quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cores do futuro: verde, vermelho, cinzento... e camaleão

O futuro é verde. Pela primeira vez no mundo, um partido “verde” (ou seja, que faz da ecologia a sua matriz orientadora) vai liderar um governo, o do estado alemão de Baden-Vurtemberga, precisamente um dos mais ricos e industrializados do país – e também um dos mais conservadores: por 58 anos, eleição após eleição, a vitória foi sempre para os democratas-cristãos. Até agora. O momento é histórico e as repercussões são retumbantes, podendo significar uma mudança fundamental nas escolhas políticas do nosso século; se os Verdes alemães conseguirem provar que é possível obter um progresso sustentável – não destruir o planeta em que vivemos mas ao mesmo tempo melhorar e desenvolver as nossas sociedades – tal pode mudar profundamente a forma de dirigir a Alemanha e a Europa.

Claro que estas altas expectativas são irrealistas, até porque os dois temas que ajudaram a eleger os Verdes tornaram-se agora, no dia a seguir à eleição, dois problemas bicudos: o grande projecto de reconstrução da estação de comboios e centro de Estugarda, que já está em marcha mas é profundamente impopular e contra o qual os Verdes sempre se bateram, custará em indemnizações por incumprimento quase tanto como se for em frente; e a oposição à energia nuclear é considerada essencial pelos eleitores, mas deixa-os com centrais desactivadas nos braços e um défice para pagar a conta de energia do Estado. Ainda assim, que evolução para um partido de protesto, quase anarquista, criado há apenas 30 anos!
O futuro é cinzento. Cinzento como os fumos emitidos por um Mercedes ou um Porsche, automóveis rápidos e poluentes, cujas míticas marcas sediadas em Baden-Vurtemberga escondem mal o seu desconforto perante o novo governo que já fala em limitar a velocidade nas autobahnen. Ou cinzento como o futuro próximo da economia portuguesa, cada vez mais apertada na tenaz da incompetência, laxismo e corrupção de sucessivos governos centrais, e com uma cura preconizada pelo FMI à base de sanguessugas económicas que vão prolongar a recessão do país. Os portugueses estão extenuados, e absolutamente fartos dos partidos tradicionais, vistos como nada mais que federações de interesses; estariam assim reunidas as condições para o aparecimento de um fenómeno tipo Verdes. Só que estes em Portugal não passam de “melancias” – verdes por fora, vermelhos por dentro, o partido não é mais que uma extensão do PCP, ali condenando a ecologia à irrelevância. Logo...

O futuro é camaleão. Na falta de esperança, os portugueses seguem o primeiro a prometer ar fresco. Há cinco anos, Manuel Alegre, político e partidário toda a sua vida, acenou com uma suposta independência: teve um milhão de votos. Em Janeiro, Fernando Nobre, um antigo simpatizante monárquico que em 2005 era mandatário do Bloco de Esquerda, foi lançado por Mário Soares e concorreu a presidente da República “acima dos partidos, pelos valores”. Teve 14% dos votos e em Março afirmou taxativamente “não querer nenhum cargo partidário ou governativo”. No sábado o PSD apresentou o seu cabeça de lista por Lisboa, chama-se Nobre. Ironias da nomenclatura.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Acenda as luzes quem quiser mais um museu em Lisboa

Este é um texto sobre a conta da luz. Não, não inclui piadas à vergonhosa atitude da direcção benfiquista de apagar as luzes do seu estádio quando o FC Porto comemorava um campeonato, mas tem sim a ver com o surpreendente anúncio feito pela EDP (a empresa monopolista de vários mercados da electricidade em Portugal) nesta segunda feira: a Fundação EDP vai gastar 19 milhões de euros na construção de um novo espaço cultural em Lisboa, mesmo junto ao rio.

