O "consenso europeu" (e mundial)
gizado como resposta à terrível crise iniciada em 2008 teve menos de consenso
do que de hegemonia ideológica: em Novembro de 2011 apenas as pequenas
Dinamarca, Áustria, Eslovénia e o minúsculo Chipre eram governados por partidos
à esquerda do centro - todos os outros 23 governos europeus, incluindo os de
todos os "grandes" Estados-Membros, eram essencialmente de matriz
conservadora/popular. A solução encontrada, apresentada como não tendo
alternativas, foi a da dor, da austeridade, dos cortes, dos
"sacrifícios", da "punição" por crimes nunca bem
especificados. A teoria era que estas demonstrações económicas de heroísmo
salpicado de masoquismo teriam a sua recompensa (terrena) através de uma
suposta renovada simpatia dos mercados e de um mirabolante acréscimo da
confiança dos agentes económicos, que supostamente faria reavivar o produto da
economia e fazer-nos a todos viver melhor muito em breve.
O curioso - e assustador - é que este tipo de
pensamento, e de opções políticas e económicas, repete de perto o ocorrido
durante a Grande Depressão iniciada em 1929, que só começou a ser combatida
após a eleição de Roosevelt e o seu New Deal, quatro anos depois. Acreditar
numa espécie de "austeridade estimulante" é o equivalente económico
de acreditar no Pai Natal; agradável durante alguns anos, e uma desilusão forte
quando a realidade entra em cena. No nosso caso, os resultados da austeridade
já estão aí: economias paralisadas, uma segunda recessão, pânico nos mercados e
desemprego. Tudo em crescendo, até porque as economias entraram em círculo
vicioso.
Pois bem, se a realidade não valida as nossas
opiniões, mude-se a realidade, pensaram alguns arautos do declínio, que acabam
de declarar que a austeridade na Europa "não existe". E se ainda existiu
alguma foi devido a aumento de impostos, que por alguma razão "não
conta". Só por a austeridade "não existir" é que não está a
funcionar, porque se existisse, certamente funcionaria.

O problema é precisamente esse: mais do não
existir, a austeridade move-se para ocupar o espaço de qualquer solução
complementar que se debruce sobre o crescimento. Precisaremos de eleger um novo
Roosevelt? É que não se vislumbra nenhum no horizonte. Pelo contrário, há mais
aprendizes do chanceler alemão que era seu contemporâneo.