terça-feira, 13 de maio de 2014

O local do suborno

Creio que a história se passou comigo em 2003. Estava então de visita à minha musa da época, uma rapariga austríaca; curiosos por conhecer a Eslováquia, país para lá da Cortina de Ferro e que estava na altura prestes a juntar-se à UE (e a Schengen), decidimos simplesmente apanhar um comboio suburbano em Viena e passar a tarde em Bratislava (a 50 km, as duas capitais mais próximas do mundo a seguir a Kinshasa e Brazzaville no rio Congo). A minha despreocupação de turista europeu levou-me a esquecer o passaporte; armado do bilhete de identidade e do passaporte da minha acompanhante, tentei convencer o guarda do comboio a deixar-nos completar o passeio até à estação eslovaca. Ele olhou, absorto, para os documentos por um longo momento, enquanto sorria. Ao fim de uma eternidade silenciosa, mudou repentinamente de atitude e gritou-nos: “Fora do comboio já!”

Obviamente, o guarda eslovaco esperava por uma nota de 20 euros metida discretamente por entre as páginas do passaporte, uma notinha que miraculosamente “confirmasse” não ser eu um criminoso indesejável na Eslováquia – paradoxalmente, a mesma nota que constituiria um verdadeiro crime. Comum no nosso quotidiano, é certo – não há ninguém que não tenha já passado por uma história semelhante – mas ainda assim um crime. E ontem a Comissão Europeia avançou, pela primeira vez, com uma quantificação da gravidade do problema na UE, e as conclusões só podem arrepiar um cidadão honesto: as estimativas apontam para um mínimo de 120 mil milhões de euros perdidos a cada ano na “economia paralela”, um valor brutal que corresponde ao orçamento de todas instituições europeias, ou então a 16 vezes o actual défice do Estado português, ou a quase três vezes o valor do PIB do rico Luxemburgo. Numa altura em que as nossas sociedades precisam de receitas de impostos como de pão para a boca, é dramático ver que a corrupção aumenta – pelo menos essa é a impressão de 57 por cento dos europeus. 75 por cento, entretanto, consideram o problema “generalizado” nos seus países.

Não é o pequeno suborno a agentes que constitui o grande problema das nossas sociedades, mas sim a corrupção de alto nível, que a própria Comissão considera como “um grande desafio” – tradução, nada foi feito e estamos a perder a luta em toda a linha. As ligações perigosas entre a política e as grandes empresas, em que as mesmas pessoas que supostamente representam o bem público são na verdade pagas subterraneamente por interesses privados, constituem o cerne do flagelo – e isto mesmo na Alemanha, por exemplo. A associação Transparência Internacional fala também em mais de 50 deputados que, em Portugal, estão nessa situação e trabalham para os “donos do país” – ou seja, empresas de construção civil e a banca.


Podemos sempre contra-atacar: há meia dúzia de anos, um punhado de jovens lituanos identificou potencialidades anti-subornos nas novas tecnologias disseminadas por pequenos e poderosos telefones. Nasceu Bribespot (“local do suborno”), uma aplicação para iPhone, Android ou web que permite a qualquer pessoa em qualquer parte do mundo denunciar um pedido de suborno de que tenha sido vítima. Os dados mundiais são depois compilados, divulgados, combatidos... não nos vai recuperar aqueles 120 mil milhões perdidos no ano passado, nem a teia de negócios escuros à volta do parlamento de Lisboa, por exemplo. Mas é um início. Se for pressionado, leitor, não hesite em denunciar um corrupto.