Um apreciador de arte fica em princípio sempre satisfeito com a criação de um novo museu. Mas esta ideia suscita interrogações, para não dizer objecções, de variada índole. Para começar: o timing deste anúncio, indissociável da questão financeira. De facto, o gestor António Mexia (3 milhões de euros de salário em 2009) anunciou o novo projecto com mal disfarçada vaidade no preciso dia em que o rating da empresa foi cortado, pela segunda vez em 15 dias, pela Fitch. Dado que os títulos da dívida do próprio Portugal são considerados agora apenas um nível acima de “lixo”, no que é um reflexo (e também a causa, mas isso será para outra crónica) de graves situações financeira, económica e política no país, as preocupações das pessoas estão longe da criação de novos museus, sobretudo quando eles custarão 19 milhões – o orçamento da “Fundação EDP” é de 14 milhões anuais. A organização foi supostamente criada para apoiar “projectos de natureza social”, mas na mesma conferência de imprensa, Mexia apelou para que os consumidores de electricidade, ao pagar a sua conta da luz, contribuíssem voluntariamente com 50 cêntimos a mais para esses projectos. Isto faz franzir o sobrolho – se a fundação pode usar quase todo o seu orçamento para um novo museu ao lado do que já detém (o Museu da Electricidade, também em Lisboa), precisa mesmo de contribuições voluntárias adicionais?

É que os portugueses já pagam bem a sua electricidade – o preço está na média da UE, mas num país com baixo poder de compra; o preço por kW horário é apenas um cêntimo mais baixo que no Luxemburgo, por exemplo, e há uma ressalva importante – o Estado subsidia, através de um IVA reduzido, o consumo de electricidade (na Europa apenas o Reino Unido, que produz petróleo, faz algo parecido). E o Estado também ainda detém 25% da EDP...

Há objecções menos tangíveis. Numa altura em que Souto Moura ganhou o segundo Prémio Pritzker para o Porto, caso único numa cidade com dois premiados desde a atribuição deste “Nobel da Arquitectura”, e afirmou quase só trabalhar fora de Portugal por não existirem projectos no país, a EDP escolhe para construir o edifício uma arquitecta britânica conhecida apenas pelo seu trabalho com o falecido marido, o checo Kaplicky.

E como se não bastasse, o local escolhido para mais um museu financiado pelos contribuintes e consumidores de electricidade de todo o país é... Lisboa. Enquanto todo o país definha à míngua de empregos, investimentos e equipamentos sociais e culturais, o desequilibrado Estado encoraja mais um flamejante museu na capital de todos os gastos e todos os edifícios existentes desaproveitados. Já nem sequer surpreende. Mas ainda indigna.

Portugal em boas mãos: mãos europeias

O conceito de “Portugal”, variável ao longo dos tempos e presente nos mais recônditos recantos deste mundo (até, imagine-se, no Luxemburgo!), é dono de uma História interessante, rica e por vezes mesmo épica. Não suscita, isso é certo, a indiferença; até porque para cada momento heróico da gesta lusitana parece haver um outro, simétrico, que nos afunda na raiva e humilhação. A semana passada trouxe mais um destes últimos, com a demissão do governo um dia antes de um Conselho Europeu crucial para o futuro da zona euro.

