Um filme sobre três
crises acaba de ser considerado o melhor do ano. O Caso Spotlight venceu, para
surpresa generalizada, o Óscar de Melhor Filme, ultrapassando grandes produções
– cheias de vedetas e efeitos especiais, muito mais ao gosto de Hollywood –
como eram O Renascido ou Mad Max. Mas não é só por isso que a vitória de
Spotlight numa competição industrial tão desacreditada como os óscares
surpreende: é porque se trata de um filme sério, sóbrio, bem delineado, que não
apela para os instintos mais básicos do espectador mas antes lhe desenvolve (e
o envolve em) uma óptima história que o vai fazer pensar. Assim chegamos à
primeira crise de que trata Spotlight: a do cinema, uma arte tornada produto, e
um produto tornado de consumo rápido que deixa nos nossos sentidos um certo
sabor a plástico. Mais do que isso, um produto esgotado de ideias, agora que o
barril das sequelas de super-heróis já foi raspado até ao fundo. O óscar de
Spotlight também acontece porque a indústria do cinema tem a consciência pesada
(ainda mais por, no ano passado, não ter outorgado a estatueta ao ponto de
viragem conceptual que representava “Boyhood – Momentos de uma vida”) e quer
ser vista como também sendo capaz de gostar de filmes para gente grande.

Não pretendo
escrever sobre cinema, até porque o Raúl Reis já o faz muito bem neste mesmo
jornal, que por sinal conta também com cronistas muito mais habilitados em
dissertar sobre a acção da Igreja. A crise de Spotlight que me interessa é a
terceira: a do jornalismo. A investigação do jornal durou seis meses, durante
os quais a célula de jornalismo de investigação (quatro pessoas que podiam
passar um ano sem escrever uma linha no jornal, um luxo já na altura, em 2001,
e algo utópico nos dias de hoje) sofreu todo o tipo de pressões para abafar a
história: desde advogados a outros jornalistas, passando por católicos devotos
e antigos colegas de escola. Logo no início, ao ouvir as possíveis implicações
do caso, o maior accionista do jornal avisa o repórter: “mais de metade dos
nossos leitores são católicos… e eles não vão gostar de ler esta história”. O
jornalista responde “acho que lhes vai interessar”.
Como se lida com a
descoberta de uma verdade explosiva? Os jornalistas do Globe, entre eles o
lusodescendente Mike Rezendes, ganharam o prémio Pulitzer, recompensando o
“excepcional serviço público graças a um corajoso trabalho de investigação que
furou o secretismo, provocando reacções internacionais e reformas nas
instituições”. Triste é que talvez este trabalho não pudesse acontecer hoje, em
jornais que baixam a circulação todos os meses, redacções depauperadas por
cortes, histórias cada vez mais leves e patetas, e um clima de insegurança no
emprego e pressão económica latente que faz dos jornais pouco mais do que caixa
de ressonância do(s) poder(es), e das mulheres e homens que neles escrevem
pouco livres, logo pouco capazes de exercerem o essencial papel dos media.
Descobrir, denunciar, garantir, mostrar, explicar, enquadrar… contam-se pelos
dedos os meios de comunicação que ainda o conseguem. Em Portugal, por exemplo,
não há nenhum. Quantas conspirações, quantos escândalos acontecem à nossa volta
sem que alguma vez o venhamos a saber?
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