Triste é que talvez este trabalho não pudesse acontecer hoje, em jornais que baixam a circulação todos os meses, redacções depauperadas por cortes, histórias cada vez mais leves e patetas, e um clima de insegurança no emprego e pressão económica latente que faz dos jornais pouco mais do que caixa de ressonância do(s) poder(es), e das mulheres e homens que neles escrevem pouco livres, logo pouco capazes de exercerem o essencial papel dos media. Descobrir, denunciar, garantir, mostrar, explicar, enquadrar… contam-se pelos dedos os meios de comunicação que ainda o conseguem. Em Portugal, por exemplo, não há nenhum. Quantas conspirações, quantos escândalos acontecem à nossa volta sem que alguma vez o venhamos a saber?

Sabotar por dentro


“Deixe-me explicar-lhe algo, senhor ministro”, diz com ar divertido o funcionário público. “Estamos determinados a fazer tudo o que seja necessário para que a Comunidade Europeia não funcione; tentámos sabotá-la a partir de fora, mas não estava a resultar, por isso entrámos e agora sabotamos a partir de dentro. Dividir para reinar. Porque haveríamos de mudar a nossa política centenária, que tem funcionado às mil maravilhas?”

“Sim, senhor ministro”, como produto inteligente que é, resiste muito bem à passagem do tempo – mais até, a série da BBC continua actualíssima em muitos aspectos, e isto passados mais de 35 anos. O Reino Unido, ou para ser mais preciso, a Inglaterra continuam hoje a ter esta relação de amor-ódio com a Europa, e para ser ainda mais preciso, a relação oscila entre o puro interesse (comercial, financeiro, económico) e o ódio desabrido, porque amor, se existe, é muito pouco perceptível. E é precisamente a falta de amor o drama da situação actual.

Em Junho os eleitores britânicos vão ser chamados a uma tomar uma decisão enorme, um veredicto que, sem qualquer tipo de exagero, vai definir o curso da História. E não apenas dentro do próprio país – o resultado do referendo sobre a permanência na União Europeia vai também moldar o futuro desta, e em parte, do mundo inteiro. A decisão não vai ser discutida no plano da racionalidade. As organizações empresariais vão aconselhar o voto no “sim” (permanência na União) argumentando com os efeitos nefastos que uma saída traria aos números do emprego, do crescimento económico e das exportações. Os grandes partidos políticos tradicionais, desde o Labour aos próprios conservadores passando pelos liberais-democratas, vão de forma mais ou menos sincera apelar ao voto no “sim”, alegando a segurança, a posição geopolítica ou a capacidade de atrair investimento, todas potenciadas pela pertença à UE. Os analistas financeiros, receosos pela incerteza e já avisados pela queda da libra durante estes primeiros dias pós-acordo, vão aconselhar ao voto no “sim”. Os aliados norte-americanos já avisaram que a sua “relação especial” com o Reino Unido seria menos especial com o país isolado da Europa.

São tudo argumentos fortes e sólidos, que provavelmente inclinarão muitas pessoas a votar pela permanência. Mas o resultado final do referendo vai jogar-se num campo muito menos racional: grandes questões complexas, multifacetadas e de tantas implicações futuras que se tornam impossíveis de abarcar pelo mais bem informado dos cidadãos foram repentinamente reduzidas à simplificação máxima. Sim ou não? Branco ou preto? Dentro ou fora? Não há lugar a ponderação nem razoabilidade. O que significa que as emoções viscerais vão desempenhar um papel fortíssimo; o “amor” pela Union Jack, a nostalgia pelo império perdido, a repulsa por um imaginado ataque aos valores tradicionais da “old England” consubstanciado numa suposta fúria normalizadora e burocratizante de “Bruxelas”, e tantas outras questões sentidas pelas entranhas de cada súbdito de Sua Majestade e agitadas regularmente pela imprensa tablóide vão, muitas vezes, levar a melhor sobre previsões económicas feitas por peritos em quem, afinal de contas, o público confia cada vez menos.

Por razões mesquinhas de pura política partidária interna – para ganhar espaço eleitoral dentro de um partido conservador cada vez mais extremista –, David Cameron inventou um facto político que pensava ter sob controlo mas que na verdade pode muito bem terminar com um “não”, enviando repentinamente o país para um limbo económico e político (pois nessa altura a Escócia quererá separar-se do RU), ao mesmo tempo que enterra a UE num círculo vicioso de egoísmos e separatismos. Chama-se a isto brincar com o fogo. Daqui sairemos pelo menos chamuscados, talvez mesmo queimados.

Revolução duas rodas


Yang Liu, uma designer gráfica de origem chinesa que se mudou para a Alemanha quando tinha 13 anos, acaba de publicar “Oriente encontra Ocidente”, um livro de pictogramas comparando, de forma tão elegante quanto observadora, as duas culturas que conhece tão bem. Com a alemã a azul e a chinesa (obviamente) a vermelho, as páginas sucedem-se com contrastes curiosos, como em “Ruas ao domingo” (três almas perdidas no lado azul, uma imensa multidão no lado vermelho) ou “Resolução de problemas”, onde as pegadas germânicas passam por cima do obstáculo e as orientais contornam-no. E depois chegamos a “Transporte em 1970”, onde o país da Volkswagen está representado por um carro, enquanto a China, previsivelmente, está associada a uma bicicleta.

Se o livro ficasse por aqui a análise seria um pouco insossa – e falsa, como uma visita a Pequim ou Xangai, onde é possível passar dias no trânsito sem ver uma única bicicleta, pode comprovar. Mas a imagem que se segue é “Transporte, hoje” onde a China já está representada por um automóvel (é agora o maior mercado mundial para este produto), enquanto o símbolo da Alemanha é… uma bicicleta.

Claro que as Autobahnen continuam congestionadas, claro que a Volkswagen ainda é a segunda maior empresa automóvel do mundo e a BMW e Mercedes mantêm-se altamente lucrativas. E no entanto, ela move-se: a mudança de paradigma está a desenrolar-se perante os nossos olhos, e os europeus têm já uma aguda consciência de que o sacrossanto carro, do alto da sua tonelada e meia de peso e das suas emissões de gases fortemente poluentes, nem sequer chega a ser a forma mais rápida de nos deslocarmos para trajectos curtos dentro das cidades – e é óbvio que também não é a mais barata, a mais prática, a mais saudável ou nem mesmo a mais segura.

