“O que é que os romanos fizeram por nós?”, diz o homem alto, com vestes que o localizam na Palestina de há dois mil anos atrás. O tom peremptório identifica um discurso político – este homem procura convencer o seu pequeno público. “O império romano tirou-nos tudo, a nós e aos nossos pais. É preciso desmantelá-lo. O que é que alguma vez esses romanos fizeram por nós??”, insiste o homem. Um dos que o escutam levanta-se a medo. “O aqueduto”, responde. Outro adiciona: “a irrigação!” Um terceiro acrescenta “as estradas!”, e uma a uma todas as grandes dádivas civilizacionais dos romanos vão sendo referidas: a rede sanitária, a medicina, a educação, o vinho, a segurança, os banhos termais. Quando um dos presentes refere o argumento definitivo – “a Paz” – o desautorizado líder perde a paciência: “oh, cala-te!”
A cena cómica é muito famosa, o filme também: “A vida de Brian”, obra-prima controversa dos Monty Python, o velhíssimo grupo de comediantes britânicos que decidiu voltar ao activo este Julho. A sátira política aqui contida não é demasiado subtil, mas é tão certeira e original que serve de modelo a muitas perspectivas. A da União Europeia é claramente a de se identificar com o império romano da história.
A poucas horas das eleições europeias de 2014, é compreensível que o Parlamento Europeu se sinta algo injustiçado: após as suas mais de mil leis europeias adoptadas no último quinquénio, o ambiente que se vive é amargo, os eleitores alternam entre o desencanto, a revolta e a tentação do populismo extremista. No Reino Unido e em França, as velhas grandes potências ocidentais que tantas vezes serviram de baluarte à democracia e foram as primeiras a perceber que esta corria perigo devido ao nazismo, o maior número de votos vai ser dirigido a dois partidos racistas, discriminatórios e demagogos de inspiração fascista.
A tentação é a de combater este horror com doses acrescidas de discurso positivo. O que é que a UE alguma vez fez por nós? Pois bem, fundos regionais, voos e telefonemas muito mais baratos, protecção alimentar e dos consumidores, melhores padrões ambientais, o mercado único, a livre circulação de pessoas e capitais… a Paz. A lista poderia ser muito mais longa e é de respeito. Mas sofre de dois defeitos profundos: desde logo é demasiado técnica e especializada para entusiasmar o comum dos mortais, para quem todas estas vantagens não parecem importantes até que elas desapareçam (nada está nunca garantido…).
Mas sobretudo, enfatizar as conquistas do passado simplesmente não chega para assegurar a relevância presente e futura. Mergulhada em várias crises – económica, filosófica, de confiança – a Europa precisa de novos desígnios para se poder relançar, solidariamente, e voltar ao centro das preocupações dos seus cidadãos distraídos por querelas intestinas ou por esse pormenor da luta pela sobrevivência. A pergunta certa é “o que poderá a Europa fazer por nós?” E a resposta é “muitíssimo”. Mas tudo começa por votar, e votar bem, no domingo.
terça-feira, 20 de maio de 2014
terça-feira, 13 de maio de 2014
Voltam os -ismos
Os
tempos não andam fáceis. As dificuldades materiais são um grande pretexto para
o reaparecimento dos fantasmas de qualquer sociedade. Quando é suposto vivermos
em tempos “pós-ideológicos”, em que ninguém veste a camisola de um partido por
convicção mas apenas por eventuais benefícios, em que não há totalitarismos, não
faltam pelo contrário exemplos do crescimento de muitos outros “ismos” que vão
corroendo a forma como nos relacionamos enquanto humanos. O egoísmo, o
isolacionismo, o segregacionismo campeiam e parecem perseguir-nos.
… ou,
pelo contrário, surgirá essa sensação precisamente pelo facto de termos
evoluído como sociedade, existindo hoje um escrutínio muito mais apertado e sendo
agora considerados como inaceitáveis comportamentos que há alguns anos
passariam quase despercebidos? Há duas semanas, a pretexto de uma banana,
escrevi aqui sobre o racismo no desporto e afirmei que a feia batalha para o
erradicar está muito longe de estar ganha (há dois dias foi atirada uma faca
para perto de dois jogadores negros do AC Milão). Desta vez, um outro
comportamento troglodita irrompeu à superfície através do futebol – o sexismo,
ou para ser mais preciso, a misoginia.

A
discriminação por género é um mal profundo na sociedade europeia – com os
Estados-membros de Sul e de Leste a ficarem particularmente mal na fotografia. Os
números são avassaladores: as mulheres ganham em média menos 8 mil euros por
ano que os homens. Menos de 3% dos presidentes de companhias são mulheres, mas
três quartos dos trabalhadores em part-time
são mulheres… e no entanto, estas já constituem 60% daqueles que hoje detêm um
curso superior.
Saída perfumada
Portugal está em festa! O seu programa de resgate vai
terminar em breve. Ou seja, o país usou durante os três últimos anos os 78 mil
milhões de euros que lhe foram emprestados pelo Banco Central Europeu, pela
Comissão Europeia e pelo FMI, a famigerada troika; para o fazer, entregou a
capacidade de decidir às entidades externas, tornou-se um satélite económico.
Mas isso acabou! A partir de agora vamos pedir emprestado aos mercados quando
for preciso, não precisamos de mais dinheiro alheio. A diabolização ética do
conceito de dívida (tão do agrado dos novos suseranos alemães, que têm uma e a
mesma palavra para “dívida” e “culpa”) inspirou directamente o nome escolhido
para esta grande vitória: como anunciou o governo português, “escolhemos a
saída limpa” – nada de sujidades, de conspurcação, de nódoas, de pecado;
somente a redenção que a pureza da limpeza nos confere!
Os pontos de exclamação do parágrafo anterior estão
carregados de ironia. Portugal não está em festa, está pelo contrário
deprimido/amargurado/ desencantado/exangue. Das três hipóteses que a partir de
Maio se colocavam para o financiamento corrente do país – mais dinheiro
emprestado através de um segundo resgate, uma ida aos mercados resguardada por
um aval da troika, ou a tal “saída limpa” em que essa ida aos mercados é feita
sem rede – a escolha desta última não foi feita pelos portugueses, mas sim
pelos seus credores; ninguém está com vontade de negociar novos empréstimos,
mesmo que estes rendam aos credores quase 30 mil milhões de euros em juros como
estes fizeram (o que não chega; agora a Finlândia exigiria a Portugal a
hipoteca de activos para garantir um novo empréstimo, e presumo que seria
difícil vender-nos a ideia de um palácio da Pena ou do castelo de Guimarães
hipotecados…). Pelo contrário, a “Europa” – com aspas, porque esta Europa
conjuntural da demagogia e do egoísmo não é a genuína, não passa de um abastardamento
da bela ideia original de prosperidade conjunta – precisava muito de um caso de
sucesso da austeridade para poder mostrar nas eleições que se aproximam.

Somos todos macacos
Uma imagem vale mil palavras. A imagem dada por Dani Alves, um jogador de futebol, no passado domingo é bem capaz de ter feito mil vezes mais pela causa da luta anti-racismo do que mil artigos, argumentos ou provas científicas.