Terra dos Fogos

Após uma viagem de pesadelo em que teve de esperar seis meses ancorado numa baía pelo fim do rigoroso inverno e ainda enfrentar dois motins à sua autoridade, Magalhães ultrapassou o rio da Prata e rumou ao sul, convicto de encontrar a mítica passagem para o Pacífico. Quando atingiu um arquipélago que lhe permitiu finalmente começar a navegar para oeste, pelo estreito que hoje leva o seu nome e faz a junção dos dois grandes oceanos, o nortenho Fernão, Fernom na pronúncia mais correcta, viu ao longe, em terra, dezenas de fogueiras. Escaldado, logo receou que os indígenas preparassem uma emboscada à sua expedição. Na verdade, os Yaghan eram pacíficos, mas o nome de “Terra dos Fumos” pegou – mais tarde, e porque o marketing não é invenção recente, o nome seria alterado para Terra dos Fogos e finalmente para Terra do Fogo.

“Terra dos Fogos” é também um dos capítulos de Gomorra – o corajoso livro de Roberto Saviano sobre a mafia napolitana, a Camorra, que deu também origem a um aclamado filme. O título do livro de 2007 é inspirado no texto anti-mafia de um padre da região que terminava com o apelo claro “É tempo de deixarmos de viver nesta Gomorra”; o padre foi assassinado pela mafia pouco depois. Gomorra, o livro, fala-nos dos negócios do crime organizado numa perspectiva ora pessoal, ora jornalística, ora filosófica, naquilo que já foi descrito como um ONNI – Objecto Narrativo Não Identificado – cujo objectivo primordial é obter uma reacção do leitor. E as reacções não se fizeram esperar, dado que Saviano vendeu milhões de exemplares do seu livro e encabeçou várias listas globais das obras mais importantes dos últimos anos, isto enquanto recebia repetidas ameaças de morte vindas da própria Camorra.

“Terra dos Fogos” é sobre uma região da Campânia, uma histórica parte da Europa, onde se queimam lixos de forma tão permanente quanto ilegal. A mafia paraliza os sistemas existentes de recolha e tratamento de resíduos domésticos e industriais; há muito dinheiro para ser ganho com o lixo, e é exactamente essa a única preocupação do crime organizado. Uma investigação recente calculava que uma tonelada de lixo industrial renderia 30 milhões de euros à mafia, que só tem de se livrar dele como se fosse um acidente. Toneladas de resíduos são assim queimadas “acidentalmente” a céu aberto, libertando constantemente para a atmosfera e o solo substâncias mortais como dioxinas ou pior. Os resultados são estarrecedores. Nenhum italiano arrisca comprar produtos agrícolas ou da pecuária que sejam oriundos da Campânia (alguns produtos referem fraudulentamente outras origens por causa disto), e depois de o Japão ter descoberto leite de búfala contaminado, as vendas caíram a pique em todo o mundo. Mas isso nem é nada comparado com a taxa de incidência de alguns cancros, ali o dobro do verificado no resto da Itália. Um facto que só vem credibilizar o arrepiante nome pelo qual é conhecida a área, com mais de 200 lixeiras ilegais, delimitada pelas localidades de Nola, Marigliano e Acerra – o “triângulo da morte”.

Dizer que há aqui um problema é um eufemismo. O problema é evidente, brutal, premente, permanente – e arrasta-se há décadas, sem que os poderes públicos italianos ou europeus o consigam ou queiram sequer atenuar. Tal não pode ser tolerável. E se o leitor pensa que isto não o afecta porque não vive no sul da Itália, responda só para si – consegue garantir que não é a mafia quem gere os resíduos da cidade onde vive? É que eu não consigo.

Infidelidades

O ano é 1993. O local é a SIC, a primeira televisão privada em Portugal, à época recém-nascida. José Pacheco Pereira, então um comentador que mantinha algum crédito, comentava o panorama político do mundo ocidental – onde, tal como agora, se verificava uma esmagadora maioria de governos conservadores e neoliberais. Referindo-se ao novo e jovem presidente dos EUA, Pacheco troçava do futuro sem remissão da Esquerda com um soundbite que pegou: tudo não passaria de um efémero “orgasmo clintoniano”. O que veio a seguir é mais conhecido: Clinton acabou por presidir a um período de oito anos de prosperidade crescente e ininterrupta nos EUA e na Europa em geral, e deixou o seu nome na História como um dos últimos grandes líderes políticos – mas também como alguém que não era propriamente fiel.