Assim vão surgindo sinais encorajadores, e a Alemanha, que nos anos 1930 inventou o conceito da autoestrada moderna, acaba de inaugurar aquela que é talvez a primeira super-ciclovia a ligar duas metrópoles, Essen e Mülheim. Essa verdadeira autoestrada para as duas rodas, com 6 metros de largura, iluminada à noite e com direito a ser limpa quando neva, estende-se agora por 11 km. O plano é mais ambicioso: atravessar toda a bacia do Ruhr, a maior aglomeração urbana da Europa, de Duisburgo no oeste a Hamm no leste passando por Dortmund e Gelsenkirchen. Serão mais de 100 km de exclusiva utilização por ciclistas, servindo uma população de mais de 2 milhões de potenciais interessados e apresentando a vantagem adicional de reutilizar o traçado de antigas linhas de caminho-de-ferro abandonadas. E claro, já antes muitos quilómetros de pistas dedicadas, embora mais antigas e não com este perfil, ligavam muitos pontos da Dinamarca, dos Países Baixos e da Bélgica. Até o Luxemburgo tem alguns bocados para apresentar.

A revolução ciclista tem um potencial tremendo que, se bem aproveitado, pode ajudar-nos a sair de várias das complicações em que nos fomos metendo. Existe um problema grave de saúde pública ligado à vida sedentária para a qual não fomos feitos – e aqui a bicicleta pode ajudar, como também pode ajudar a melhorar a terrível qualidade do ar que respiramos e que nos mata aos poucos. Também reduz a nossa dependência energética do petróleo, ajuda ao nosso próprio equilíbrio financeiro… e tem a possibilidade de reinventar todo o espaço público urbano (que foi construído em função do automóvel e está amiúde decadente), devolvendo-o ao usufruto das pessoas e das comunidades. Ao invés de uma via rápida ou um viaduto que divide e deprime a área em que é construído, uma ciclovia abrilhanta, atrai, faz renascer. Há uma luz ao fundo do túnel da mobilidade urbana, e essa luz aproxima-se a pedais.

TAA - Transportes aéreos alfacinhas


Mesmo não sentindo qualquer tipo de entusiasmo por um governo liderado por António Costa, reconheço algumas melhorias (no relacionamento com os parceiros europeus, por exemplo). Sobretudo, estava convencidíssimo que a queda do governo tão economicamente incompetente liderado por Passos Coelho, Portas e Maria Luís Albuquerque só podia mesmo significar algo de bom.

Enganei-me. A queda do governo anterior também trouxe más notícias. É que logo no dia seguinte a ter sido demitido, Passos Coelho tinha conseguido resolver um sorvedouro de impostos que se arrasta há décadas - os Transportes Aéreos Portugueses. Sim, a venda foi feita à pressa e de forma quase clandestina, a um consórcio estranho de homens de negócios sem liquidez e com ligações perigosas aos partidos então no governo; sim, do valor obtido pela privatização só 10 milhões de euros entraram nos cofres do Estado – um valor menor, que nem chegaria para pagar as perdas da transportadora sofridas por cada uma das enésimas greves de pilotos, mas já aceitável por uma empresa em falência técnica e cujo passivo chega aos 100 euros por cada português em idade activa. A venda livraria por fim os portugueses de um luxo incomportável e pouco eficiente. Mas eis que António Costa acaba de despender mais 31,9 milhões de euros do Estado para recomprar 50% da TAP. Isso dá-lhe direito a um “controlo estratégico” e aos sempre apetecíveis lugares principescamente remunerados no Conselho de Administração; isso sim, a gestão corrente da companhia aérea será privada – no que configura uma nova versão das desastrosas parcerias público-privadas em que, como sempre, o risco (e os prejuízos) ficam para os contribuintes, mas os salários e os eventuais lucros ficam firmemente do lado de um punhado de pessoas.

As perguntas cruciais a colocar são simples: devem, querem e podem os portugueses ter uma companhia estatal de aviação? A resposta é três vezes não: 1. Não devem, porque andar a brincar aos aviões não é uma função do Estado; essas estão reservadas para os bens que pela sua natureza o mercado não saiba ou consiga produzir tão eficientemente, como a educação, a saúde, a defesa… não é claramente o caso do competitivo (e altamente poluente) sector da aviação aérea, melhor servido por privados. 2. Não querem, como demonstrado em várias sondagens a apoiar a privatização ou nos próprios resultados das eleições portuguesas – e tudo isto antes das recentes revelações de abandono de rotas e de todos os aeroportos portugueses que não se chamem Lisboa, factores que obrigam a questionar se uma “transportadora de bandeira” deve servir apenas uma pequena fracção da população que, além disso, já é a mais privilegiada do país. 3. Não podem, porque como está em voga dizer-se, “não há dinheiro”; o país tem uma dívida gigantesca, os recursos públicos são finitos e é muito mais importante que eles sejam canalizados para manter um nível civilizacional decente (o que implica, por exemplo, voltar a ter médicos em hospitais durante a noite) do que para subvencionar companhias historicamente deficitárias e que se distinguem pelo sofrível serviço prestado (a TAP terminou 2015 em 70.º lugar do ranking Skytrax, os “óscares da aviação”, atrás de colossos como a Air Azerbaijão ou a Air Maurícias; os seus níveis de cortesia, pontualidade ou número de malas perdidas são ainda piores).

A solução encontrada é, para quase todos os portugueses, o pior de dois mundos: continuam a garantir com os seus impostos a empresa, mas esta passa a estar liberta do aborrecimento de fingir que presta algum tipo de “serviço público”. Daí a inacreditável decisão de fechar rotas que liguem o Porto à Europa e cujas taxas de ocupação – a preços exorbitantes, convém não esquecer – estão entre as mais altas do mercado. Daí as quotas de mercado vergonhosas detidas pela TAP no aeroporto de Faro (uns míseros 4%), do Porto (19%, menos de metade da Ryanair), de Ponta Delgada (um ano depois da liberalização, passou de líder incontestada para 7% dos passageiros) e mesmo do Funchal, onde a Easyjet a ultrapassará em pouco anos. Tudo isto para justificar que tudo passe e fique em Lisboa, para onde a TAP já leva por ano 3 milhões de passageiros “contrariados”, ou seja, que não querem ir ali mas não têm alternativa, números que vão aumentar com a supressão de rotas no Porto, fortemente utilizadas pela diáspora portuguesa. Assim se manipula a justificação de mais aviões e de até um novo aeroporto em Lisboa, este último desde sempre um forte desejo do PS… mas se os lisboetas querem muito ter uma transportadora local que os leve a passear pelo mundo, onde está escrito que os restantes portugueses têm de lhes pagar o capricho?

