Isto passou-se em 2005. A polícia limitou-se então a prender dois jornalistas do tablóide e abafou assim o que toda a gente estrategicamente colocada no meio – jornalístico, político ou da justiça – sabia perfeitamente: havia escutas ilegais. E elas aproveitavam ao império de um homem tão sinistro como poderoso, Rupert Murdoch, o magnata da imprensa que extirpou a mesma de valores éticos, e também o Gepeto que tantos Pinóquios políticos usa como fantoches para as suas pantomimas ultraconservadoras. O conluio de interesses cruzados entre políticos vindos do nada e fabricados pelos media, os mesmos media que depois recebem compensações políticas (Murdoch preparava-se agora para receber autorização do parlamento para abocanhar a mais lucrativa plataforma televisiva britânica), tudo perante o olhar complacente de uma polícia que recebe dinheiro para passar as suas descobertas confidenciais aos jornais, podia continuar alegremente. Por exemplo no ano passado o campeão eleito pelos jornais de Murdoch, David Cameron, chegou a primeiro-ministro e logo escolheu para porta-voz do governo o antigo director do News of the World, Andy Coulson.
Em princípio esta história terminaria aqui. Só que um homem corajoso, Nick Davies, recusou-se a virar a cara e encolher os ombros. Ele continuou a investigar, e tal como no caso Watergate teve a sua “garganta funda” (uma fonte bem informada e anónima) que lhe foi revelando quão fundo estava tocado todo o sistema. Numa festa, Davies perguntou a um comissário da polícia: “há oito pessoas que acham estarem a ser escutadas, mas quantas é que existem realmente?” “Oh, milhares!” foi a jovial resposta. A lista de um dos jornalistas inicialmente presos continha quase 4000 números de pessoas “mediáticas”. Um deles era o de uma rapariga de liceu que estava desaparecida – e tinha sido assassinada. O jornal apagou as mensagens no seu correio de voz para que ele não ficasse cheio, o que teve o efeito de dar esperanças aos pais de encontrar a sua filha com vida. Nem assim, no entanto, o News of the World ganhou vergonha; foi preciso que os anunciantes começassem a cancelar em massa os contratos com o jornal para que este, abrupta e finalmente, decidisse fechar portas na semana passada.
Se Murdoch e os seus esbirros, juntamente com a execrável imprensa tablóide, perderem influência na nossa sociedade, o mundo só pode tornar-se um lugar melhor: tal é o efeito bom do escândalo. O efeito mau, esse, é provocado por mais uma revelação do nível de podridão avançada a que chegou o sistema sociopolítico em que vivemos, que até tácticas famigeradas pela PIDE – tais como escutas ilegais – permite: o nosso nível de cinismo desencantado torna-se ainda mais empedernido.




O processo eleitoral também serviu para carimbar a alternância democrática que encontrou, quase que por acaso, Pedro Passos Coelho no lugar certo e momento certo. O novo primeiro-ministro precisa agora de provar que é também o homem certo; uma incógnita num político de carreira que não suscitou grande entusiasmo nem mesmo entre as suas hostes. Supõe-se que os governantes primeiro demonstram qualidades, dimensão e ambição para finalmente serem eleitos como tal, mas Passos Coelho inverte a lógica: ele terá de rise to the occasion, ascender à altura da oportunidade que detém e do capital de confiança que lhe foi concedido. O desafio é duríssimo, sobretudo para quem andou a prometer "mudança": sabendo sempre que, entre abstenção recorde, brancos e nulos, e votos nos partidos rivais, só dois em cada dez portugueses com idade de votar o fizeram no seu PSD, o novo PM precisa de recuperar a (fortemente abalada) confiança do eleitorado na política, a crença das pessoas num futuro mais desejável, a legitimidade dos sonhos e da motivação dos que ainda os têm. Precisa de gerir uma coligação com o CDS, liderado por um político instável e sem conhecimentos de economia; precisa de ultrapassar, rápida e visivelmente, a sua própria inexperiência, tão evidente até agora. E tudo isto enquanto aplica um programa de governo desenhado pelo FMI que, entre algumas medidas óbvias e que já estavam atrasadas ontem (como a privatização da RTP, por exemplo), vai na sua sanha da mítica "austeridade" fazer encolher a economia, tornando mais enfermo o doente que se quer salvar. Está a acontecer na Grécia, hoje.