“Better the devil you know”, diz a sabedoria dos
anglo-saxões. Referem-se à preferência por lidar com alguém ou algo que já
conhecemos – mesmo não sendo ideal, mesmo que nos dê muitos problemas – em vez
nos lançarmos para o risco do novo e desconhecido.
A frase explica muito do que se passou nas eleições
legislativas portuguesas. O governo 2011-2015 da coligação PSD/CDS foi
diabólico: quatro anos de desinvestimento em todas as áreas de intervenção do
Estado, desde a Educação à Ciência, desde a Saúde à Cultura passando pela
Justiça; de cortes nos salários, nas pensões e nos complementos sociais; de
aumentos de impostos directos e indirectos; de recessão ou de muito fraco
crescimento económico; e de uma deterioração dos indicadores fundamentais do
país, a começar pela dívida externa, mas também o desemprego e a balança de
transacções correntes. Nem o défice público, que continua acima dos 7% devido
ao resgate do BES, se salva. Sem oportunidades e em desespero, pelo menos
300 000 portugueses – na sua maioria jovens – abandonaram o país em busca
de melhor vida.
Não há registo nas democracias ocidentais de um governo
que tenha conseguido ser reeleito após um quadro tão cinzento, mas é aqui que
entram pinceladas de outras cores. É inegável que a situação herdada do governo
Sócrates era desastrosa, com o país estrangulado pelas condições da ajuda
externa; não é menos evidente que a conjuntura europeia, com os elos mais
fracos do euro sob ataque especulativo, era tudo menos fácil. No entanto, essas
atenuantes seriam em princípio engolidas por um dos dois factores que decidem
eleições: a raiva dos cidadãos descontentes.
Essa raiva existiu, e a coligação governativa perdeu mais
de 400 mil votos em relação a 2011, além da maioria no parlamento. Mas uma
penalização consequente requer uma alternativa que a incorpore, e essa
alternativa não existia para os eleitores. Não poderia ser a de um PS errático
e dividido; não poderia ser a de partidos irrealistas na extrema-esquerda. O
circuito de raciocínio do eleitor flutuante médio era, muitas vezes, uma
sucessão de vontades negativas: não votar “neste governo” -> não votar PS,
um partido incapaz de transmitir confiança suficiente -> não votar CDU nem
BE, formações radicalizadas que defendem a saída do euro -> não votar em
pequenos partidos, nem em branco, dado que quase nunca esses votos são tidos em
conta pelo sistema. Não sobrava nenhuma opção realmente válida.
Alguns votantes acabavam por parar nalgum ponto deste
carrossel, e votar sem convicção em alguma das opções, amiúde por exclusão de
partes. Muitos outros preferiram abster-se – e com tantos novos portugueses
espalhados pelo mundo e não inscritos num consulado, por vezes nem era possível
fazer outra coisa.

governamental fez
uma campanha sem falhas, onde nada disse, nada apresentou e nenhuma cara
mostrou – mas que agitou perfeitamente o medo do regresso ao passado. Assim,
esmagado entre um passado traumático, um presente envergonhado e um futuro sem
esperança ou ambição, Portugal deu um sopro de vida à moribunda austeridade na
Europa. Talvez sejam demónios, mas são os nossos demónios.
Sem comentários:
Enviar um comentário