Em Roma, sê puritano


Quando, em Julho do ano passado, as potências mundiais (Alemanha, França, Reino Unido e Federica Mogherini pela Europa, mais os EUA, a Rússia e a China) se sentaram à mesa com o Irão para lhe declarar que estavam convencidas que o país não estava a tentar fabricar bombas nucleares, abrindo o caminho para o levantamento das sanções internacionais (estas terminaram formalmente há duas semanas), quase pudemos ouvir o som de milhares de caixas registadoras abrindo, em uníssono, por todo o Ocidente. É que a antiga Pérsia tinha espartilhado o seu potencial económico, mas o seu regresso ao concerto financeiro internacional vai gerar uma cascata de dinheiro. O país está sentado em cima das maiores reservas mundiais de gás natural e a sua produção petrolífera está também entre as maiores do planeta, tendo a capacidade de inundar o mercado global com petróleo barato. Mesmo cálculos cautelosos dos efeitos do final do embargo ao Irão preveem uma bonança tanto interna como externa, apontando para o crescimento do PIB do país logo em 5% este ano. E os seus 80 milhões de habitantes são um novo mercado potencial interessantíssimo para escoar todos aqueles produtos europeus que fabricamos e sem os quais a nossa vida consumista não pareceria possível.

Está explicado porque uma visita de Estado do presidente iraniano Rouhani a Itália e França deixou os serviços protocolares de cabeça à banda com tanta sofreguidão em agradar aos futuros parceiros de negócio. Em Roma, estavam em cima da mesa contratos que poderiam valer à Itália 17 mil milhões de euros, o que é significativo. A tal ponto que algum assessor mais zeloso entrou em pânico com tantas estátuas nuas no percurso do presidente e decidiu escondê-las atrás de biombos, repetindo a idiotice de Volterra, cinco séculos antes.

Volterra era um pintor italiano do século XVI contratado para tapar as partes pudendas dos nus pintados na Capela Sistina – já nesse tempo outro assessor tinha convencido o papa Paulo III que aquelas pinturas “eram mais apropriadas para uns banhos públicos ou uma taverna do que para uma capela papal”. Pelo meio das pernas dos personagens de Michalengelo, Volterra sobrepôs vestimentas coloridas e folhas de figueira, o que lhe granjeou o ridículo ainda em vida e para todo o sempre. A ele, pintor, mas também à hipocrisia anti-humanista da sociedade (Volterra era apenas o executor de uma ordem superior, no Concílio de Trento a Igreja Católica tinha acabado de decretar a proibição da nudez na arte).

Desde 1565 a Europa, e com ela a Humanidade, aprendeu muito, evoluiu muito, cresceu muito. Mas a impressão que temos presentemente é de regressão – e mais do que regressão, é de um verdadeiro desmoronamento de que falamos quando olhamos para os valores que nos definem a serem imolados no altar do deus-dinheiro. O problema é que quando começamos a triturar um dos nossos princípios, a calçada torna-se extremamente escorregadia – e rapidamente fazemos o mesmo com todos os outros. Não admira assim que na Europa dos nossos dias, a tolerância e a compaixão soem a palavras vãs em breve atiradas para o mesmo caixote onde jaz a solidariedade. Agora também já estão a caminho o laicismo, a liberdade, a própria alegria de estar vivo.

“Valeu a pena, para evitar ofender o presidente iraniano, que nos ofendêssemos a nós mesmos?”, questionou o melhor jornal de Itália, “La Repubblica”. Mas a pergunta era retórica. Ao cobrir as estátuas, parte da nossa cultura, da nossa História e do nosso ethos, a Itália cobriu-nos de vergonha. E tudo só para conseguir segurar um cliente.

Davos é uma festa


Chegou mais uma vez aquela altura do ano... em que os líderes deste mundo se reúnem publicamente numa aldeia de montanha suíça, cuidadosamente fechada ao exterior e onde os preços são, durante uma semana, duplamente exorbitantes. A aldeia é Davos, e o grande campo de férias tem o nome de Fórum Económico Mundial. Basicamente, é-se alguém na vida uma vez que se é convidado - e então se o convite for para discursar, ainda melhor. Mesmo que durante as conferências falte muito daquele "factor bem-estar", pois os temas são espinhosos e o mundo anda um lugar perigoso (a organização lembrou que "nunca antes tivemos tantos problemas graves a discutir como nesta edição”), esse bem-estar despreocupado domina ainda assim os eventos sociais assim que o sol se põe. Uma espécie de Congresso de Viena dos nossos tempos – em 1815, os diplomatas e monarcas europeus traçavam fronteiras no mundo durante o dia e dançavam valsas durante a noite.

Davos, um gigantesco seminário de elite combinado com festas sumptuosas bem regadas com álcoois sofisticados, estava nesta edição (a 46.ª) subordinado ao tema “a Quarta Revolução Industrial” – a forma como a internet permanente e ubíqua permite uma transformação profunda na troca e tratamento de dados e na capacidade dos computadores aprenderem e assim substituírem a intervenção humana em muitas áreas, rompendo com uma força e velocidade nunca antes vistas os contextos económico, ecológico, social ou cultural que conhecemos até hoje.

É habitual que Davos siga um tema a cada ano, a diferença esteve no nervosismo latente com que este foi tratado. Porque mesmo num ecossistema tão específico – e altamente especializado – como é o Fórum Económico Mundial, é possível notar a clivagem entre os insiders e os outsiders, ou seja, entre aqueles cujos conhecimentos digitais lhes permitem surfar a onda das mudanças rapidíssimas que se estão a dar na nossa sociedade e... os outros, sendo que entre estes se encontram quase todos os líderes políticos tradicionais que se vêem repentinamente tão ultrapassados pelos acontecimentos, e tão desprovidos de poder, que as suas comunicações soam quase dinossáurias.

Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, é um desses líderes. A sua conferência em Davos foi interessante porque desassombrada, e as suas palavras contêm nas entrelinhas imensos motivos de preocupação para todos aqueles – a esmagadora maioria de entre nós – que não estão preparados, nem sequer alerta, para essa revolução digital que se avizinha (e que já começou). Biden improvisou: "chamam-me Joe Classe Média, mas não como elogio: referem-se à minha falta de sofisticação. Mas a classe média, e a sua estabilidade, são o cimento que une a sociedade, e parece-me que sacrificá-la no altar da tecnologia criará certamente mais perdedores que vencedores". Sente-se aqui um certo odor a desespero antecipado, o que nos deve fazer soar todas as campainhas de alarme.