No domingo,
a equipa de Dani Alves, o Barcelona FC, foi jogar a Villareal para a Liga
espanhola, no mesmo país onde há alguns anos um estádio inteiro, em Madrid,
insultou os jogadores negros da selecção inglesa, o mesmo país onde Samuel
Eto’o ameaçou abandonar um jogo onde era constantemente insultado. Dani Alves é
brasileiro, e como tal, um típico produto da maravilhosa miscigenação de todos
os tons de pele iniciada pelos portugueses na antiga colónia. Ou seja, é o que
se designa por “mulato” – uma das palavras universais criadas pela língua
portuguesa, mas que se tem tornado politicamente incorrecta noutras línguas.
Alguém
na bancada não achava que um mestiço pudesse estar ali a proporcionar-lhe um
espectáculo e decidiu insultá-lo de macaco. Aproveitando a proximidade do
jogador para marcar um canto, atirou-lhe uma banana. O jogador não hesitou: em
poucos segundos, apanhou a banana e… comeu-a. Como que engoliu o racismo. Em
seguida, com toda a naturalidade do mundo, marcou o canto e o jogo continuou. A
sua equipa, que perdia, acabou por dar a volta e ganhar o jogo. Foi tudo tão
perfeito que encenado não sairia melhor.

Não se
pense que esta vergonha é um exclusivo de Espanha ou do futebol: um dia antes,
veio a público uma discussão entre o dono dos LA Clippers – uma das melhores
equipas de basquetebol da actualidade – e a sua namorada, 50 anos mais jovem e
ironicamente com origens mexicanas e africanas. Donald Sterling diz na
gravação: “tens mesmo de tornar públicos os teus encontros com esses negros, e
trazê-los para os meus jogos de basquetebol?” Uma milionária equipa de Los
Angeles, uma das comunidades mais diversas do mundo, é detida por um velho
racista – e isto num desporto como o basquetebol em que a maior parte dos
melhores jogadores, bem como treinadores, árbitros, adeptos, anunciantes, são
de origem africana. O escândalo está a ser de tal ordem que o treinador dos
Clippers não vai continuar, os jogadores treinam tapando o símbolo do clube, e
a NBA considera a hipótese de simplesmente confiscar a equipa (uma empresa que
vale milhões de dólares). Até Obama, em visita de Estado à Ásia, comentou o
caso chamando a Sterling “um tolo ignorante”.
Crónica de uma morte anunciada
Parece
que todos os jornais tinham preparado os seus obituários para Gabriel García
Marquez (como imagino que eles também estejam preparados para o seu amigo Fidel
Castro – a diferença é que este último se tem recusado teimosamente a morrer). García
Marquez, o enorme escritor colombiano, tinha 87 anos, estava fisicamente
decadente e enfermo. Na quinta-feira de Páscoa, o mago apagou-se.
Eu não
tinha preparado nenhum obituário. Nunca podia imaginar que GGM, ou “Gabito” como
lhe chamava sempre o seu irmão Jaime, não fosse eterno, como se o autor fora
uma personagem real dos seus teatros mágicos em forma de romance. Sublevado
pelos seus mundos pintados a cores tão vivas que chegam a surreais, encantado
pelas tramas entrelaçadas dos seus romances que se desenrolam em lugares onde
nunca estive e que no entanto fazem parte integrante da minha imaginação e das
minhas memórias, eu não vi os sinais inequívocos que apontavam para o fim físico
do último génio da literatura. Qual Santiago Nasar, que em “Crónica de uma
morte anunciada” (a dele próprio) também se recusa a ver todos os indícios que
apontam para o seu fim enquanto toda a cidade já o sabe de antemão, também eu
assisto ao desenlace fatal sem realizar nenhuma das acções que tinha desejado –
tal como escrever ao Mestre, ou visitar a sua Colômbia natal para melhor
compreender o “realismo mágico” dos seus livros.
Para
definir “realismo mágico” (uma expressão que considerava enganadora, porque
para GGM tudo o que escrevia se baseava na realidade), o escritor jornalista recordar-se-ia
das histórias fantásticas da avó Tranquilina, um oráculo fantasmagórico e
supersticioso; ou da descoberta da obra do então recentemente desaparecido
Kafka, cuja “Metamorfose” começa com um homem que acorda e se vê repentinamente
transformado em insecto. É da fantasia realista que parte a aclamada obra
romanesca do Nobel da Literatura de 1982, e estou de acordo com Miguel Esteves
Cardoso quando este diz que é quase uma injustiça comparar GGM com Cervantes –
afinal, “Cem anos de solidão” é muito melhor que “D. Quixote”.
Para mim,
no entanto, García Marquez é mais importante como jornalista escritor. O Mestre
dizia que “a reportagem é um conto completo” e no seu jornalismo, feito de
imaginação e honestidade (sim, é possível tudo conjugar, mas é preciso ser
Gabriel García Marquez para fazê-lo), aplica aquilo em que acredita. Tal como
nos seus romances, as suas reportagens dão-nos um argumento e também recriam um
novo universo. O entorno ajuda a explicar como se chegou onde se chegou, de
forma minuciosa, lógica talvez, mas não menos fantástica por isso; a diferença
para o jornalismo robótico, meramente tarefeiro, que tomou conta das redacções
dos media é gritante. Um bom exemplo é o da reportagem sobre a visita clandestina
ao Chile-de-Pinochet do realizador exilado Miguel Littin. O cerne da notícia é
evidente – um opositor de renome arrisca prisão e tortura ao regressar ao seu
país em ditadura – mas García Marquez escolhe contar-nos situações assombrosas
para melhor nos demonstrar o que está em jogo e ilustrar os demónios interiores
da personagem: por exemplo que Littin é obrigado a cortar a barba para se
disfarçar, mas considera que a sua personalidade desaparece juntamente com a
barba – e nunca chega a aceitar a sua nova cara, nem consegue que ela seja
aceite pela sua família ou amigos. A reportagem é comovente.
Tenho
pena que García Marquez não tenha sido enviado como jornalista a Portugal em
Abril de 1974. A nossa revolução fascinava-o, como o fascinavam todas as
histórias de sublevação dos perdedores contra as injustiças. Até por isso a
morte de Gabito estava anunciada – este mundo encerra cada vez menos histórias
dessas.
O saudosista
Ao ser empossado primeiro-ministro em 2002,
Durão Barroso recebeu um elogio público da sua esposa, que o comparou a um
cherne (um peixe que habitualmente lidera o seu ecossistema). Claro que a
alcunha pegou em Portugal. Mas em Bruxelas, após dez anos como presidente da
Comissão Europeia e devido a outras qualidades políticas que não a liderança, o
agora denominado José Manuel Barroso ganhou outro cognome: “o camaleão”. Um
animal que muda de cor para melhor se adaptar – e confundir com – o ambiente em
que está inserido.
Esta semana, o ainda presidente da Comissão (que
ainda não desvendou qual será o próximo passo da sua carreira política) foi a
Lisboa e, durante uma cerimónia em que entregou um prémio europeu ao seu antigo
liceu, declarou que “antes
do 25 de Abril de 1974, e apesar de algumas liberdades cortadas, havia na
escola uma cultura de mérito, exigência, rigor, disciplina e trabalho".

