quarta-feira, 16 de maio de 2012
Juncker está fora da UEFA
O vídeo viral que pôs o Uganda no mapa
sexta-feira, 16 de março de 2012
Colheitas ou golfe?
A seca não é uma situação normal, antes um valor extremo, excepcional por definição. O problema é que esses valores extremos repetem-se com cada vez maior frequência; os invernos chuvosos do litoral atlântico transformaram-se em amenos verões. As palavras proferidas em 2005 (aquando da última grande seca no Alentejo antes da deste ano) pelo presidente do Instituto da Vinha e do Vinho retinem, como escreveu Pessoa, lívidas ainda aos ouvidos: “Em 50 anos o Alentejo será demasiado quente para a produção de qualquer tipo de vinho. Será como Marrocos, e que eu saiba não se produz vinho aí ou na Argélia”. Se quisermos ser implicativos, ambos os países produzem efectivamente algum vinho (violento e de baixa qualidade), mas o ponto não é esse: a verdade inconveniente é que, indiferente à nossa típica estratégia da avestruz, o clima está a mudar rapidamente e perante os nossos olhos. E os avisos de diferentes analistas geopolíticos começam, aos poucos, a tornar-se plausíveis: as guerras do século XXI já não serão travadas tanto pelo acesso ao petróleo como pelo acesso à água. Também neste ponto, a China é um permanente factor de tensão – o país apresenta 20% da população mundial mas detém apenas 7% das reservas de água, e destas a esmagadora maioria está poluída. 330 cidades chinesas sofrem de falta de água crónica. O consumo de água per capita de cada habitante chinês é de um terço de cada português – o facto já é extraordinário por si, mas ainda mais ao descobrirmos o restrito lote de países que constituem os maiores consumidores de água por habitante no planeta: EUA, Tailândia, Sudão, Grécia, Itália, Espanha... e Portugal.

Um país em seca “severa” ou “extrema” é um dos grandes consumidores mundiais de água. Uma explicação fácil para o paradoxo estaria na invocação de falta de consciencialização e hábitos culturais: gostamos de tomar banho, de ter o carro lavadinho, de um quintal florido e cheio de couves... Mas melhores razões podem ser encontradas nas indústrias que restam no país: a do papel, para além de substituir pinheiros pela árvore voraz que é o eucalipto, exige grandes volumes de água para produzir. Já outro nicho económico é bem mais patético. Sob pretexto da atracção de uns poucos anglo-saxões endinheirados, Portugal cobriu-se com 79 campos de golfe, alguns deles altamente subsidiados como “projecto de interesse nacional”, quase todos nas áreas menos chuvosas do país, cada um deles utilizando água suficiente para abastecer uma cidade de 10000 pessoas durante um ano inteiro. Da próxima vez estiver de férias no Algarve, a ver os incêndios florestais na tv, e não houver água para um duche, já sabe: uma partida de golfe substitui tudo isso e muito mais. Vamos todos beber golfe.
Nunca desperdices uma boa crise

"Crise" escreve-se no alfabeto chinês com o auxílio de dois caracteres, wei e ji; o primeiro significa "perigo". Em muitos dos seus discursos, JFK popularizou no mundo ocidental a ideia que o segundo em contrapartida significaria "oportunidade" - na verdade, "ponto crítico" é uma tradução mais fiel para ji, mas de uma forma ou de outra, também aqui encontramos a noção de mudança, de escolha, mesmo de possível melhoria. O significado clássico, expurgado da sua monopolização económica, acentua o livre-arbítrio do indivíduo, a sua responsabilidade, a capacidade e a soberania que tem para julgar e decidir.
A crise é a ruptura, ruptura de hábitos, de comportamentos, de ideias, de capacidades, mas essa ruptura pode ser um ponto de partida, um empurrão sem o qual não há energia para a evolução e para a gestão da mudança. O próprio Jean Monnet era sanguíneo sobre o assunto: "Os homens só aceitam a mudança quando estão em necessidade... e só vêem a necessidade quando estão em crise". Não deixa de ser uma pequena ironia que a União Europeia da qual Monnet foi um dos pais fundadores chafurde na crise - que não criou - há mais de três anos, e ainda sem luz ao fundo do túnel. O "momento crítico" prolonga-se e manifesta-se em incertezas e contradições, sem que o novo paradigma se defina. Todos sabemos que não poderemos continuar assim indefinidamente, porque nem os indivíduos nem as sociedades têm forças físicas ou psíquicas para tal; mas as nossas escolhas ainda são claras, porque nem a própria encruzilhada o é. Podemos, no entanto, fazer um esforço para apreciar o fim das ilusões que uma boa crise sempre proporciona: o momento da revelação, em que abrimos os olhos e descobrimos uma paisagem radicalmente diferente daquela que imaginávamos, é tremendo - mas também belo e possivelmente recompensador, se a encararmos da forma certa. Afinal, é bem verdade que nunca é possível encontrar uma oportunidade perdida.