Que mundo estamos a desenhar para o futuro? Em Davos ouviram-se muitas frases preocupantes, duas delas proferidas pela mesma mulher, Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação Internacional de Sindicatos: "Não há empregos para os trabalhadores num planeta morto", mas também: "O nosso actual modelo económico chama-se desigualdade planeada". De facto, descobrimos na semana passada – e nunca na História tínhamos chegado a este ponto – que apenas 68 indivíduos (0,000001 % da população do planeta) detêm tanto dinheiro como toda a metade mais pobre da Humanidade, quase 4 biliões de pessoas. O medo justificado é que a "quarta revolução industrial" venha piorar este estado de coisas, lançando alguns biliões mais numa pobreza remediada, traduzida como toda a vida trabalhando de sol a sol sem nenhum outro objectivo ou possibilidade que o de produzir riquezas para outrem. Uma sociedade feudal com um punhado de lordes acima de qualquer poder terreno e exércitos de mercenários facilmente substituíveis ou completamente redundantes. Uma sociedade predatória de recursos, incluindo aqui as mentes e os corpos. Um sistema profundamente insustentável a longo prazo. E no entanto, em tantos sentidos, é já assim em que vivemos hoje.

O homem do Renascimento


"Look up here, I'm in Heaven". O homem que nos convida a olhar para cima e vê-lo no paraíso está num quarto sombrio, levitando sobre a cama. Tem um aspecto emaciado, a pele pálida e os olhos tapados por uma ligadura, enquanto sobre esta, no lugar dos olhos, estão dois botões negros. Mais acima, os cabelos em pé, agora prateados, não parecem em perigo. Pouco a pouco, o espectador percebe que aquele personagem é Lázaro, que biblicamente ressuscita quatro dias depois da sua morte; a música que acompanha o vídeo – um jazz negro vocal – tem por título “Lazarus”.

O nome do actor é David Bowie, representando-se a si próprio nas arrepiantes imagens que nos deixou apenas dias antes de morrer. “Lazarus”, o vídeo, foi gravado em apenas um dia de Novembro de 2015 – ou para ser mais preciso, em apenas cinco horas: os tratamentos que Bowie seguia tinham-no fragilizado a tal ponto que qualquer tempo a mais seria desaconselhável. E todos os cuidados com o seu belíssimo cabelo eram poucos, dado que após a quimioterapia existia o risco de qualquer puxadela o fazer cair em tufos.

O cantor sabia há seis meses que o seu cancro no fígado, possivelmente provocado por anos de abuso de drogas e tabaco, era terminal. Sabia, portanto, que não lhe restava muito tempo para completar o seu mais extraordinário projecto: um último trabalho que fosse muito mais do que um (excelente) álbum musical, constituindo um testamento público – e uma despedida macabra. Logo, Bowie acelerou, e aos que com ele trabalharam pediu o mesmo. Ao realizador de “Lazarus” avisou-o de que talvez viesse a ser necessário de um sósia para completar as filmagens; mas no vídeo final é mesmo o artista quem dança em pose, quem escreve febrilmente as suas ideias infinitas e quem canta “agora serei livre” antes de se enfiar dentro de um armário com fortes semelhanças a um caixão. Por um segundo, ainda vislumbramos a mão que lentamente fecha a porta sobre si. Nunca mais veremos Bowie.

“Blackstar”, o álbum aberto ao mundo a 8 de Janeiro (dia de aniversário de Bowie, e dois dias antes da sua morte), é música feita por um artista que contempla a sua própria sepultura. Pressentindo a chegada da morte, Mozart também procurou apressar o seu Requiem, sem sucesso. Beethoven, já surdo e fraco, completou ainda uma Grande Fuga que foi tão mal recebida publicamente que levou o grande compositor a alterar mais uma vez o final da Op. 130, o seu último trabalho. Bach, já no seu leito de morte, cego e a recuperar de um ataque cardíaco, não deixou de ser perfeccionista e ditou correcções a uma pequena peça coral, alterando-lhe também o nome para “Perante o Teu trono agora me apresento”. Uma forma serena e crente de terminar a vida e a carreira, diferente do dramatismo teatral e altamente mediático de David Bowie.

É que com ele desaparece também a possibilidade de um artista cativar toda uma geração, quase atingindo a impossível unanimidade de públicos completamente fragmentados numa miríade de estilos musicais diferentes. A carreira deste jovem de Brixton, em Londres, confunde-se com a própria História da música moderna, que seria bem diferente se o seu talento nunca tivesse sido descoberto. Tantos são – eu incluído, obviamente – os que têm a agradecer-lhe a “banda sonora das suas vidas”…

Bowie, o homem que estava sempre à frente do seu tempo, o “homem que tinha caído na Terra” (título do primeiro filme que protagonizou), era simultaneamente um génio renascentista pois destacava-se em diferentes campos artísticos, na imagem, no teatro, no cinema, na moda, até na pintura. A esta espécie de Da Vinci renascido das cinzas é inevitável prestar uma homenagem sentida no momento em que ele se torna a estrela negra que tinha profetizado, voltando às cinzas. Ashes to Ashes.

Submissão


“Submissão” de Michel Houellebecq é talvez o livro mais controverso de 2015. Numa macabra coincidência, o livro foi publicado em França no mesmo dia dos ataques ao Charlie Hebdo, o que o tornou estranhamente premonitório; ainda no mesmo dia, saiu uma entrevista do autor que afirmava “haver um desprezo total pelas autoridades neste país, e sente-se que tal não pode continuar. Algo terá de mudar. Não sei bem o quê, mas algo”.

Muita coisa mudou naquele dia odioso, e o livro, que é uma ficção política, acertou em cheio no seu nervo. A acção passa-se em 2022, e de forma a impedir a vitória da Frente Nacional de Marine Le Pen nas presidenciais, o Partido Socialista e a UMP aliam-se ao novo Partido da Irmandade Islâmica e ao seu carismático candidato, Mohammed Ben-Abbes, que vence e se torna Presidente de França. A terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade muda para sempre. Ben-Abbes proíbe professores não-muçulmanos, e o outrora “sexo fraco” reencontra o sentido destas palavras: a poligamia é legalizada, as mulheres proibidas de trabalhar, tornadas crentes forçadas e obrigadas a usar roupas “que não aticem o desejo”.