Claro que Durão Barroso sabe tudo isto. Apenas
considera que a melhor cor é a do populismo, julgando que os portugueses querem
ouvir uma versão do estafado “no meu tempo é que era bom, e estes putos de hoje
em dia não aprendem nada”. Qualquer um que conheça minimamente a realidade
escolar sabe que essa ideia não tem qualquer ligação com a realidade – mas quem
sabe, talvez dê votos.
Os últimos dias da música moderna
Os
Nirvana desapareceram há exactamente 20 anos, quando Kurt Cobain se suicidou
com um tiro na cabeça no chamado “apartamento da sogra”, o pequeno quarto
situado por cima da garagem na sua opulenta mansão em Madrona, um subúrbio de
Seattle que ironicamente afixava à entrada um vistoso letreiro: “Zona livre de
drogas”. Não era o caso certamente da mansão dos Cobain, onde o vício da
heroína não largava o pai (nem a mãe) da pequena Frances Bean, de 19 meses de
idade. Kurt, que afirmava ter começado a consumir a droga para combater as suas
terríveis dores de estômago, gastava nos últimos dias da sua vida mais de 300
euros por dia só para sustentar o vício – um facto que não é possível dissociar
do trágico desenlace dos acontecimentos.
Cobain
disparou o gatilho a 5 de Abril, mas o seu corpo com a cabeça esfrangalhada (a
identificação policial teve de ser feita com recurso às impressões digitais) só
foi encontrado a 8 de Abril de 1994, uma daquelas datas-charneira que todos os
que eram jovens naquela altura lembram – “onde estavas quando soubeste…”. Foi
há duas décadas, o que em si já é um choque, porque elas passaram mesmo a
correr.

A raiva
genuína, e sobretudo o inegável talento, tornaram os Nirvana primus inter pares – os príncipes da
geração X. Os gritos de Cobain continham em si o desespero, o abandono e a
futilidade da existência, mas também as esperanças de uma mole humana que, nas
sociedades ocidentais, lhe compartilhava a alienação. Claro que não era tudo, e
ainda hoje Dave Grohl, então o baterista dos cabelos longos, insiste: “As
pessoas leram a biografia, conhecem o contexto, é fácil imaginar que havia uma
nuvem negra permanente a acompanhar-nos. Mas a verdade é mais complicada que
isso – nós adorávamos fazer música”. O próprio Cobain começa o que viria a ser
a sua última obra, In Utero, com a
maior das ironias: “A angústia adolescente compensou bem – mas agora estou
velho e aborrecido”.
Hoje
sabemos mais: os Nirvana representam simultaneamente o pináculo e o canto do
cisne da relevância da música moderna. Há 20 anos, um revólver estilhaçou o
último dos movimentos geracionais – a revolução digital fez o resto. Hoje,
vivemos num mundo musical completamente fragmentado, eclético, mesclado; há
milhares de bandas, géneros, estímulos, gostos. Por muitos bilhetes para
concertos de estádio que os grandes nomes ainda vendam, ninguém conseguirá –
nunca mais – pegar numa bandeira e fazer toda uma geração acreditar que a
música moderna pode ser mais que mero entretenimento. Essa ilusão já viveu os
seus últimos dias.
Chega de segredinhos
Sente esta sensação de maior pureza e frescura no ar? Não é só a primavera. Respira-se um pouco melhor no Luxemburgo desde a semana passada e podemos agradecê-lo à Europa.
Falo metaforicamente - o ar continua tão poluído como antes. Mas respira-se melhor porque foi tomada a decisão certa, ética e moralmente a única correcta, de aprovar a sentença de morte do sigilo bancário na União Europeia. Decisão essa tomada na semana passada em Bruxelas por unanimidade dos 28 - o que significa que também Luxemburgo e Áustria votaram a favor, depois do último argumento para arrastar os pés, a existência de regimes fiscais igualmente obscuros na Suíça e outros quatro pequenos países, estar a caminho de ser neutralizado por acordos bilaterais assinados ainda este ano.
A decisão é histórica, porque representa (em princípio…) o fim de um longo caminho de vergonha e evasão - evasão fiscal, evasão às responsabilidades, evasão à justiça. O Luxemburgo, que durante décadas sabotou qualquer tentativa de lutar contra o segredo bancário por lucrar imenso com o turismo fiscal de milhares de cidadãos alemães, belgas, franceses, italianos (sobretudo estes, mas na verdade oriundos de todo o mundo) que procura(va)m usar o Grão-Ducado como forma de evitar os impostos devidos sobre os seus rendimentos nos países de origem, é conivente com este e outros crimes: de facto, estão aqui escondidos rendimentos e activos cuja origem é melhor ninguém mesmo conhecer de todo…
A situação presente, com fim marcado para 31 de Dezembro deste ano, era boa para os sectores financeiros dos dois países prevaricadores; era péssima para os tesouros dos países vizinhos, má para a Europa como um todo, corrosiva para o resto do mundo que sofre em menor ou maior grau com a praga da fuga de capitais. Estimativas conservadoras apontam para que a cada ano a factura dos impostos perdidos para a evasão, só na Europa, seja de 850 mil milhões de euros, um valor astronómico que seria suficiente para resolver todas as crises de dívidas soberanas e proporcionar muito melhores serviços públicos aos cidadãos. Parte desse dinheiro, sabemo-lo bem, está guardado no Grão-Ducado - talvez um pouco menos agora que a “praça financeira” já teve algum tempo para se preparar para o golpe, enquanto o país discute finalmente (mas tarde) os novos caminhos económicos a trilhar.
Não deixa de ser uma curiosa coincidência - para quem nelas acredite - que a directiva europeia que estabelece a troca automática de informações fiscais seja desbloqueada pouco tempo depois de um dos seus grandes adversários de longa data, Jean-Claude Juncker, tenha abandonado o poder. E não deixa de ser altamente irónico que o mesmo Juncker seja agora candidato a presidir à Comissão Europeia, precisamente a instituição que mais se bateu pelo fim do sigilo bancário. Mas mesmo que eventualmente ganhe, Juncker vai chegar tarde… o sistema financeiro acaba de se tornar ligeiramente mais justo, e não haverá marcha-atrás.
Falo metaforicamente - o ar continua tão poluído como antes. Mas respira-se melhor porque foi tomada a decisão certa, ética e moralmente a única correcta, de aprovar a sentença de morte do sigilo bancário na União Europeia. Decisão essa tomada na semana passada em Bruxelas por unanimidade dos 28 - o que significa que também Luxemburgo e Áustria votaram a favor, depois do último argumento para arrastar os pés, a existência de regimes fiscais igualmente obscuros na Suíça e outros quatro pequenos países, estar a caminho de ser neutralizado por acordos bilaterais assinados ainda este ano.
