“Culpem o Canadá!”,
cantavam as subversivas personagens de South Park. A canção tornou-se notória
não apenas pelo seu humor para lá dos limites (chega a chamar “bitch” a uma
conhecida cantora canadiana) mas também pela sátira a quem nunca enfrenta as
responsabilidades – quem a canta é um casal com filhos mal-educados que prefere
culpar um filme canadiano, e por inerência todo o país, a admitir que eles
próprios possam ter criado uns monstrinhos.
Culpar o Canadá tem
sido um desporto favorito entre quem está preocupado com as alterações
climáticas no nosso planeta. E por boas razões: apoiado nas suas enormes
reservas de carvão e areias betuminosas, liderado por um primeiro-ministro que
não acredita que a acção humana esteja a aumentar a temperatura da Terra e se
ri das energias renováveis, o Canadá – juntamente com a Austrália, cujo chefe
de Governo uma vez definiu toda a ciência climática como “uma grande treta” –
tem persistentemente minado as diferentes tentativas globais para reduzir as
emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. A sabotagem é extremamente
eficaz porque o argumento dos países emergentes é imediatamente validado – se
países ricos como o Canadá e a Austrália se recusam a reduzir o seu consumo de
energias fósseis por medo de afectar a sua economia, é fácil à China ou à Índia
alegar que não há outra forma de atingir o mesmo desenvolvimento que a de
utilizar as mesmas energias. E de facto, a Índia aumenta o seu consumo de
carvão a um ritmo de quase 10% ao ano, enquanto a China utiliza mais desta
energia suja que todo o resto do mundo em conjunto.
Estamos na contagem
decrescente para a grande cimeira sobre o clima que decorrerá em Dezembro em
Paris – a COP21. A situação actual, medindo cuidadosamente as palavras, é dramática:
a mão destruidora humana – está provado para além de qualquer dúvida razoável –
é já responsável pelo aumento de 0,8 ºC na temperatura global da Terra; mesmo
que por magia parássemos hoje de emitir CO2 para a atmosfera, o acumulado iria
a médio prazo continuar a aquecer o planeta até 2 ºC adicionais – o “ponto de
viragem” a partir do qual a sustentabilidade da nossa espécie começa a entrar
em dúvida. Baseando-se nos apelos científicos cada vez mais estridentes, vários
líderes estão a pôr pressão sobre as discussões que vão ocorrer em Paris,
insistindo em que precisamos mesmo de chegar, pela primeira vez na História, a
um acordo global e vinculativo sobre o clima da Terra, com reduções de emissões
a partir do ano 2020 (quando termina o protocolo de Quioto).

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