O país está, todos o dizem, muitos o sentem, asfixiado economicamente. Um país repleto de pessoas destemidas, criativas, abnegadas, alegres, aventureiras, que no entanto se encontra de rastos finalmente vergado por um Estado que habituou os portugueses a viver dos seus humores e da sua esmola – uma das piores heranças do Estado Novo – para finalmente se tornar num obeso ladrão que asfixia a iniciativa privada e existe apenas numa lógica de sustento dos seus “amigos”, que se servem dos bens públicos em vez de servirem o público – a pior herança da democracia. Em comum, a mesma vertigem centralizadora que nos últimos séculos, nas últimas décadase sobretudo nos últimos anos fez mais do mesmo: desenvolver “Lisboa” à custa do resto do país. A lógica do eucalipto, que tudo seca em seu redor. Cavaco, enquanto primeiro ministro, desistiu de lutar contra “o monstro”, como lhe chamou. Guterres, que o substituiu, identificou-o antes como “o pântano” quando se demitiu, fugindo do mesmo. Eça de Queirós, um século antes, chamara-lhe “a choldra lisboeta”, à qual Barroso escapou ao ser promovido para Bruxelas. Depois chegou o arrivista Sócrates, o hábil manipulador da opinião pública que, também ele, deixou passar o tempo das reformas cruciais enquanto elas eram possíveis. A produtividade foi caindo, a criação de riqueza desaparecendo, o desemprego crescendo, a protecção social definhando. O Estado, o tal pântano, esse foi crescendo de forma voraz, alimentado a impostos crescentes e sempre em benefício dos seus filhos privilegiados, seja quem lucra nas parcerias público-privadas (melhor dito, com prejuízos públicos e lucros privados) ou gestores de empresas públicas com salários obscenos. Dificilmente haverá maior ironia que a notícia, saída exactamente no mesmo dia em que o governo português caiu de podre, de como Armando Vara (uma das eminences grises do regime) recebeu 800 000 euros do BCP em 2010, num ano em que esteve suspenso do banco por ser arguido no maior processo de corrupção e tráfico de influências de sempre.

A historieta não tem heróis, qualquer que sejam as nossas simpatias partidário-ideológicas. O governo PS fez todos os possíveis para criar uma crise política que forçasse a sua própria demissão, permitindo a estratégia da vitimização e a manutenção das hipóteses eleitorais (que é considerado o essencial); pelo mesmo tacticismo mesquinho, a oposição PSD/CDS preferiu obter eleições agora por estar convicta de as poder ganhar, mesmo que isso implique a (agora quase certa) entrada do FMI em Portugal; a oposição à esquerda, nunca olhando para lá do seu umbigo, continua empenhada em não apresentar nenhum tipo de alternativa governativa responsável. Entretanto, por força das nossas responsabilidades na moeda que partilhamos com os europeus, a economia portuguesa é cada vez mais dirigida por Bruxelas e Frankfurt, estreitando ao mínimo a margem de manobra dos políticos lisboetas. E ainda bem que assim é.

Estrela (de)cadente

“It’s better to burn out than fade away” é uma expressão inglesa. Significando algo como “é melhor uma extinção repentina que uma decadência lenta”, as palavras tornaram-se famigeradas devido a Kurt Cobain: o cérebro dos Nirvana, incapaz de lidar com a popularidade estelar da sua banda de “derrotados da vida”, escreveu-as na sua nota de suicídio.

No mundo artístico abundam os casos de “burn out” – o apagar repentino da vela. Os exemplos desfilam; o próprio Cobain é dos primeiros a vir à memória, tal como John Lennon, Freddy Mercury, ou Elvis Presley. O fenómeno não é tão-pouco restringido à música moderna: Edgar Allan Poe, um dos maiores escritores de sempre, abandonou este mundo aos 40 anos de idade e no auge da carreira, enquanto Amadeo de Souza-Cardoso, o grande pintor de Manhufe (Amarante) que privava com os cubistas em Bruxelas e Paris, morreu em Espinho aos 31 anos, antes mesmo de a começar. Marylin não seria o mito Marylin se ainda hoje fosse viva, em vez de se ter extinguido ao vento aos 36. E James Dean, ícone cultural ao fim de apenas três filmes, repetia a bravata “vive rápido, morre jovem, deixa um corpo bonito” – estampando-se fatalmente com o seu Porsche aos 24 anos. Mas a morte também não é a única razão para descer repentinamente do cume da fama: Rimbaud, o grande poeta libertino que com 15 anos escrevia versos em latim, abandonou totalmente a escrita aos 21. Salinger produziu um único (mas vertiginoso) livro, “Uma agulha no palheiro”, e em seguida escondeu-se do mundo durante os restantes 60 anos da sua existência.