A decisão é histórica, porque representa (em princípio…) o fim de um longo caminho de vergonha e evasão - evasão fiscal, evasão às responsabilidades, evasão à justiça. O Luxemburgo, que durante décadas sabotou qualquer tentativa de lutar contra o segredo bancário por lucrar imenso com o turismo fiscal de milhares de cidadãos alemães, belgas, franceses, italianos (sobretudo estes, mas na verdade oriundos de todo o mundo) que procura(va)m usar o Grão-Ducado como forma de evitar os impostos devidos sobre os seus rendimentos nos países de origem, é conivente com este e outros crimes: de facto, estão aqui escondidos rendimentos e activos cuja origem é melhor ninguém mesmo conhecer de todo…
A situação presente, com fim marcado para 31 de Dezembro deste ano, era boa para os sectores financeiros dos dois países prevaricadores; era péssima para os tesouros dos países vizinhos, má para a Europa como um todo, corrosiva para o resto do mundo que sofre em menor ou maior grau com a praga da fuga de capitais. Estimativas conservadoras apontam para que a cada ano a factura dos impostos perdidos para a evasão, só na Europa, seja de 850 mil milhões de euros, um valor astronómico que seria suficiente para resolver todas as crises de dívidas soberanas e proporcionar muito melhores serviços públicos aos cidadãos. Parte desse dinheiro, sabemo-lo bem, está guardado no Grão-Ducado - talvez um pouco menos agora que a “praça financeira” já teve algum tempo para se preparar para o golpe, enquanto o país discute finalmente (mas tarde) os novos caminhos económicos a trilhar.
Não deixa de ser uma curiosa coincidência - para quem nelas acredite - que a directiva europeia que estabelece a troca automática de informações fiscais seja desbloqueada pouco tempo depois de um dos seus grandes adversários de longa data, Jean-Claude Juncker, tenha abandonado o poder. E não deixa de ser altamente irónico que o mesmo Juncker seja agora candidato a presidir à Comissão Europeia, precisamente a instituição que mais se bateu pelo fim do sigilo bancário. Mas mesmo que eventualmente ganhe, Juncker vai chegar tarde… o sistema financeiro acaba de se tornar ligeiramente mais justo, e não haverá marcha-atrás.
Mr Obama goes to Europe
O cenário é de uma feira mundial de vinhos, o tempo é o
de há alguns anos atrás. Um homem, rezam algumas versões envergando um largo
chapéu de cow-boy (mas isso já soa a
embelezamento do que já é por si uma boa história), aproxima-se do stand do Instituto dos Vinhos do Douro e
do Porto e exclama confiante em inglês de cerrado sotaque americano: “boa
noite. Apresento-me, sou o maior produtor de vinho do Porto do mundo!”
Os profissionais portugueses não prestaram grande atenção
ao estranho californiano. Mas ele falava a verdade: em volume, aquele homem era
realmente o maior produtor individual de “vinho do porto”. Não o verdadeiro
feito com touriga nacional nas encostas do Douro, mas sim uma versão vinda dos
vales da Califórnia, feita com uvas cabernet sauvignon ou zinfandel às quais
são adicionados outros produtos (como água ou açúcar), ou seja uma zurrapa
muito distante do néctar oriundo da mais antiga região demarcada do mundo
(1756), mas ainda assim, “port wine” (como diz no rótulo).
Recordei este episódio a propósito da visita à Europa de
Barack Obama, o actual presidente dos Estados Unidos, que no momento em que
estas linhas são publicadas deve estar na Flandres visitando um cemitério
americano da Grande Guerra, para depois se reunir em Bruxelas com Barroso e Van
Rompuy para falar sobre a Ucrânia, sim, mas também sobre o TTIP - ou, para usar
a sigla portuguesa, a PTCI.
A Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento é um
gigantesco tratado entre os dois maiores blocos económicos do mundo, a Europa e
os EUA, que está a ser apressado entre grandes corporações e políticos muito
pouco desinteressados numa tentativa que tudo seja assinado e entre em vigor
antes que os cidadãos se dêem conta do tremendo impacto que este documento terá
nas suas vidas.
O acordo mudará a economia europeia - e a mundial - de
forma profunda e irreversível; terá implicações tremendas a nível ambiental, do
emprego, da protecção dos consumidores, da privacidade dos cidadãos, da
crescente vulnerabilidade dos Estados face às multinacionais sem rosto. E
permitirá mais comércio - em princípio (na verdade experiências anteriores,
como o NAFTA, não demonstram um aumento do comércio devido a um acordo deste
tipo). Mas estas implicações ficarão para outro artigo.
Por hoje fiquemo-nos pelas palavras de um alto
funcionário europeu sobre as negociações: “Os EUA são completamente contra as
Indicações Geográficas Protegidas”. Agora imaginemos um mundo em que a Europa,
como sempre, cede em mais este ponto essencial dos seus interesses: o nosso cow-boy inunda os supermercados com
vinho barato e doce a dizer “porto”; outros cow-boys
parecidos fazem o mesmo com “champanhe” fabricado numa garagem, ao lado de
caixotes com “mozzarela” e “feta” ou “azeite alentejano” que nunca tiveram
qualquer contacto com a bacia mediterrânica… é este mundo imaginário que está a
ser criado, hoje mesmo, em Bruxelas. A não ser que
acordemos.
Lucros privados, prejuízos públicos
Ao conquistar a pequena cidade de Zela na Ásia Menor, Júlio César tornou-se imperador de todo o mundo romano conhecido. O relato da sua vitória que levou ao Senado, pleno de arrogância na sua falsa simplicidade, ficou para a História: “Veni, Vidi, Vici” – vim, vi e venci. Todos a partir dali prestariam o tributo fixado pelo ditador e arrecadado pelos questores.
Se eu fosse o maior accionista da empresa francesa Vinci, era rapaz para usar como marketing o jogo de palavras um tanto ou quanto piroso: veni, vidi, Vinci. Não apenas porque a Vinci, exploradora (por exemplo) de parques de estacionamento na capital luxemburguesa e em mais 12 países, já tem uma imagem pirosa e um slogan destes ficar-lhes-ia a matar, mas também dado que a situação da empresa no mercado é curiosamente similar à do império romano: poderosa, monopolista, exigindo tributos exorbitantes aos seus súbditos.
Este enorme conglomerado encontrou formas de ganhar dinheiro muito menos trabalhosas que a original (a empresa inicial, criada no século XIX, é do sector da construção). O negócio dos parques é sintomático: em conluio com as câmaras municipais e a sua sanha persecutória ao automóvel, a empresa privada obtém baratinho algumas parcelas de espaço público (até servem prédios devolutos ou inacabados), pinta umas linhas coloridas no pavimento, instala cancelas que abrem mediante o pagamento do dízimo, e pronto: é só sentar no sofá e esperar que os fiscais à caça de multas – que em algumas cidades são subcontratados à própria Vinci – façam o resto para angariar clientes. Um pequeno parque de 250 lugares que cobre 5 euros à hora (há-os ainda mais caros) tem potencial para arrecadar ao fim de um só mês… 930 000 euros!
Mas estes ainda são montantes irrisórios comparados com o ramo das portagens em autoestradas ou com o próximo passo lógico – lançar a empresa na gestão de aeroportos onde, aí sim, é possível agir como monopolista, tornando as margens de lucro verdadeiramente apreciáveis.