Já sabemos que a História se repete sempre, e da segunda vez como farsa: vinte anos depois, não seria difícil estabelecer o paralelismo com a carreira de François Hollande, eleito Presidente em França com a missão – e mais do que isso, a promessa – de fazer virar a agulha do “pensamento único económico” vigente na Europa, repleto de opções que contribuíram para esta crise e para o seu arrastamento sem fim à vista, seis anos após o seu início. Seis longos anos, em comparação com os menos de quatro que custou à França (por exemplo) regressar ao crescimento económico após a Grande Depressão dos anos 30.

Hollande repete Clinton no que diz respeito às “amantes de Estado” – o Presidente comete infidelidades conjugais e os seus assessores protegem-no; os de Clinton avisavam-no quando Hillary estava por perto, os de Hollande conduzem-no de mota até a um pied-à-terre na rue du Cirque, a dois passos do Eliseu, onde o presidente emula as aventuras com actrizes dos seus antecessores. A política de relançamento económico, a Europa... a fidelidade? Todas atropeladas pelas rodas da mota.
Hollande teve um assomo. Convocou todos para uma grande conferência de imprensa, não para falar sobre a sua companheira internada num hospital, mas para nos avisar que vai atraiçoar também os seus princípios sociológicos e a sua base eleitoral aplicando em força as mesmíssimas políticas austeritárias que o seu rival Sarkozy aplicaria, e que a sua orientadora alemã, a chanceler Merkel, lhe dita ao ouvido: as empresas (não os indivíduos) vão obter uma redução de impostos que será paga com “cortes na despesa do Estado” (não especificados) até porque “é absolutamente necessário conter o défice” e “agir na economia do lado da oferta, porque a oferta vai criar a procura”. Isto numa altura em já são evidências que a) a austeridade está a destruir as economias muito para além do razoável, sem as reformar e b) o que está a travar o crescimento económico da França, como aliás o admitem os seus empresários com imensa capacidade instalada e não utilizada, é a debilidade da procura. Sem dinheiro, ninguém compra. E se mais provas fossem necessárias, basta olhar para uma inflação que ameaça tornar-se em deflação, de tão baixa.

Hollande, o infiel, anda a copiar o presidente errado: quem lidou com a economia do lado da oferta, desregulando e criando as bases para o colapso do sistema que vivemos hoje, não foi Clinton: foi Reagan. E se é para aplicar a velha e errada receita, os votantes preferirão sempre o original neoliberal à pálida cópia cor-de-rosa (juro que não é uma piada ao tipo de revistas que Hollande faz vender).

Cavalo de Tróia colado ao pára-brisas


O número de pessoas que decidem cometer um “suicídio facebook” não pára de aumentar. Claro, trata-se apenas de um nome dramático para a decisão individual de deixar de gastar tempo a olhar para a mais conhecida rede social – e muitas vezes, essa decisão é motivada por preocupações ligadas à própria privacidade, num desejo (vão) de evitar que a nossa vida esteja toda em linha, disponível ao alcance de um clique a quem quiser pagar pelos nossos dados (e muitíssimas empresas e governos fazem-no).

Quem diz facebook diz Google, Apple, Microsoft ou Yahoo; são tantos os escândalos relacionados com o uso ilegal, ganancioso, abusivo e/ou simplesmente desleixado que os gigantes globais da comunicação eletrónica fazem dos nossos dados, fotos, textos, correios e tudo o resto, que cada vez mais pessoas decidem que é tempo de dizer adeus à ditadura em linha e tentar viver sem contactos com estas companhias. Escusado será dizer que é tarefa dificíl – uma vida activa sem smartphone e computador/tablet começa a tornar-se complicada. E o esforço será provavelmente inglório...