Depois, claro, há aqueles excelentíssimos dinossauros que atingem uma notoriedade tal que têm cada vez mais público no que quer que façam. É muito discutível se os méritos criativos estão ainda intactos, mas qualquer digressão dos Rolling Stones, filme com Robert de Niro, qualquer quadro da última fase de Picasso arrastará sempre muito mais atenção, pessoas, dinheiro e recursos que os seus trabalhos iniciais, indiscutivelmente muito superiores até pela própria lógica – já que foram estes que construíram as suas reputações.



O homem que vai tocar hoje em Nancy e no dia 20 de Abril no Luxemburgo (o local escolhido é improvável – as instalações do CNA em Dudelange) é uma das excepções a esta regra: Lloyd Cole é um “fade away”, o raro caso da estrela que se transforma lentamente num planeta frio, distante e baço. No final dos anos 80, Cole e os seus Commotions já tinham escrito a “canção pop perfeita”, vendido milhares de discos, enchido salas de concertos por todo o mundo, nomeadamente em Portugal, França ou Suécia. Pois bem, Lloyd Cole não desapareceu; não teve um acidente nem deixou de fazer o que sabe fazer. Mas as ideias parecem ter-se gasto nos primeiros trabalhos. Pouco a pouco, o público foi desaparecendo, depois as editoras, depois a banda, também algumas namoradas a avaliar pelas suas canções... hoje, os seus concertos são um exercício de nostalgia acústica, uma homenagem de um resistente aos seus ideais de pureza folk. Sem staff de apoio (“não temos ninguém para afinar as guitarras porque depois teríamos de convidá-lo para jantar”, brinca), sem artifícios cénicos outros que um foco de luz e meia dúzia de guitarras, tocando em cidades como Dudelange ou Tomar, é estranho ouvir uma estrela (de)cadente 25 anos depois. Um pouco como ver Futre a arrastar-se no Reggiana ou Eusébio no União... de Tomar.

Tsunami nuclear

Há catástrofes e catástrofes. O que aconteceu no Japão é uma catástrofe de proporções bíblicas, que desafia a nossa capacidade de compreensão e a nossa forma de vida. Um terramoto de 9 na escala de Richter. Um tsunami de 10 metros de altura que até atravessou o oceano Pacífico e chegou ao México. 250 réplicas do terramoto, das quais 30 acima dos 6 graus Richter (ou seja, só por si seriam terramotos graves). 350 mil pessoas estão agora sem abrigo e cerca de cinco mil casas estão destruídas, para além dos mais de 20 mil edifícios que ruíram. 600 mil pessoas evacuadas das zonas mais perigosas. 100 mil soldados, metade de todo o exército, mobilizados para o resgate. E claro, o número mais chocante é ainda desconhecido: provavelmente as vítimas mortais chegarão aos cinco dígitos, pelo menos 10 mil pessoas.
O país atravessa a sua pior crise desde a II Guerra Mundial. E a memória desses tempos obscuros foi avivada devido a um par de imagens terríveis captadas a grande distância: os mini-cogumelos nucleares formados após as explosões dos reactores 1, 2 e 3 da central de Fukushima, perto do epicentro do terramoto. Acontecimentos aterradores num país ainda traumatizado, mesmo 66 anos volvidos, por Hiroxima e Nagasáqui.
A opção nuclear revela-se de repente em todo o seu esplendor. Ao construir 17 centrais, a maioria nos anos 1960, o Japão tornou-se refém das mesmas; o problema era um terramoto com tsunami, mas em poucos dias, a catástrofe ficou incomparavelmente mais séria – e tornou-se mundial – devido aos acidentes nucleares. Foi necessário evacuar mais populações, ficar sem energia, contaminar o planeta e... descobrir que não há alternativa e que, para restaurar toda a energia de que precisa, o país terá de reaproveitar reactores que já sofreram danos estruturais. Um pesadelo sem fim.
Rapidamente – e é estonteante a velocidade a que tudo isto se está a suceder – os governos europeus foram obrigados a reagir às manifestações antinucleares que começaram a aparecer mal as pessoas abriram os olhos para os riscos. Na Alemanha, milhares de pessoas formaram um cordão humano de 45 km no sábado ligando Estugarda à sua (velha) central nuclear; dois dias depois, Merkel recuou e congelou por três meses a decisão de prolongar a vida útil das suas centrais para lá do ano 2021, como tinha decidido Schroeder (e os Verdes). A Suíça suspendeu os projectos de renovação das suas centrais. E o comissário europeu da Energia, enumerando o desenrolar dramático dos acontecimentos – tremor de terra, tsunami, falha energética, aquecimento dos reactores, explosões – afirmou que o exemplo japonês mostra que o impensável até há poucos dias pode mesmo acontecer.
A fissão do átomo é uma tecnologia do passado e invendável depois de mais este (triplo) desastre? Em termos globais talvez, mas há um canto do globo onde por vezes as notícias parecem surreais: chama-se Portugal. Na segunda feira (o próprio dia em que explodiram os reactores 2 e 3 em Fukushima) um lobby empresarial que quer lá construir uma central nuclear (a expensas dos contribuintes) avisou que vai reapresentar “ao próximo governo” o projecto já apresentado e rejeitado em 2005, dado que o terramoto no Japão “prova que esta tecnologia é segura”. Haverá limites para a insensatez?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Estado-avó, já não somos crianças