Vítima ideal? Portugal. Aeroportos já construídos (pagos por impostos) e modernos (o do Porto vencendo mesmo prémios internacionais de qualidade), mais de 30 milhões de passageiros, e um Estado tão depauperado que nem hesita em liquidar os seus activos mais valiosos, abdicando de os rentabilizar. Assim, a Vinci pagou, no ano passado, 3 mil milhões de euros para comprar a ANA, empresa que gere todos os 10 aeroportos portugueses. Para o português médio, o negócio é triplamente ruinoso: primeiro, a cidade de Lisboa “vendeu” ao Estado os terrenos onde o aeroporto sempre se encontrou, mas o contribuinte português nem usufruiu dessa sensação, dado que este foi alienado em seguida; o proveito da venda será utilizado no pagamento de juros da dívida a credores alemães, e não na melhoria das condições de vida da população; e finalmente, a qualidade do serviço nos aeroportos tenderá a piorar (foi o que sucedeu nos pouquíssimos países que venderam a sua rede de aeroportos) e as taxas aeroportuárias, essas, vão disparar em direcção às estrelas. Logo no ano passado, na Portela, as taxas subiram 4,37% em Junho… e logo mais 4,40% em Dezembro, ou seja pouco menos de 9% em seis meses. Agora, o segundo aviso: a imposição arbitrária de uma taxa de 17 euros por carro alugado nas pequenas empresas (habitualmente portuguesas) de rent-a-car low cost, de forma a favorecer as multinacionais do sector que podem pagar um quiosque dentro do terminal (e que ficam isentas da taxa). Sugiro que o leitor, ao chegar a Portugal e ver o seu carro alugado ficar ainda mais caro que em França ou Suíça, utilize outra citação, esta napoleónica: “Do sublime ao ridículo vai apenas um passo”.
Se eu fosse o maior accionista da empresa francesa Vinci, era rapaz para usar como marketing o jogo de palavras um tanto ou quanto piroso: veni, vidi, Vinci. Não apenas porque a Vinci, exploradora (por exemplo) de parques de estacionamento na capital luxemburguesa e em mais 12 países, já tem uma imagem pirosa e um slogan destes ficar-lhes-ia a matar, mas também dado que a situação da empresa no mercado é curiosamente similar à do império romano: poderosa, monopolista, exigindo tributos exorbitantes aos seus súbditos.
Este enorme conglomerado encontrou formas de ganhar dinheiro muito menos trabalhosas que a original (a empresa inicial, criada no século XIX, é do sector da construção). O negócio dos parques é sintomático: em conluio com as câmaras municipais e a sua sanha persecutória ao automóvel, a empresa privada obtém baratinho algumas parcelas de espaço público (até servem prédios devolutos ou inacabados), pinta umas linhas coloridas no pavimento, instala cancelas que abrem mediante o pagamento do dízimo, e pronto: é só sentar no sofá e esperar que os fiscais à caça de multas – que em algumas cidades são subcontratados à própria Vinci – façam o resto para angariar clientes. Um pequeno parque de 250 lugares que cobre 5 euros à hora (há-os ainda mais caros) tem potencial para arrecadar ao fim de um só mês… 930 000 euros!
Mas estes ainda são montantes irrisórios comparados com o ramo das portagens em autoestradas ou com o próximo passo lógico – lançar a empresa na gestão de aeroportos onde, aí sim, é possível agir como monopolista, tornando as margens de lucro verdadeiramente apreciáveis.
Vítima ideal? Portugal. Aeroportos já construídos (pagos por impostos) e modernos (o do Porto vencendo mesmo prémios internacionais de qualidade), mais de 30 milhões de passageiros, e um Estado tão depauperado que nem hesita em liquidar os seus activos mais valiosos, abdicando de os rentabilizar. Assim, a Vinci pagou, no ano passado, 3 mil milhões de euros para comprar a ANA, empresa que gere todos os 10 aeroportos portugueses. Para o português médio, o negócio é triplamente ruinoso: primeiro, a cidade de Lisboa “vendeu” ao Estado os terrenos onde o aeroporto sempre se encontrou, mas o contribuinte português nem usufruiu dessa sensação, dado que este foi alienado em seguida; o proveito da venda será utilizado no pagamento de juros da dívida a credores alemães, e não na melhoria das condições de vida da população; e finalmente, a qualidade do serviço nos aeroportos tenderá a piorar (foi o que sucedeu nos pouquíssimos países que venderam a sua rede de aeroportos) e as taxas aeroportuárias, essas, vão disparar em direcção às estrelas. Logo no ano passado, na Portela, as taxas subiram 4,37% em Junho… e logo mais 4,40% em Dezembro, ou seja pouco menos de 9% em seis meses. Agora, o segundo aviso: a imposição arbitrária de uma taxa de 17 euros por carro alugado nas pequenas empresas (habitualmente portuguesas) de rent-a-car low cost, de forma a favorecer as multinacionais do sector que podem pagar um quiosque dentro do terminal (e que ficam isentas da taxa). Sugiro que o leitor, ao chegar a Portugal e ver o seu carro alugado ficar ainda mais caro que em França ou Suíça, utilize outra citação, esta napoleónica: “Do sublime ao ridículo vai apenas um passo”.
Bife tártaro cru e picado
O
primeiro bife tártaro da vida acaba quase sempre em desilusão: a probabilidade
de que tenha sido pedido sem se saber em que realmente consiste (carne crua
picada, por vezes com uma gema de ovo também crua) é grande. Ainda para mais, o
prato com ligações aos tátaros – povo da Ásia Central que vive, entre outros
sítios, na Crimeia – causa riscos para a saúde, pelas bactérias contidas na
carne não cozinhada.
Mas a
Crimeia, província da Ucrânia, anda com outras preocupações. As suas bases
militares foram cercadas por milícias vindas do exterior, a população quer sair
de um país e juntar-se a outro. A tensão sobe a cada dia na Ucrânia e isto tem
de preocupar-nos sobremaneira, talvez ainda mais que as vírgulas dos défices e as
percentagens negativas das dívidas.
O nome
Ucrânia sugere-nos um local frio e distante. Mas o maior país europeu não é nem
uma coisa nem outra: os verões em Kiev chegam a ser escaldantes, empurrando a
população para as praias fluviais do rio Dniepr e para as costas do mar Negro. E
a Ucrânia está logo ali tão próxima: partindo de carro do Luxemburgo, por
exemplo, chega-se à sua fronteira duas horas antes do que chegaríamos à
fronteira portuguesa. Kiev fica mais a oeste que Chipre, e Lviv, a histórica
cidade dos Habsburgos, está no mesmo meridiano que Atenas ou Helsínquia.