Recuemos até 2011. A Apple procura desesperadamente limitar os danos à reputação da marca ao descobrir-se que a empresa não apenas armazena todas as localizações dos seus clientes através dos seus iPhones, como também as disponibiliza a terceiros. A empresa assegura “os dados são anónimos e não podem ser ligados a um utilizador específico” – mais tarde também se comprova que tal é mentira. Entretanto, a TomTom, empresa dos Países Baixos que construiu um império baseado em pequenos GPS para usar dentro do carro, descobre uma forma fácil de ganhar dinheiro: vender a localização constante e, mais importante ainda, a velocidade a que se deslocam os incautos que compraram os seus GPS à... polícia de trânsito. Que se apressa naturalmente a colocar radares fixos e móveis nos locais que a TomTom indica. Esta ainda tem mais um negócio para fazer: vender aos ingénuos automobilistas actualizações dos mapas com a posição aproximada dos novos radares que a própria empresa incentivou. Note-se, radares que não foram posicionados nos locais onde a taxa de ocorrência de acidentes é mais elevada (como seria o caso se mais segurança fosse o objectivo); foram-no sim nos trechos onde, mesmo que isso não acarretasse problemas, era possível andar mais rápido em relação ao limite (ou seja, nos locais mais rentáveis para os cofres da polícia). Foram anos de vacas gordas, carros rápidos e donuts com todo o tipo de coberturas para a polícia neerlandesa. Até que em Abril de 2011 a imprensa descobriu...
 
Perante a fúria dos horrorizados clientes, atraiçoados por aquele inofensivo aparelho colorido colado ao pára-brisas do carro, a TomTom pediu desculpa. “Não sabíamos que os dados iam ser usados para caçar os nossos clientes, mas agora sabemos que eles não gostam disso”, disse o administrador Goddijn, sem lágrimas de crocodilo. Imediatamente a seguir e durante dois anos, quase pareceu que ser vil e ganancioso teria castigo, pois as vendas, os lucros e a cotação da empresa caíram a pique. Mas a memória é curta e 2013, com Snowden, trouxe-nos a banalização da espionagem electrónica a qualquer momento. Num mundo em que o governo americano pode saber do que falei ontem com a minha namorada ao telefone, aumentar as multas por excesso de velocidade parece quase trivial, amador. Os cavalos de Tróia voltaram calmamente aos pára-brisas e aos nossos bolsos.

Ventos de mudança


No seu livro “O mundo em 2030” (escrito há seis anos, em 2007), o futurologista Ray Hammond pinta um quadro preocupante do planeta em que vamos viver num futuro próximo, uma espécie de nuvem negra que é ainda assim rodeada por uma aura prateada: desde logo, é suposto que o tanto o planeta como a Humanidade continuem a existir em 2030. Já não é mau.
 
Começou 2014 e estamos um passo mais perto do futuro. Mas há algo de diferente no ar. Antes, a simples menção da palavra “futuro” evocava imagens de discos voadores, cidades com elevadores silenciosos e teletransporte instantâneo; hoje é mais provável que provoque uma acrescida ansiedade sobre o desconhecido, uma angústia sobre, como dizia Harry Dean Stanton em Paris, Texas, “not knowing where the next check will come from” – não se saber de onde virão os próximos rendimentos. Mas há mais do que isso: uma angústia indefinida sobre o rumo que as nossas sociedades estão a tomar. Para a maioria dos europeus e dos americanos, a expectativa é que as gerações futuras vivam pior que a sua própria – e esta é uma profecia que já se está a rapidamente tornar realidade.

Atravessamos tempos de ruptura e rápida mudança; tudo parece transitório e incerto, e a velha ordem está enterrada, mas não sabemos o que surgirá no seu lugar – apenas sabemos que a Natureza tem horror ao vazio e logo, que uma nova hierarquia de valores mundiais prevalecerá. Será a das ditaduras totalitárias, a das “democracias musculadas” como na Rússia ou Turquia, ou a das democracias aparentes – compostas de falsas escolhas e permanente vigiadas – em que vivemos todos, no Ocidente e na maior parte do mundo? Ou nenhuma destas e alguma vez reencontraremos uma réstia de liberdade? 