"A crise de hoje é a piada de amanhã", escreveu H. G. Wells, autor de "A forma das coisas que virão" e que também sabia algo sobre o assunto - a sua vida foi uma sucessão de crises amorosas. O comediante Robert Orben tocou no mesmo ponto com mais verve. "Antigamente, a Humanidade tinha duas opções em períodos de crise grave: lutar ou fugir. Agora temos uma terceira opção: lutar, fugir ou rir". Riamos todos, então, e que seja bem-vinda a crise.
O último Benfica-FC Porto de sempre
Esta semana joga-se um Benfica-FC Porto para a liga portuguesa de futebol. Este jogo ("jogo" deixou de ser uma palavra conveniente para o designar; "batalha", "pálio", "justa" seriam muito melhores) é o melhor produto que o desporto português tem para oferecer: põe frente a frente, na modalidade mais popular do mundo, as nossas equipas de topo, as únicas que conseguem sustentadamente competir nos mercados europeus e globais. Tem implicações profundas, não apenas desportivas, mas também culturais, económicas, sociais; deixa poucos indiferentes, criando uma barricada que divide a portugalidade em dois pólos opostos, azul contra vermelho, Norte contra Sul, história contra sucesso recente, dimensão contra garra, e dezenas de outros valores que nos fazem optar por um ou outro lado. Como puro espectáculo desportivo, é também algo especial de se seguir, mas o mais extraordinário está nas paixões que desperta - até porque envolve uma rivalidade de um século construída por muitas histórias - e nas emoções que movimenta - até porque as duas equipas estão empatadas no primeiro lugar e os pontos em disputa, a dez jornadas do fim, são cruciais. E se este decisivo Benfica-FC Porto fosse também o último da História? A assustadora ideia não é tão improvável como soa. O negócio do futebol está a atravessar tempos de mudança muito rápida, ainda que muitos dos que nele trabalham insistam em enterrar a cabeça na areia. E para os clubes portugueses, essas mudanças não apenas atingem o coração da sua estratégia para competir a nível internacional, como também os apanham numa curva que os torna vulneráveis.
A curva chama-se 255 milhões de euros. Este é o astronómico valor em dívida aos bancos pelos dois clubes no seu conjunto (Benfica 157 milhões, FC Porto com 98). Na conjuntura actual de aperto do crédito, é duvidoso que no momento em que chegue a altura de pagar esta dívida, os clubes consigam encontrar quem lhes empreste mais dinheiro para continuar a chutar a bola para a frente - e se esse crédito for encontrado, será a taxas proibitivas. O FC Porto, por exemplo, pagava 4,39% de taxa de juro em 2010, mas no ano passado esta já era de 6,78%. O Benfica, em 2010/2011, gastou quase 14 milhões de euros só em juros.
Ao mesmo tempo, as regras do jogo mudam. A UEFA vai impôr regras de "fair-play financeiro" que terão como consequência certa baixar o valor das transferências milionárias que constituem a maior fonte de receita dos clubes portugueses. O seu modelo de negócio passa quase exclusivamente por encontrar na América do Sul jovens com potencial, adaptá-los ao futebol europeu e revendê-los com muito lucro, algo que vai mantendo a máquina a funcionar enquanto descaracteriza os clubes: o plantel do FC Porto conta com apenas 4 portugueses em 26 jogadores, o do Benfica apenas 7 em 25 (e nenhum deles titular). A asfixia financeira começa a ser cada vez mais difícil de esconder, no que espelha também a situação do próprio país.
A partida será decisiva em termos desportivos, porque quem perder ficará em segundo - mas este lugar ainda dá acesso directo à salvação chamada Liga dos Campeões. Paradoxalmente, o grande rival dos dois grandes é agora o Braga, que os persegue a apenas 3 pontos: acabar em terceiro e fora da liga milionária poderia significar a curto prazo, para Benfica e FC Porto, a incapacidade de pagar salários. O jogo de sexta relembra as palavras de Bill Shankly: "O futebol não é uma questão de vida ou morte - é algo de muito mais importante que isso".terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Da ditadura das maiorias
Não, esta não é mais uma história sobre o Luxemburgo e a sua relação paternalista com os seus habitantes de origem portuguesa. O país chama-se Letónia e organizou no sábado um referendo sobre a elevação da língua russa ao estatuto de oficial. E os argumentos para o "sim" em tal referendo parecem esmagadores: de acordo com o último censo disponível, o russo é a língua materna de 37,5% dos habitantes, e a segunda de quase toda a restante população, etnicamente letã e que era forçada a aprender russo na escola durante os 50 anos em que o território era apenas uma pequena república soviética. No total, 94% dos habitantes da Letónia conseguem falar ou pelo menos entender russo, mais do que os 91% que fazem o mesmo em letão.