Vivemos
um momento de viragem. Já no domingo a ocupação russa pode ser legitimada por
um referendo: na Crimeia, onde Vladimir o Grande converteu a Rússia ao
cristianismo no século X, onde Nicolau I perdeu uma guerra de três anos contra
as Grandes Potências em 1856, há um outro czar Vladimir em acção. Putin segue
uma lógica perigosa, cavalgando o restauro de um orgulho nacionalista ferido,
explorando a inacção e divisão europeias – um filme já visto antes na História,
com resultados terríveis…

E se não
estivesse? Há vários países europeus em pânico neste momento perante a
possibilidade de uma invasão russa – a Polónia, a Roménia e sobretudo os três
bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, que assistem à concentração de tropas
junto às suas fronteiras e contam, todos eles, com importantes minorias
russófonas prontas a ser “resgatadas” pelas milícias de Moscovo. Todos estes Estados
do leste são membros da NATO e em alturas como esta intensifica-se sempre a
conversa à volta do famigerado artigo 5.º do tratado – um ataque externo a um
dos membros será considerado como um ataque a todos os outros. Claro que os
líderes democráticos dos nossos dias nunca levariam a situação a tal ponto; mas
a tensão ainda vai continuar a escalar antes de começar a descer. Da terra dos
tártaros nem só o bife é perigoso para a saúde.
Os “privilegiados”
Há histórias
que tanto dão para rir como para chorar. Há duas semanas li neste mesmo jornal
algo assim, contando como um anúncio de emprego publicado por uma associação
humanitária serviu de arma de arremesso político para um partido da direita
populista. O crime do anúncio? Pedir que a pessoa a contratar dominasse a
língua portuguesa.
O ADR, o
tal partido, fez a sua previsível chinfrineira pavloviana no Parlamento
luxemburguês, obrigando o ministro da tutela a gastar algum do seu tempo (pago
pelo erário público) a declarar o óbvio, ou seja, que as associações sem fins
lucrativos devem estar habilitadas a responder às necessidades dos seus utentes
e devem ser acessíveis aos mesmos – essa acessibilidade pressupõe uma
comunicação efectiva. Uma forma legalista de dizer o que qualquer pessoa que já
tenha precisado de trabalhar sabe: são necessárias cada vez mais competências
em diferentes áreas para se poder ser contratado, a concorrência é cada vez
mais forte, os empregos confortáveis e bem pagos são cada vez mais difíceis de
encontrar. Talvez eles ainda existam na política e pouco mais…
Afirma o
ADR que um anúncio que exija português é “discriminatório”. Sou forçado a
concordar: discrimina entre aqueles que servem para a função de auxílio a
jovens carenciados e os que não servem. É para isso aliás que servem todos os
processos de recrutamento, ou os testes na escola: discriminar entre os que
sabem e os que não sabem. E numa economia em que 25% dos consumidores falam ou
pelo menos entendem português, é evidente que esta é uma competência valorizada
pelo mercado, por muitas peneiras demagógicas que sejam usadas para tapar o
sol.
O toque
risível, esse, é emprestado pela secretária-geral do partido e que é também
candidata às eleições europeias. “Não queremos que isto contamine o Estado para
que este não comece a contratar pessoas que não falam as línguas oficiais. Há
muitos velhinhos que são cuidados por enfermeiros que só falam francês. A
língua da integração é o luxemburguês. E os portugueses são uns privilegiados”
são as ideias fortes da sua lengalenga. A particularidade, claro, é que a senhora
em questão se chama Liliana Miranda e é, ela própria, portuguesa.
Cara
Liliana, deixe-me falar-lhe directamente: falar português, a sexta língua mais
falada no nosso planeta (e, subjectivamente, a mais bela), não significa não
saber falar luxemburguês, um dialecto tornado língua há apenas 30 anos e que é
falado por menos pessoas que o mingrélio ou o frísio (são outras línguas
europeias, o que pode dar jeito saber se for eleita para o Parlamento em
Estrasburgo). Como sabe, alguém que só fale luxemburguês ficará sempre cingido
a uma vida dentro de um pequeno território perdido na Europa central,
“integrado” mas limitado, possivelmente sem outra opção na vida que não a de
cuidar de velhinhos mimados com altíssimas reformas - que só podem existir
porque há muitos “privilegiados” portugueses neste pequeno país a pagar
impostos, contribuições sociais e rendas exorbitantes.
Liliana:
os portugueses não são uns privilegiados. Posso assegurar-lhe que a esmagadora
maioria passa grande parte da sua vida a trabalhar no duro, e tudo para obter alguns
pequenos confortos materiais como alimentação e vestuário (um privilégio em
relação à miséria, é certo). São as mesmas pessoas que constroem e limpam as
tais casas de rendas altíssimas, por exemplo… os mesmos que muitas vezes calam
e engolem as (lá está) discriminações diárias de que são vítimas num dos poucos
Estados europeus que não ratificou a Convenção-Quadro para a Protecção das
Minorias Nacionais, isto apesar de deter uma das mais importantes minorias a nível
mundial – precisamente a portuguesa. Ah, esta convenção foi assinada no
Conselho da Europa, que fica em Estrasburgo. Mesmo que nunca venha a ser eleita
deputada europeia, aconselho-lhe vivamente uma visita. Nunca é tarde para se
abrir os olhos.
Europeus como nós
O que aconteceu na Ucrânia? Metade da população do país não hesitará em utilizar a palavra “revolução”. A outra metade, no entanto, preferirá descrevê-lo como um “golpe de Estado”. E logo aqui é possível compreender quão profundo é o problema.
O presidente pró-russo da Ucrânia, Ianukovitch, jogou o seu tudo por tudo lançando a polícia de choque contra os manifestantes há semanas congelados em Maidan. Após umas falsas tréguas apenas destinadas a aumentar o efeito surpresa, as forças da ordem – ou da repressão, consoante o ponto de vista – avançaram com ordens claras de limpar a praça, desertificando-a de indesejáveis pró-europeus, custasse o que custasse. E a morte saiu à rua em Kiev. Homens baleados à queima-roupa, queimados, pais e filhos batidos sem dó nem piedade. O regime democraticamente eleito a agarrar-se sangrentamente ao poder, esmagando a justa revolta dos seus próprios cidadãos.
Depois disto, os acontecimentos sucederam-se ao ritmo de uma verdadeira revolução: estonteantemente rápido. Os acantonados da praça Maidan não só resistiram como ripostaram às forças do regime, acabando por vencer, de certa forma, a batalha. (Claro que ajuda imenso quando os manifestantes não são propriamente do tipo de usar flores no cabelo e sussurrar “faz amor e não a guerra”; quem surgiu nos últimos tempos a liderar uma insurreição que tinha começado por ser pacífica foi uma organização paramilitar extremista denominada Sector Direito, que usa símbolos parecidos com suásticas.) Repentinamente, no sábado, o regime de Ianukovitch desapareceu para parte incerta; há um mandado de captura sobre o ex-presidente (repudiado até pelo seu próprio partido), e a sua luxuosa mansão é agora atracção turística. Os novos líderes do país são
tendencialmente mais nacionalistas/pró-europeus (o que é também uma forma de dizer anti-russos, como comprova o primeiro decreto emanado do novo Parlamento que revoga o estatuto do russo como língua oficial), e são quase os mesmos que os antigos líderes do país pré-Ianukovitch que tinham protagonizado a Revolução Laranja de 2004 feita então contra… Ianukovitch, numa confusa alternância de moscardos que não muda nada do essencial: a Ucrânia é um país imerso na corrupção, completamente refém de meia-dúzia de oligarcas operando nas margens da lei que controlam os poderes económico e político (também foram estes quem, com receio das sanções europeias e percebendo que o presidente se tinha tornado insustentável, o deixaram rapidamente cair), e perto da bancarrota. O maior país exclusivamente europeu é um país adiado, sem reformas estruturais, que viu a vizinha e amiga Polónia passar de uma situação ainda pior que a sua a ter, hoje, o triplo do PIB per capita que a Ucrânia obtém, tudo em menos de vinte anos.