Não sabemos, e é por isso que ninguém arrisca prever o que será 2014. Um estranho paralelismo com o ano de 1914: há precisamente cem anos, viviam-se tempos de uma estranha e relativa calma, a calma antes da tempestade que tudo mudou e tudo levou arrastado. Nos anos que se seguiram a 1914, com a grande guerra, a Europa perdeu, quiçá definitivamente, o lugar que detinha como centro do mundo – a luta que agora travamos, e que também se vai decidir nos próximos anos, é pela nossa relevância a nível mundial. E sobre esta questão central, qualquer optimismo parece exagerado: 2014 é o ano em que Bruxelas vai estar concentrada na sua dança das cadeiras (eleições para um Parlamento Europeu que estará prenhe de eurocépticos, mais a substituição de Barroso à frente da Comissão e de Van Rompuy à frente do Conselho), enquanto mais do nunca a Europa será conduzida, de forma tão relutante quão egoísta, a partir de Berlim. E nem a prometida libertação de Portugal das grilhetas da troika, a acontecer em Junho, é motivo de ardente antecipação: a situação macroeconómica não melhorou, logo o país terá de continuar ligado à máquina. A qual máquina? Talvez só mesmo a sra. Merkel, enquanto repousa a sua bacia partida a esquiar, possa responder. 

“O mundo em 2030” prevê que nesse ano os efeitos das alterações climáticas sejam já tremendos, com destaque para a força dos vendavais: ventos ciclónicos que provocarão estragos sempre crescentes. Ventos de mudança constante.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Legalizem-no

Um homem inesperado. Um homem que clama publicamente contra a obsessão desmesurada pelo dinheiro. Alguém que chega ao topo da sua carreira, numa posição de enorme poder e prestígio, e abdica de grande parte das regalias e mesmo do salário a que tem direito. Tudo isto escolhas que são coerentes com toda uma longa vida passada em defesa dos mais oprimidos, muitas vezes com grande sacrifício pessoal, para tentar tornar o seu país da América do Sul num lugar mais justo e menos desigual.

Poderia perfeitamente estar a referir-me ao cardeal Jorge Bergoglio, o argentino que se tornou o Papa Francisco e que, seguindo a filosofia de Francisco de Assis, tem dado provas de uma humildade e simplicidade inesperadas e refrescantes para o sumptuoso cargo. O Papa ousou mesmo, há três semanas, assinar uma análise crítica à persistente desigualdade económica no mundo como seu primeiro documento oficial. O texto contém capítulos intitulados “Não à nova idolatria do dinheiro”, “Não à economia da exclusão” ou ainda “Não à desigualdade que leva à violência”. E não poupa nas palavras em relação ao ponto em que nos encontramos: “Alguns continuam a defender teorias em como um mercado em rédea livre vai inevitavelmente levar a mais justiça e inclusão pelo mundo. Esta opinião, nunca confirmada pelos factos, revela uma confiança ingénua na bondade dos que detêm o poder económico. Entretanto, os excluídos continuam à espera”.

Um texto desassombrado pelo qual o Papa merece todo o respeito. Mas não é apenas Francisco quem quero destacar nesta altura natalícia, em que se celebra o (suposto) nascimento de um filósofo que há dois milénios já alertava para o poder nefasto da desigualdade económica. O primeiro parágrafo refere-se a José Mujica, um político extraordinário por vários motivos.

Mujica é presidente do Uruguai. Mas este idoso pachorrento e mal barbeado, apesar de representar um país com uma economia que está a crescer agradavelmente a uma taxa de 3% ao ano, não vive num luxuoso palácio presidencial, mas sim na sua pequena casa rural com um quarto; não se desloca a alta velocidade numa limusine negra rodeada de motos da polícia, mas sim conduz um velho VW carocha, além de viajar de avião em classe económica; não se queixa de apenas receber 10000 euros de reforma, mas pelo contrário distribui por pobres e necessitados 75% do seu salário; e acaba de anunciar querer adoptar 30 ou 40 crianças, a quem tenciona ensinar as artes de trabalhar a terra.

