Mesmo não sentindo
qualquer tipo de entusiasmo por um governo liderado por António Costa,
reconheço algumas melhorias (no relacionamento com os parceiros europeus, por
exemplo). Sobretudo, estava convencidíssimo que a queda do governo tão
economicamente incompetente liderado por Passos Coelho, Portas e Maria Luís
Albuquerque só podia mesmo significar algo de bom.
Enganei-me. A queda
do governo anterior também trouxe más notícias. É que logo no dia seguinte a
ter sido demitido, Passos Coelho tinha conseguido resolver um sorvedouro de
impostos que se arrasta há décadas - os Transportes Aéreos Portugueses. Sim, a
venda foi feita à pressa e de forma quase clandestina, a um consórcio estranho
de homens de negócios sem liquidez e com ligações perigosas aos partidos então no
governo; sim, do valor obtido pela privatização só 10 milhões de euros entraram
nos cofres do Estado – um valor menor, que nem chegaria para pagar as perdas da
transportadora sofridas por cada uma das enésimas greves de pilotos, mas já
aceitável por uma empresa em falência técnica e cujo passivo chega aos 100
euros por cada português em idade activa. A venda livraria por fim os
portugueses de um luxo incomportável e pouco eficiente. Mas eis que António
Costa acaba de despender mais 31,9 milhões de euros do Estado para recomprar
50% da TAP. Isso dá-lhe direito a um “controlo estratégico” e aos sempre
apetecíveis lugares principescamente remunerados no Conselho de Administração;
isso sim, a gestão corrente da companhia aérea será privada – no que configura uma
nova versão das desastrosas parcerias público-privadas em que, como sempre, o
risco (e os prejuízos) ficam para os contribuintes, mas os salários e os
eventuais lucros ficam firmemente do lado de um punhado de pessoas.
As perguntas
cruciais a colocar são simples: devem, querem e podem os portugueses ter uma
companhia estatal de aviação? A resposta é três vezes não: 1. Não devem, porque
andar a brincar aos aviões não é uma função do Estado; essas estão reservadas
para os bens que pela sua natureza o mercado não saiba ou consiga produzir tão
eficientemente, como a educação, a saúde, a defesa… não é claramente o caso do
competitivo (e altamente poluente) sector da aviação aérea, melhor servido por
privados. 2. Não querem, como demonstrado em várias sondagens a apoiar a
privatização ou nos próprios resultados das eleições portuguesas – e tudo isto
antes das recentes revelações de abandono de rotas e de todos os aeroportos
portugueses que não se chamem Lisboa, factores que obrigam a questionar se uma
“transportadora de bandeira” deve servir apenas uma pequena fracção da
população que, além disso, já é a mais privilegiada do país. 3. Não podem,
porque como está em voga dizer-se, “não há dinheiro”; o país tem uma dívida
gigantesca, os recursos públicos são finitos e é muito mais importante que eles
sejam canalizados para manter um nível civilizacional decente (o que implica,
por exemplo, voltar a ter médicos em hospitais durante a noite) do que para
subvencionar companhias historicamente deficitárias e que se distinguem pelo
sofrível serviço prestado (a TAP terminou 2015 em 70.º lugar do ranking
Skytrax, os “óscares da aviação”, atrás de colossos como a Air Azerbaijão ou a
Air Maurícias; os seus níveis de cortesia, pontualidade ou número de malas
perdidas são ainda piores).

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