Por vezes a realidade ultrapassa a ficção; outras vezes imita-a. A presidente da Câmara usou quase as mesmas palavras no desastroso rescaldo das agressões sexuais ocorridas em Colónia na noite de passagem para o ano 2016, quando hordas de homens “de aspecto árabe” atacaram, roubaram, humilharam, apalparam e, pelo menos num caso, violaram as mulheres que apenas se queriam divertir e viver a vida numa cidade, país e continente onde, até agora, parecia ser possível fazê-lo. Mas de acordo com Henriette Heker, já não é: primeiro a burgomestre ficou muito perto de culpar as vítimas por terem sido agredidas, e alguns dias depois sugeriu um perfeitamente imbecil “código de conduta” para as mulheres de Colónia: não usar saias; ficar sempre à “distância de mais de um braço” de estranhos; ficar dentro “do seu grupo” (logo, não andar sozinhas); pedir ajuda a estranhos se estiverem ameaçadas. Um código de conduta provavelmente inspirado naquele vigente em áreas controladas pelos taliban ou pelo Daesh. Um código submisso.


A senhora Heker – e não é indiferente que se trate de uma senhora, pois um político homem não poderia ter proferido estas pérolas e manter-se num cargo público – atraiçoou todos os que a elegeram há apenas três meses, após uma campanha em que, pelas suas posições pró-imigração, foi esfaqueada por um homem desequilibrado. As cidadãs europeias não esperam que os seus líderes políticos as culpem por serem assaltadas e lhes cerceiem as liberdades de uma sociedade igualitária que levaram séculos a conquistar (tarefa ainda não terminada). E os europeus não esperam que a máquina do Estado, muito competente a controlar os impostos, a nossa utilização da internet ou o nosso tempo de estacionamento, se demita pura e simplesmente de garantir a ordem pública e a integridade física de quem nele vive, ao mesmo tempo que faz recair a maior parte do ónus da absorção e integração de um gigantesco fluxo de refugiados nos mesmos cidadãos. Construímos as sociedades mais justas e livres do planeta e esperamos que quem nos lidera seja pelo menos capaz de as defender tão bem como nós.

Mas esta é a visão de pormenor. Uma visão de conjunto realça questões políticas mais profundas, das quais a menor não será a inabilidade que a esquerda (sobretudo esta, mas também parte do centro-direita) tem em obter a quadratura do círculo: defender uma sociedade progressista, com igualdade de direitos, deveres e oportunidades, que defende a liberdade de pensamento, de culto ou simplesmente de ser diferente – e ao mesmo tempo, apregoar o direito alienável que as pessoas têm em fugir da guerra e da opressão, sendo acolhidas em locais mais afortunados sem serem vistas como uma praga de gafalhotos. Basta de ingenuidade, é necessário tomar opções difíceis, fazer muito mais junto de todas as partes interessadas, e sim – adoptar regras do jogo mais duras na admissão e controlo de quem quer viver na Europa. As alternativas residem em que, por razões erradas, todo o poder mude para mãos perigosas – de um lado os vários neonazismos, do outro o fundamentalismo islâmico, existe o perigo real de que o nosso futuro seja feito de submissão. Como nos livros premonitórios.

1916


Henry Ford, o homem que com métodos implacáveis ajudou a massificar o automóvel, via-se a si próprio como o protótipo do “Homem Novo” que iria ajudar a Humanidade a cortar com o passado e evoluir desenfreadamente. Nesse contexto, Ford afirmou, peremptório: “a História não passa de uma grande treta”. O industrial americano também famigerado pelo seu anti-semitismo viria mais tarde a tentar desculpar-se por estas palavras. O curioso é que a frase foi proferida exactamente há um século, em 1916 – um ano significativo como poucos, cheio de eventos desastrosos cujas consequências perduram até aos nossos dias.

O mundo tinha enlouquecido. A Grande Guerra tinha começado por disputas orgulhosas entre cabeças coroadas que, embora de impérios diferentes, pertenciam à mesma família (a excepção é o presidente francês Poincaré, talvez o principal instigador do início da catástrofe); os soldados mobilizados naquele outono de 1914 acreditavam jovialmente já poder vir passar aquele Natal a casa. Na verdade, milhões não passaram mais nenhum Natal na Terra, e em 1916 a guerra tinha mudado de natureza. A ideia de que a dinâmica ofensiva e a estratégia no terreno eram suficientes para derrotar defesas entricheiradas e equipadas com armas modernas estava, também ela, a morrer; no seu lugar tinha nascido, dos dois lados da barricada, uma convicção fatalista que a guerra era interminável, inútil e impossível de ser ganha, tendo-se transformado numa máquina trituradora cujo único propósito seria o de devorar carne para canhão.

Duas batalhas contribuíram decisivamente para se chegar a este ponto, batalhas cujos nomes viverão para sempre como sinónimos de infâmia: Verdun e Somme. Ambas se desenrolaram em 1916. Verdun foi, muito simplesmente, a batalha mais longa da História da Humanidade, 10 longos meses de Fevereiro a Dezembro que provocaram a morte de 700 000 franceses e alemães e traumas para a vida em muitos mais, 10 meses em que a aldeia de Fleury mudou de bandeira por 16 vezes, 10 meses após os quais os dois campos ocupavam exactamente as mesmas posições em que começaram. No Somme, a 1 de Julho, os britânicos sofreram o pior dia de sempre do seu exército (57 000 perdas, homens enviados com uma espingarda e um cantil contra uma impressionante barreira de canhões alemães) e a carnificina continuou por meses até tomar 1,5 milhões de vidas, vindas de todo o mundo para lutar pelo seu imperador e conquistar, no total, uns meros 9 km de terreno.


A combinação de lama, canhões, futilidade e mortes em massa fez mover para sempre as placas tectónicas de um mundo que não parou de acelerar desde então. Na frente leste, o império Austro-Húngaro desfazia-se aos poucos dando origem a um novo fenómeno que não parou de criar instabilidade desde então: o nacionalismo. Entretanto, a Alemanha, desejosa de se desfazer do czar russo e livrar-se assim de um inimigo, começa a apoiar um jovem revolucionário a preparar a sua tomada do poder: o seu nome era Lenine, e o mundo não mais será o mesmo.