É contra esta realidade que os ucranianos se insurgem, mais do que contra a Rússia, que representa tão-somente um símbolo e uma força pelo status quo. A Europa, pelo contrário, constitui um ideal de valores com um poder de atracção formidável – tanto que pela primeira vez na História, muitos se mostraram dispostos a arriscar ali a vida para defender a bandeira azul com estrelas douradas da União Europeia. Ignoremos a ironia de que poucos daqueles que já são cidadãos da UE fariam o mesmo; agora já não poderemos mais ignorar que os ucranianos são tão europeus como nós.
O presidente pró-russo da Ucrânia, Ianukovitch, jogou o seu tudo por tudo lançando a polícia de choque contra os manifestantes há semanas congelados em Maidan. Após umas falsas tréguas apenas destinadas a aumentar o efeito surpresa, as forças da ordem – ou da repressão, consoante o ponto de vista – avançaram com ordens claras de limpar a praça, desertificando-a de indesejáveis pró-europeus, custasse o que custasse. E a morte saiu à rua em Kiev. Homens baleados à queima-roupa, queimados, pais e filhos batidos sem dó nem piedade. O regime democraticamente eleito a agarrar-se sangrentamente ao poder, esmagando a justa revolta dos seus próprios cidadãos.
Depois disto, os acontecimentos sucederam-se ao ritmo de uma verdadeira revolução: estonteantemente rápido. Os acantonados da praça Maidan não só resistiram como ripostaram às forças do regime, acabando por vencer, de certa forma, a batalha. (Claro que ajuda imenso quando os manifestantes não são propriamente do tipo de usar flores no cabelo e sussurrar “faz amor e não a guerra”; quem surgiu nos últimos tempos a liderar uma insurreição que tinha começado por ser pacífica foi uma organização paramilitar extremista denominada Sector Direito, que usa símbolos parecidos com suásticas.) Repentinamente, no sábado, o regime de Ianukovitch desapareceu para parte incerta; há um mandado de captura sobre o ex-presidente (repudiado até pelo seu próprio partido), e a sua luxuosa mansão é agora atracção turística. Os novos líderes do país são
tendencialmente mais nacionalistas/pró-europeus (o que é também uma forma de dizer anti-russos, como comprova o primeiro decreto emanado do novo Parlamento que revoga o estatuto do russo como língua oficial), e são quase os mesmos que os antigos líderes do país pré-Ianukovitch que tinham protagonizado a Revolução Laranja de 2004 feita então contra… Ianukovitch, numa confusa alternância de moscardos que não muda nada do essencial: a Ucrânia é um país imerso na corrupção, completamente refém de meia-dúzia de oligarcas operando nas margens da lei que controlam os poderes económico e político (também foram estes quem, com receio das sanções europeias e percebendo que o presidente se tinha tornado insustentável, o deixaram rapidamente cair), e perto da bancarrota. O maior país exclusivamente europeu é um país adiado, sem reformas estruturais, que viu a vizinha e amiga Polónia passar de uma situação ainda pior que a sua a ter, hoje, o triplo do PIB per capita que a Ucrânia obtém, tudo em menos de vinte anos.
É contra esta realidade que os ucranianos se insurgem, mais do que contra a Rússia, que representa tão-somente um símbolo e uma força pelo status quo. A Europa, pelo contrário, constitui um ideal de valores com um poder de atracção formidável – tanto que pela primeira vez na História, muitos se mostraram dispostos a arriscar ali a vida para defender a bandeira azul com estrelas douradas da União Europeia. Ignoremos a ironia de que poucos daqueles que já são cidadãos da UE fariam o mesmo; agora já não poderemos mais ignorar que os ucranianos são tão europeus como nós.
Algo giro, para variar
Os jornais, a
televisão, a rádio, os media em geral têm cada vez menos clientes para a sua
informação e isso acontece em grande parte porque já poucos têm paciência para
serem massacrados periodicamente com más notícias. Não tenho nenhum estudo que
corrobore esta afirmação – trata-se apenas de uma opinião baseada em
constatações. Mas o nosso instinto de autoprotecção sobrepõe-se muitas vezes à
vontade de saber o que se passa no mundo, porque tantas notícias duras podem
não matar, mas moem...
O curioso é que
por outro lado parecemos apegados a isto – é possível que seja da natureza
humana estimar o pessimismo sobre a evolução do mundo. Alguns jornalistas
bem-intencionados procuraram furar este círculo e criar sítios internet só com
“boas notícias que inspirem e alegrem”. Existem pelo menos cinco do género, mas
após as intenções iniciais, todos acabam por cair num círculo infindável de
textos sobre cães fiéis, actos aleatórios de caridade e novas drogas
milagrosas; temas meritórios certamente, mas que acabam por constituir um
exercício um tanto fútil que se esvazia em muito pouco tempo. É pena, mas
simplesmente não é possível escrever todos os dias que a fome e o desemprego
acabaram, ou que já não estamos a destruir o nosso planeta.
Ainda assim há
sempre notícias que nos deixam de sorriso nos lábios. Na semana passada mais
uma: o Porto foi eleito como “Melhor destino europeu em 2014”. Para tanto,
bateu metrópoles europeias de maior dimensão, mais ricas, mais influentes – Berlim,
Roma, Madrid, Milão, Viena... – e outros destinos mais exóticos e mais
habituados a inclinar-se perante as necessidades do turismo. O orgulho é
exponenciado por sabermos que o Porto já tinha ganho da última vez que
concorreu, em 2012 (o vencedor não pode concorrer no ano seguinte); também
Lisboa tinha sido a vencedora logo na primeira edição deste troféu, em 2010, e
a Madeira ficou em 6.º lugar este ano.
Claro que, sendo
o melhor destino eleito por voto electrónico e estando a eleição completamente
aberta a todos, o vencedor será não necessariamente “o melhor” mas sim aquele
que será “mais popular” e mais capaz de mobilizar os seus apoiantes. Mas são
essas também, afinal, as regras do jogo democrático – e 230 mil votantes tornam
este prémio em algo relevante: é
assim que se constroem boas marcas, uma absoluta necessidade numa cidade – e
num país – cujos produtos não se vendem bem internacionalmente por sofrerem de
um problema de imagem (há excepções, mas é essa a regra).
Como cereja no
topo do bolo, o Porto é o melhor destino de 2014 pelas razões certas. Como
disse o presidente da European Best Destinations, e nunca é demais repeti-lo, “o Porto é muito mais que a comida, a
história, as paisagens, o mar e o maravilhoso Douro; é um destino vibrante. Provavelmente,
porque nunca perdeu, e mantém, a sua identidade, a sua alma; pela sua energia e
entusiasmo". Sim, de vez em quando há notícias que fazem sorrir. Agora só
há que usufruir daquele destino vibrante.