O desapego material de um líder político é admirável, mas ainda mais relevante são as políticas liberais e progressistas que esse líder vai aplicando. A mais recente (e surpreendente) provém de uma lei que vai regular a produção, venda e consumo de cannabis, uma “experiência” – a modesta descrição do próprio presidente – que vai retirar os lucros dos traficantes, tratar o problema ao mesmo nível do álcool, e libertar a polícia para lidar com crimes mais graves. Simultaneamente, abandona a hipocrisia da proibição total e responsabiliza cada cidadão pelas suas escolhas, em vez de ter o Estado-avózinha a tratar toda a sua população como crianças.

O pequeno Uruguai ouviu os gritos globais de “legalizem-na!” (em relação à marijuana). Mas isso é o menos; o que me apetecia mesmo era dizer: legalizem Mujica nos outros países.

A narrativa do “gastámos muito”

“Vem-nos à memória uma frase batida”, canta o trovador. O primeiro-ministro de Portugal proferiu ontem uma dessas frases muito batidas: “vamos demorar muito tempo a pagar o nosso despesismo dos últimos 20 anos”. É uma ideia clara, forte, que ressona bem junto de eleitores traumatizados com cortes no seu rendimento e nos serviços públicos de que usufruem. Só há um pequeno problema: trata-se de uma mentira, e não é bem intencionada.

Passos Coelho poderia ter razão – se se estivesse a referir ao regabofe em que vive a antiga capital do império, Lisboa. Se os 20 anos incluíssem o Centro Cultural (ou Comercial) de Belém, os negócios obscuros da Expo98, os cerca de 1000 km de auto-estradas SCUT disponíveis na região do Vale do Tejo, as centenas de milhar de funcionários públicos concentrados na capital, as suas estações de metro e hospitais novos e subutilizados enquanto que no resto do país eles encerram, bom, aí a sua análise seria desgraçadamente certeira. Mas conhecendo nós como conhecemos os nossos actores políticos, a frase não passa de uma variação da conhecida narrativa “andámos a viver acima das nossas possibilidades” que nos tem vindo a ser impingida há alguns anos pelos arautos da austeridade – estando ela já completamente desacreditada.

Nunca é demais repeti-lo: a crise em que vivemos não foi provocada por desmesurada despesa pública. Mais uma vez: não foi provocada por demasiada despesa pública. Sobretudo sabendo que o Estado gasta mais em juros da sua dívida (que, sendo hoje em dia bem maior do que há cinco anos, se vai tornando efectivamente impagável...) do que aquilo que investe em educação ou investigação tecnológica, por exemplo. Em 2007, todos os países da zona euro (à excepção da Grécia) tinham
indicadores económicos sólidos, relativamente baixos défices, dívidas controladas. Espanha e Irlanda tinham mesmo superavits orçamentais e estavam assim em melhor posição fiscal que a Alemanha ou a França, por exemplo, e Portugal também não estava longe.

Aquilo que despoletou o marasmo em que, exportadores alemães à parte, vivemos hoje na Europa foram os resgates com dinheiros públicos feitos para salvar bancos privados e, em menor medida, a perda de receita de impostos provocada pela drástica diminuição da actividade económica directamente decorrente da imposição de uma austeridade draconiana – esta é renegada hoje por grande parte dos seus próprios criadores, mas continua em vigor e sem fim à vista para o túnel. Se o diagnóstico está errado, não admira que a cura receitada também o esteja.
A frase batida do primeiro-ministro atira-nos mais areia para os olhos, e é pena. Após tanto tempo de troikas, o que os europeus precisam é das boas notícias que nunca chegam; não de mais radicalismo ideológico travestido em fantasmas do passado.