No preciso momento em que começo a escrever estas linhas, chegar a Portugal de carro torna-se ainda mais difícil: por iniciativa do governo de Espanha, este país baixa hoje o limite máximo de velocidade nas autoestradas para 110 km/h. Segundo o ministro da Indústria, Miguel Sebástian, esta medida justifica-se “para reduzir o nosso consumo de combustível em 15% para a gasolina e 11% para o diesel”. O ídolo espanhol da F1, Fernando Alonso, foi rápido a insurgir-se contra a medida, garantindo que “a 110 km/h adormece ao volante”, e o ministro ripostou de forma provocatória, convocando uma conferência de imprensa para dizer que “nos três países europeus que produzem petróleo, Reino Unido, Noruega e Rússia, o limite é de 110, e Hamilton [rival de Alonso nas pistas] é inglês e não adormece ao volante”.

Por onde começar a demolir tão demagógica medida? O facto dos países produtores de petróleo terem limites de velocidade tão baixos já de si demonstra que o seu impacto no consumo é negligenciável – afinal, eles têm todo o interesse em maximizar o gasto de petróleo, ao qual devem grande parte da sua prosperidade... Na verdade, é bem possível que, a ser cumprido pela generalidade dos condutores, o novo limite mais baixo leve a um *aumento* do combustível consumido pelos veículos. E isto porque uma condução “em comboio”, com mais carros viajando perto uns dos outros todos a velocidades parecidas, levará forçosamente a mais travagens e acelerações – exactamente os dois factores que mais influência exercem sobre os consumos. Para não falar, claro, na acrescida possibilidade de congestionamentos, sobretudo em autoestradas “urbanas”.

A peregrina ideia nem é eficaz nem original; logo em 1973, na sequência do primeiro choque petrolífero, as autoridades federais dos EUA decidiram impôr um limite máximo de 90 km/h em todos os Estados, que antes tinham limites variando entre os 105 e os 121 km/h. Acreditava-se que a medida fosse poupar uns meros 2,2% de combustível (e estamos a falar de motores americanos dos anos 70, infinitamente menos eficientes que os motores europeus e japoneses actuais). Mas na verdade, a própria administração admitiu que a lei apenas permitiu poupar 1% de combustível – e estudos independentes situam essa marca em, no máximo, 0,5%. O limite federal de 90 foi finalmente levantado em 1995, e maioria dos Estados voltou então a subir o limite para 105 km/h. Resultado: o número de acidentes *decresceu* entre 3 e 5%... talvez o problema da concentração ao volante, referido por Alonso, mereça reflexão.