E no entanto o referendo, revelador ao mundo de vários factos desconfortáveis neste membro da União Europeia, resultou num esmagador (e esperado) "não". 20 anos de independência não foram suficientes para que os letões ultrapassassem o rancor anti-Rússia dos tempos em que o país era colonizado com russófonos; hoje em dia, os letões "originais" atropelam se for necessário os direitos humanos de forma a assegurar que a minoria russa não usufrua da voz que a sua dimensão justificaria, num filme que já conhecemos demasiado bem. O resultado da consulta nunca esteve em causa porque 300 000 pessoas (15 % da população) não têm direito à nacionalidade letã e vagueiam pelo país onde sempre viveram com o estatuto de "não-cidadãos" comparável ao das mulheres, estrangeiros e escravos da antiga Grécia, que também não podiam deter propriedades nem votar no chamado "berço da democracia". Ainda assim, as últimas eleições foram ganhas por um partido centrista, Harmonia, que defende mais direitos para a minoria russa - mas os partidos "do arco da governação", com menos votos, preferiram coligar-se com a extrema-direita e deixar a Harmonia fora do governo. Os extremistas rapidamente procuraram proibir todas as escolas russas que existem, o que obteve como resposta o referendo agora realizado. O próprio presidente do país tomou partido pela maioria e fez campanha pelo "não" ao russo: "a Letónia tem outras coisas mais importantes com que se preocupar". Num país que saiu agora dum processo de austeridade 25% mais pobre do que era antes, a frase faz sentido, mas a divisão da sociedade em duas partes antagónicas não é de somenos.
A Letónia partilha agora com o Luxemburgo a duvidosa honra de serem os únicos países europeus onde uma língua falada por mais de um quarto da população não ser oficial. Na Letónia, o russo acabará mais tarde ou mais cedo por sê-lo.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Por favor não me mordam o pescoço
Em rigor, foi o presidente do Parlamento Europeu a abrir as hostilidades da semana. O alemão Martin Schulz acaba de ser eleito para o cargo e, taxativo e opinativo como é, enredou-se num fio de raciocínio mal delineado e ainda pior explicado. Queria Schulz explicar (pelo menos assim alegou mais tarde) que os problemas de Portugal são problemas europeus, e que as soluções devem também ser encontradas na Europa. Em vez disso, pareceu estar a ameaçar o país de irremediável declínio se insistisse em tentar ter opções independentes das suas (como tentar obter investimento vindo de Angola), além de repetir a referência ao “antigo colonialista”. Uma mordidela inesperada esta, até porque imediatamente seguida de uma segunda apontando à mesma veia: dois dias depois, Merkel a Magnificiente decidiu usar a Madeira como exemplo negativo. “Ali, os fundos europeus serviram para fazer túneis e autoestradas muito bonitas, mas não para aumentar a competitividade”. A chanceler alemã equivoca-se várias vezes numa simples afirmação. O investimento da Madeira em infraestruturas, num território insular cuja indústria é naturalmente o turismo, veio realmente aumentar e muito a competitividade da região – a tal ponto que a ilha (graças também às transferências que lhe advêm de regiões mais pobres de Portugal e à sua imoral “zona franca”, é certo) é já uma região mais rica que a média europeia. A Madeira tem isso sim uma alta taxa de execução dos fundos europeus a que teve direito (que são muitos, devido ao estatuto de região ultraperiférica), como é reconhecido pelos relatórios do Tribunal de Contas e pelas instâncias de controlo comunitárias dos fundos, que aliás os atribuem a projectos concretos e têm portanto uma palavra importante a dizer na sua utilização. Finalmente, a crítica leviana e arrogante – que obviamente nunca seria aplicada, digamos por exemplo, à altamente subsidiada e economicamente problemática região da ex-Alemanha de Leste de onde a chanceler é originária – tem consequências directas na imagem exterior da Madeira, na sua atractividade, e como tal na sua capacidade de criar riqueza e sair do buraco financeiro em que se encontra. Uma bela mordidela na jugular.
A dentada final veio de mais perto – do próprio primeiro ministro português, que considera “piegas” aqueles que o elegeram para tão desprestigiado cargo. Infantilizando todo um país, Passos Coelho compara o seu governo aos professores “duros” e os portugueses a uma manada de alunos choramingões que um dia hão-de agradecer os cortes, as reduções, a austeridade, o empobrecimento, e o salvamento de alguns bancos com dinheiros públicos. Obviamente, o primeiro ministro não acredita nos beijinhos no pescoço para dourar a pílula. Mas deve-se sempre ter cuidado com aquilo que se deseja: um dia que os portugueses decidam deixar a pieguice da lamúria e, sem nada mais para perder, vierem queimar as ruas como está a acontecer na Grécia, Passos Coelho há-de olhar para trás e para esta nossa paz podre com nostalgia. Quiçá mesmo com pieguice.