Sem o saberem, as grandes potências europeias, ou seja a própria Europa enquanto centro do mundo, vivem em 1916 o seu último ano de uma supremacia global que se tinha iniciado com os Descobrimentos. Nesse ano a Irlanda revolta-se pela primeira vez, marcando o início do declínio de um império, o Britânico, onde “o sol nunca se punha”; será uma jovem nação ambiciosa, os Estados Unidos, a desequilibrar a balança da guerra e tomar o seu lugar, tornando-se o polícia do mundo. Mas a Europa não sairá de cena sem o seu canto do cisne: um diplomata britânico e um francês, o sr. Sykes e o sr. Picot, assinam um tratado que divide abruptamente o Médio Oriente em zonas de influência dos seus países. A divisão é feita em linhas rectas, sem olhar a povos, culturas ou religiões, criando um barril de pólvora permanente. Hoje, 100 anos depois, o Estado Islâmico desenvolve-se precisamente numa dessas fronteiras artificiais, entre a Síria francófona e o Iraque anglófono.

De 1916 a 2016, em linha recta.

O Cálice de Fogo


Em “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, a escritora inglesa Jo Rowling desenvolve o sistema de personagens da sua série de ficção adolescente criada e largamente inspirada em elementos da cidade do Porto (onde Rowling vivia, teve uma filha e escreveu grande parte do primeiro volume da série, quando era ainda uma professora anónima e infeliz).


No livro, o fogo do título refere-se a um elemento místico, misterioso, insondável. Mas na vida real é frequente que o fogo nos recorde que ainda não está domado, demonstrando o seu lado implacável e voraz. Assim aconteceu há uma semana em São Paulo, quando um rápido incêndio destruiu o Museu da Língua Portuguesa. Um museu que, talvez mesmo sem o saber, todos nós partilhávamos. Um lugar de celebração deste nosso bem tão precioso, mas também de comunhão entre todos aqueles que temos a sorte de a falar, e de reverência para os mais dignos vultos que a elevaram aos píncaros, a ela, língua portuguesa, a quem Pessoa - objecto de uma magnífica retrospectiva no museu, ainda em 2010 - chamava poética e (também) amargamente "a minha pátria".

São Paulo, a maior cidade no mundo a falar português (com perto de 20 milhões de habitantes na sua área metropolitana, é também a mais populosa do continente americano e de todo o hemisfério sul), não é virgem nestes desastres culturais provocados pelo fogo – três outros locais importantes sofreram incêndios nos últimos anos, expondo falhas profundas ao nível da vigilância e do combate às chamas. Mas ver desaparecer o Museu da Língua Portuguesa é uma espinha cravada mais fundo, e desde logo pela beleza do edifício: construído no início do século XX, a imponente Estação da Luz tinha como missão centralizar os comboios da grande cidade – e o museu simbolizava a sua recuperação depois de meio século de decadência, iniciada por outro incêndio em 1946…

Este museu era diferente. As suas colecções eram interactivas, evolutivas, brincalhonas; ao invés de adoptar o tom sério e professoral com que tantas vezes, e sobretudo pelos portugueses, se ensina e se “vende” o português, o MLP celebrava a diversidade das diferentes versões, sotaques e utilizações da língua, procurando chamar a atenção para aspectos menos conhecidos da sua origem bem como da actualidade. Nunca se tinha feito um museu assim, voltado para a língua. Os brasileiros médios encontravam ali um enquadramento orgulhoso para este património que, mal ou bem, são os únicos a defender por esse mundo fora, quase sem ajuda dos portugueses; os portugueses saíam do museu com uma inconfundível sensação mista de orgulho e inveja, esta última por não terem sabido criar um espaço minimamente comparável; e mesmo quem não fala português ficava entretido com a sua sonoridade extraordinária e o seu lado lúdico passível de ser ali explorado, sem escusada reverência. Isso traduzia-se em ter Camões a partilhar a “praça da língua” com Chico Buarque, ou ver a cronologia de uma língua que parte de elementos do latim e do etrusco antigo até ser moldada pelas rimas de um rapper paulista, por exemplo.

Curiosamente, na saga de Harry Potter (bem traduzida para português, felizmente), ao livro sobre um “cálice de fogo” seguiu-se um livro sobre “a Ordem da Fénix”. E é exactamente uma fénix aquilo em que o museu se pode tornar, renascido das cinzas e tornado ainda mais forte. Devido à natureza interactiva e contemporânea do museu, todo o seu acervo estava já digitalizado e pode ser recuperado – ou seja, existe o proverbial backup. As perdas são sobretudo arquitectónicas, mas mesmo aí os poderes públicos brasileiros já garantiram a reconstrução do edifício (e o novo governo português, pela voz do ministro da Cultura, já prometeu apoio “no que puder”). A língua portuguesa merece-o, e nós, os seus utilizadores, os seus amantes, também; afinal, estamos cansados dos maus tratos que quotidianamente lhe são infligidos. Até pelo fogo!

O império contra-ataca


Talvez não haja nenhum anúncio televisivo mais inadvertidamente irónico que o da Volkswagen em 2011. A empresa alemã pagou então uma enorme soma de dinheiro pelos direitos de utilização das personagens de “Guerra das Estrelas”, e nomeadamente de Darth Vader. Na publicidade, uma criança disfarçada com a máscara do sinistro personagem descobre “a Força” que emana do (então) novo modelo Passat diesel, cuja grelha frontal tem oh-tantas-semelhanças visuais com o vilão mais conhecido da História do cinema.

Mas, como diria a canção, “que força é essa, que força é essa?” É uma força fraudulenta, conseguida à custa de emissões para o ar que respiramos de partículas altamente nocivas – e daí a suprema ironia de usar Darth Vader, um personagem com notórias dificuldades respiratórias - em concentrações que chegam a ser 40 vezes superiores ao anunciado, e o anunciado já seria muito mau... As partículas nem sequer constituem todo o problema, dado que os números oficiais de consumo e de emissões de dióxido de carbono nos motores a diesel também estão longe da negra fuligem da realidade; mas enquanto estes números só nos afectam indirectamente, as partículas de NOx matam-nos aos poucos e muito directamente.

O escândalo Volkswagen revelou tantos podres que ameaçou, por momentos, pôr em risco a própria sobrevivência da empresa; também questionou a racionalidade de aplicar tecnologia tão poluente em pequenos carros de passageiros. Mas os interesses em jogo são de tal ordem, a quantidade de dinheiro que poderia deixar de fluir é de tal forma infinita, que, tal como no melhor filme da saga operática-espacial, também aqui O Império Contra-Ataca. Terminou o período (de meses) em que a reacção da Volkswagen, apanhada em flagrante, foi impreparada, tonta e cómica, cheia de contradições, mentiras e desculpas balbuciadas. Na última semana, o grupo alemão explicou-se numa mega-conferência de imprensa onde a ideia-chave foi minimizar sistematicamente os problemas, atirando-os ao mesmo tempo para as costas de “alguns indivíduos e unidades isoladas dentro da empresa”. Em seguida vieram as tentativas insistentes de virar as nossas cabeças (e pulmões) de consumidores do presente, apontando-os para um futuro mirífico. Um futuro em que os motores diesel começam a ser reparados na Europa (mas não nos Estados Unidos, cujos padrões ambientais mais exigentes são difíceis de atingir sem batota). Um futuro em que a cultura da empresa vai supostamente melhorar, tolerando o erro, gastando menos tempo em viagens e reuniões e mais em efectivamente projectar e construir melhores carros.