Um governo que fosse sério na sua intenção de reduzir o consumo poderia, por exemplo, legislar no sentido de encorajar a adopção de pneus de baixa resistência ao atrito – estes reduzem em 25% o esforço necessário para manter o movimento do carro. Mas reduzir ainda mais os limites de velocidade, quando os carros, as estradas, a sinalização e os próprios condutores são cada vez melhores, apenas contribui para esses limites sejam percebidos como uma espécie de piada elaborada que não é para ser cumprida. Todos nós, se tratados como responsáveis, reagimos responsavelmente; se nos tratam como crianças, agiremos como crianças, e certamente as multas por excesso de velocidade vão-se multiplicar. Ah, acabamos de chegar à verdadeira razão da nova lei espanhola.

Wisconsin blues

O estado norte-americano do Wisconsin não costuma aparecer nas notícias. É natural que assim seja – perdido no meio da massa continental dos Estados Unidos, esparsamente povoado (cerca de metade da população de Portugal e quase o dobro da sua área) e com uma economia sobretudo baseada na exploração pecuária, não há muito que o Wisconsin tenha para oferecer de excepcionalmente relevante ao mundo.

E no entanto este improvável lugar tornou-se repentinamente na linha da frente do combate total travado entre os defensores dos poderes públicos e do seu papel nas nossas sociedades, e aqueles que defendem o seu desmantelamento como forma de “agilizar” as nossas economias. Um combate que, como o leitor bem sabe, é divisivo, é duro, e tem barricadas bem definidas, tanto nos Estados Unidos como na Europa. E existe algo mais em comum nos dois continentes: o pêndulo da história está, desde os anos 1980, claramente inclinado para a direita.

O Wisconsin, primeiro estado americano a introduzir um subsídio de desemprego (nos anos 1930) e historicamente bastião democrata, conta com uma espécie de “contrato social” à americana: os sindicatos da função pública negoceiam colectivamente com a administração pública. O sistema tem dado bons frutos numa economia onde 7 dos 10 maiores empregadores são públicos. Mas existe um défice. Tal como na Europa, a reacção pavloviana é falar no “fardo” dos impostos e nos “cortes” – e logo o novo gorvernador entrou determinado a “quebrar a espinha” aos sindicatos, primeiro, e aos funcionários públicos, depois. Professores, enfermeiras, bombeiros, polícias e todos os outros. A “proposta” não é negociável: além dos cortes nos salários, que podem atingir os 10% e foram logo aceites, o governador exige que os sindicatos abdiquem de todos os seus direitos futuros de negociação colectiva, deixando todos – mesmo os não sindicalizados – ainda mais à mercê dos interesses do “corporate capital”. Nem a revelação da influência dos magnatas Koch, os dois maquiavélicos irmãos que financiaram a campanha do governador, e nem mesmo a confissão deste de que pensou em “contratar uns provocadores para criarem distúrbios nas manifestações” evitaram que, na última semana, 70000 pessoas estejam nas ruas, alguns dormindo à porta do parlamento de Madison – no meio da neve.

A discussão está de novo deslocada. Deveríamos combater as causas profundas dos défices – a diminuição das receitas públicas devido ao abrandar da economia muito para baixo do seu valor potencial. Deveríamos preocupar-nos com as taxas socialmente insustentáveis de desemprego (bem como com a ausência da criação de emprego), com o crescimento negativo constante dos salários reais –no Wisconsin mesmo o sector privado paga 1% mais que há 20 anos -, com o fenómeno crescente das desigualdade de rendimento. E pensar em como criar as bases para uma “economia do conhecimento”, como é vendida a panaceia para estes males reais, se por exemplo os professores estão entre os primeiros alvos a abater. Os cortes propostos pelo governador não fazem nada para equilibrar, pelo menos a curto prazo, o défice do estado, mas terão um efeito devastador na performance económica actual do mesmo. Também por isso, a derrota dos manifestantes (que têm comparado a sua saga “à do Egipto”) não deixará de ter consequências no resto do mundo ocidental, incluindo o “estatizado” Luxemburgo. É por isso que o Wisconsin interessa.