Essas são as palavras musicais proferidas para o público. Em privado, dois dias depois, o império automóvel alemão contratou um aliado poderoso: Kenneth Feinberg, um super-advogado que se especializou em processos envolvendo compensações em massa. Foi Feinberg que lidou com os milhares de processos por compensações devidas depois dos atentados de 11 de Setembro, do derrame da plataforma BP no Golfo do México, e da ignição de carros General Motors cujo funcionamento defeituoso acaba de custar 550 milhões de euros à empresa - mas não sem antes provocar 124 mortos e 275 feridos em acidentes arrepiantes. O facto de a Volkswagen, para se tentar proteger, ter de recorrer ao homem com experiência em gerir ataques terroristas e desastres ambientais diz bem sobre a dimensão da catástrofe.

O escândalo é de tal magnitude que até os amordaçados poderes políticos europeus sentiram a necessidade de investigar. O Parlamento Europeu acaba de constituir (mesmo com os votos contra de toda a direita, sempre encarniçada na sua defesa das grandes multinacionais quando estas se opõem aos cidadãos) uma comissão de inquérito sobre o “dieselgate” - durante um ano, os eurodeputados vão ter poderes alargados para descobrir quem enganou os cidadãos, até que ponto, e com que cúmplices governamentais. O relatório final pode vir a ter consequências explosivas - e 2015 pode ficar na História como o ano em que o diesel começou a desaparecer. Esperemos que sim, até porque as máscaras de Darth Vader são caras.

De vitória em vitória até à derrota final


Paris. Vértice da civilização ocidental, construção real como imaginária de diferentes vontades, sonhos e realizações. E como cidade global, Paris apresentou-se como anfitriã da “cimeira da última oportunidade”: ou os líderes mundiais chegavam a um acordo para limitar as emissões de gases e salvar a Terra do futuro, ou seria demasiado tarde.

A dramatização ajudou a negociação, claro. Sem esse sentimento de ter os olhos ansiosos e reprovadores da população postos sobre si, os líderes políticos estariam muito menos preocupados em conseguir algum tipo de acordo. Mas essa mesma dramatização ajudou à criação de uma narrativa política autocongratulatória, onde o problema é vendido como titânico e as possibilidades de conseguir algo de positivo consideradas como muito baixas, para que no final qualquer acordo seja apresentado como um enorme alívio e uma retumbante vitória – e os seus obreiros políticos, claro, vistos como autênticos heróis.

O guião foi seguido à risca, os líderes mundiais foram pressurosos a anunciar uma “vitória histórica” logo no sábado à noite, e a imprensa mundial alinhada serviu-lhes mais uma vez de caixa de ressonância com títulos feitos a metro. “Acordo ambicioso”, “186 países signatários”, “Aumento da temperatura contido a +1,5 ºC”. Foi um fim de semana recompensador em termos de notícias mundiais, se também contarmos as eleições na Arábia Saudita (onde mulheres puderam ser eleitas pela primeira vez) e as regionais em França (onde uma mulher, líder da Frente Nacional, ficou de mãos vazias).

Pouco a pouco, no entanto, a realidade teimou em vir à tona. Uma pouco noticiada mas enorme manifestação de 15000 desfilou em Paris para protestar contra o acordo, o que não faria sentido se este fosse a panaceia anunciada. E o cientista James Hansen, uma voz respeitadíssima que é amiúde considerado o “pai” das ciências climáticas após ter divulgado o efeito de estufa provocado por alguns gases ainda em 1988, não teve meias palavras ao classificar o que se passou em Paris como uma “fraude” e uma “falsidade”.

Apontar para um objectivo de “apenas” 1,5 ºC graus de aumento de temperatura global é uma espécie de resolução de Ano Novo: uma intenção louvável que não passará disso se a determinação falhar e os meios não existirem. Hansen avisa que isto não passa de uma promessa vazia, “só palavras, nada de acção”. Os combustíveis fósseis podem ter visto em Paris o início do seu declínio, mas continuarão a ser os mais baratos, pois continuam livres de taxação ecológica – uma conquista das petrolíferas em Paris. E as emissões provindas de transportes, a indústria mais poluente do planeta, nem sequer são consideradas no acordo – mais uma conquista de lobbyistas poderosos em relação ao texto final. Texto esse que não inclui na sua parte obrigatória as contribuições de cada país – ou seja, a parte das medidas concretas cabe às melhores decisões de cada um, e isso é uma história que raramente tem um final feliz. Actualmente, as propostas actuais de cada país já significam um aumento a longo prazo de de 3,7 ºC.

A diferença parece subtil mas na realidade é catastrófica. A esse nível, metade das ilhas do Pacífico desaparecem, e metrópoles costeiras como Barcelona, Nova York ou Shanghai ficam ameaçadas devido à subida do nível dos oceanos. Além disso a água potável do mundo reduz-se em um terço, e as colheitas em 25%, tornando a vida no planeta insustentável para grande parte da Humanidade. Paris, “uma grande vitória”, como outros acordos antes assim foram anunciados. E assim vamos de vitória em vitória, até à grande derrota final.

Acabem com a Segunda Emenda


Mais uma semana, mais um ataque selvagem. Uma festa entre colegas de trabalho na Califórnia é devastada por um casal de cobardes de forma particularmente atroz. O homem, que todos os dias trabalhava com aqueles que assassinou, ouve um comentário trocista sobre a sua barba e sai furioso em direcção a casa; passados não mais de 20 minutos volta, vestido com roupas militares de fancaria e acompanhado da sua esposa, e vinga a sua “humilhação” disparando 90 balas que matam 14 pessoas (ironicamente 6 delas eram homens com barba) e deixam 21 em estado grave.

É tristemente óbvio que a matança não foi originada por algum tipo de ofensa pessoal. O casal tinha alugado um jipe há quatro dias e alimentava um verdadeiro arsenal pronto a utilizar; a esposa, que já tinha sido uma “mulher moderna” quando vivia no Paquistão, frequentava agora nos Estados Unidos uma seita que levava mulheres a “descobrir o islão”, mas na realidade levando-as aos limites do radicalismo. O marido, reservado, taciturno, era um muçulmano devoto que demonstrava uma predilecção obsessiva por armas de fogo. Mas mais uma vez os comportamentos suspeitos passaram despercebidos a todos os sofisticados esquemas de vigilância que nos vigiam a todos, cidadãos comuns de democracias supostamente livres.



O problema é que nos Estados Unidos, matar pessoas com uma arma semi-automática já quase nem é notícia, antes um dano colateral de uma sociedade que fez escolhas ideológicas igualmente extremistas. O rescaldo deste último massacre trouxe-nos um dado absolutamente estarrecedor: nos últimos 1066 dias, aconteceram nos EUA 1052 tiroteios em massa.

Tirando os feriados, dá uma média superior a um atentado por dia.

Um tiroteio em massa é definido por um incidente em que pelo menos quatro pessoas, entre mortos e feridos, são atingidas por balas. E nos últimos três anos aconteceu um… por dia. Em um país apenas. Com um total macabro de 1347 mortos e 3817 feridos (graves, necessariamente, que apanhar com uma bala não deve ser agradável). A isto há que somar as outras vítimas em incidentes mais isolados – as armas de fogo matam ali 13000 pessoas por ano, 300 vezes mais do que em Portugal ou em França, por exemplo.

Isto acontece, claro, porque a cultura estado-unidense glorifica a violência. Desde tenra idade, uma criança é ali exposta a milhões de assassínios televisivos antes de atingir a idade adulta; uma percentagem enorme da população pratica o tiro por desporto; há 270 milhões de armas a circular pelo país – uma média de quase uma por habitante… E claro, existe a Segunda Emenda, um aditamento à Constituição que garante a cada americano o direito a possuir armas, escrito há mais de dois séculos para permitir aos colonos defenderem-se do exército britânico numa altura em que a ex-colónia americana não tinha exército e as espingardas disparavam uma bala a cada 20 segundos. Há dias, o casal de terroristas tinha consigo 1400 balas prontas a disparar em pouco mais do que esses 20 segundos.

Por tudo isto o venerável New York Times escreveu, pela primeira vez em um século, um editorial de primeira página: “Acabem com a epidemia de armas na América”. Nele verbera, finalmente, os que votam em líderes políticos que demonstram publicamente muito pesar e encomendam orações fervorosas, mas que em seguida protegem, contra a segurança dos seus concidadãos, os privilégios e os lucros da indústria de armamento – lucros de que, obviamente, os mesmos políticos também partilham. Nada vai melhorar por ali.

Good COP/bad COP


Qualquer pessoa que veja filmes americanos o sabe: a estratégia para fazer falar um suspeito é metê-lo numa sala com dois polícias, o mau e o bom (“good cop/bad cop”); o mau ameaça o bandido com décadas de cadeia, o bom tenta ganhar a confiança do meliante, diz que está ali para o ajudar se ele colaborar, acalma o parceiro… no caso seguinte, os polícias trocam de papel.

Esta é um pouco a metáfora da Conferência sobre o Clima que começou esta semana em Paris – a COP (Conferência das Partes). O mundo político reúne-se em mais uma tentativa para limitar as alterações climáticas. E os líderes dos maiores países, os que contribuem de forma mais significativa para aumentar as emissões de gases poluentes, expressam-se em coro alinhado. “Sim, as alterações climáticas são um grande desafio que se nos coloca. Sim, apenas uma acção decisiva e concertada de todo o planeta será capaz de responder adequadamente. De Paris terá de sair um acordo firme e ambicioso que consiga controlar as emissões globais. E sim, claro, o país que eu lidero está na linha da frente, a fazer um enorme esforço!”

Mas as belas palavras são contrabalançadas por um discurso mais assustador – e mais inconvenientemente realista. Os presidentes do Quiribati e das Maldivas, por exemplo, apelaram a que se faça algum combate de concreto, mas sublinharam que para eles já é tarde: as suas populações já fizeram as malas e estão preparadas para abandonar as ilhas, em breve submersas. E os países em desenvolvimento, hoje em dia já responsáveis por 65% das emissões globais, continuam a insistir que as “responsabilidades históricas” dos países mais ricos devem fazer cair o grosso dos esforços de redução para o nosso lado, enquanto a China e a Índia abrem a cada ano dezenas de centrais de queima de carvão – essa divisão entre países mais ricos e aqueles em vias de o ser foi afinal o que provocou o falhanço de todas as outras cimeiras até agora, desde a do Rio de Janeiro em 1992 até Lima em 2014. As probabilidades de novo estrondoso fracasso em Paris são enormes.

É irónico. O que está em cima da mesa é simplesmente a manutenção do planeta Terra de forma a que a espécie humana nele possa sobreviver – dir-se-ia que o tema merece alguma da nossa atenção. Alguns factos que resumem a dimensão do problema: 13 dos 14 anos mais quentes de sempre aconteceram neste século, e 2015 será o mais quente de toda a História; isto acontece porque a concentração de CO2 na atmosfera é a maior dos últimos 800 000 anos, e está sempre a aumentar. Além da subida da temperatura, há mais fenómenos climáticos extremos e uma subida rápida do nível dos oceanos devido ao derretimento dos gelos polares – nos últimos 35 anos perdemos ali o equivalente à área de toda a Europa Ocidental. O custo da inacção passada é tremendo, já só podemos limitar os danos. Mesmo adoptando todas as medidas propostas em Paris, no ano 2100 a temperatura do planeta será ainda assim de +2,7 ºC em relação aos níveis pré-industriais; o custo de não fazer nada será, por outro lado, um aumento de 4,5 ºC que tornará a vida neste planeta inviável para a maior parte dos seres vivos, privados de água e comida.

As perspectivas de longo prazo não são nada boas. E foi o líder das Nações Unidas, Ban Ki-moon, a colocar a cereja no topo do bolo lembrando que as alterações climáticas também alimentam as ameaças de curto prazo: foram as secas extremas de 2006 na Síria a impelir vagas enormes de refugiados climáticos para as grandes cidades, cidades onde não encontraram empregos, perspectivas nem paz – facilitando assim o trabalho dos cantos de sereia do Daesh para o recrutamento de fanáticos capazes de levar a cabo atentados na mesma Paris onde, por dez dias, o mundo se encontra em busca de alguma redenção. É o fechar do macabro círculo.