Bomba F cai sobre a Europa
Um fim-de-semana, duas bofetadas na cara: é esse o rico balanço que a Europa pode fazer. A Europa são 500 milhões de almas, somos nós; acho que posso falar por todos quando digo que não apreciamos levar bofetadas na cara.
A segunda delas aconteceu já no sábado e é quase burlesca: após ter negociado vários acordos de associação que equivalem a ser um quase-membro da UE, dando-lhe acesso a um mercado continental rico e vasto, para além de liberdade de circulação para os seus nacionais, a Suíça resolveu brincar com o fogo e referendar aquilo que, na prática, equivale ao fecho das suas fronteiras (a não ser, claro, no caso de turistas europeus quererem
ir lá deixar uma boa parte do seu dinheiro a esquiar ou comprar relógios – isso continuará encorajado). A mensagem suíça é simples: queremos (continuar a) explorar a Europa, mas não queremos que venham mais europeus (e nomeadamente portugueses) servir às nossas mesas. Preferimos guardar o dinheiro para nós.
Mas a primeira bofetada, embora menos abrangente, até doeu muito mais. Na sexta-feira, veio à superfície uma conversa telefónica gravada (e muito bem gravada – que irónico é que os os Estados Unidos, que tudo espiam sobre todos, provem por uma vez do seu próprio veneno) em que uma funcionária americana de topo, Victoria Nuland, fala ao telefone com o seu embaixador na Ucrânia sobre a continuada crise daquele país dilacerado entre as atracções pela Rússia e pela Europa. Depois de gastar a sua lírica a elogiar a ideia de envolver as Nações Unidas (segunda boa ironia – depois de torpedear a ONU durante toda a existência desta, inclusive não pagando as suas quotas de membro, os EUA descobriram que a ONU existe) como mediador entre o presidente e os manifestantes ucranianos, a sra. Nuland revela brutalmente a verdadeira motivação por trás da sua estratégia: “que se foda a Europa!”. O embaixador americano não é pago para contrariar a chefe: “Exactamente!”, responde.
Ajuda saber que Nuland é casada com Robert Kagan, talvez o maior ideólogo neoconservador – o ideólogo da “América por cima de todos” e da invasão desastrosa ao Iraque. E logo a formidável máquina de propaganda americana entrou imediatamente em campo para limitar os danos da bomba expletiva. Nestes dias que se seguiram, quase não foi possível ler outra coisa senão “analistas” – sempre americanos ou britânicos – que passam uns paninhos quentes, argumentam “ah não foi nada de especial, só um desabafo de frustração” e chegam mesmo ao desplante de dizer “muitos europeus até concordam, já que também não querem uma UE imóvel”.
Sobre a nossa justa indignação, nada. É verdade que nem assim os actuais líderes europeus foram capazes de um assomo de dignidade e respeito; a maior visada, Catherine Ashton, a inexistente líder da diplomacia europeia, continua ainda hoje a assobiar para o ar. Apenas quem a foi desencantar, a sra. Merkel, foi capaz de dizer um tímido “é inaceitável”. Patético, na melhor das hipóteses. E no entanto...
As verdadeiras razões para esta atitude dos EUA encontram-se no valor da Ucrânia como país – altíssimo a qualquer nível, seja económico, cultural, geopolítico ou outros. E no facto que, mesmo correndo como um outsider aparentemente distraído, a Europa talvez ainda seja capaz – talvez – de atrair o grande país eslavo para o nosso lado. Uma Ucrânia europeia seria uma espinha cravada nas mal-educadas gargantas russa e americana – e nas frias praças de Kiev o que se grita hoje é “queremos a Europa!”.
A segunda delas aconteceu já no sábado e é quase burlesca: após ter negociado vários acordos de associação que equivalem a ser um quase-membro da UE, dando-lhe acesso a um mercado continental rico e vasto, para além de liberdade de circulação para os seus nacionais, a Suíça resolveu brincar com o fogo e referendar aquilo que, na prática, equivale ao fecho das suas fronteiras (a não ser, claro, no caso de turistas europeus quererem
ir lá deixar uma boa parte do seu dinheiro a esquiar ou comprar relógios – isso continuará encorajado). A mensagem suíça é simples: queremos (continuar a) explorar a Europa, mas não queremos que venham mais europeus (e nomeadamente portugueses) servir às nossas mesas. Preferimos guardar o dinheiro para nós.

Ajuda saber que Nuland é casada com Robert Kagan, talvez o maior ideólogo neoconservador – o ideólogo da “América por cima de todos” e da invasão desastrosa ao Iraque. E logo a formidável máquina de propaganda americana entrou imediatamente em campo para limitar os danos da bomba expletiva. Nestes dias que se seguiram, quase não foi possível ler outra coisa senão “analistas” – sempre americanos ou britânicos – que passam uns paninhos quentes, argumentam “ah não foi nada de especial, só um desabafo de frustração” e chegam mesmo ao desplante de dizer “muitos europeus até concordam, já que também não querem uma UE imóvel”.
Sobre a nossa justa indignação, nada. É verdade que nem assim os actuais líderes europeus foram capazes de um assomo de dignidade e respeito; a maior visada, Catherine Ashton, a inexistente líder da diplomacia europeia, continua ainda hoje a assobiar para o ar. Apenas quem a foi desencantar, a sra. Merkel, foi capaz de dizer um tímido “é inaceitável”. Patético, na melhor das hipóteses. E no entanto...
As verdadeiras razões para esta atitude dos EUA encontram-se no valor da Ucrânia como país – altíssimo a qualquer nível, seja económico, cultural, geopolítico ou outros. E no facto que, mesmo correndo como um outsider aparentemente distraído, a Europa talvez ainda seja capaz – talvez – de atrair o grande país eslavo para o nosso lado. Uma Ucrânia europeia seria uma espinha cravada nas mal-educadas gargantas russa e americana – e nas frias praças de Kiev o que se grita hoje é “queremos a Europa!”.
O local do suborno
Creio que a
história se passou comigo em 2003. Estava então de visita à minha musa da
época, uma rapariga austríaca; curiosos por conhecer a Eslováquia, país para lá
da Cortina de Ferro e que estava na altura prestes a juntar-se à UE (e a
Schengen), decidimos simplesmente apanhar um comboio suburbano em Viena e
passar a tarde em Bratislava (a 50 km, as duas capitais mais próximas do mundo
a seguir a Kinshasa e Brazzaville no rio Congo). A minha despreocupação de turista
europeu levou-me a esquecer o passaporte; armado do bilhete de identidade e do
passaporte da minha acompanhante, tentei convencer o guarda do comboio a
deixar-nos completar o passeio até à estação eslovaca. Ele olhou, absorto, para
os documentos por um longo momento, enquanto sorria. Ao fim de uma eternidade
silenciosa, mudou repentinamente de atitude e gritou-nos: “Fora do comboio já!”
Obviamente, o
guarda eslovaco esperava por uma nota de 20 euros metida discretamente por
entre as páginas do passaporte, uma notinha que miraculosamente “confirmasse”
não ser eu um criminoso indesejável na Eslováquia – paradoxalmente, a mesma
nota que constituiria um verdadeiro crime. Comum no nosso quotidiano, é certo –
não há ninguém que não tenha já passado por uma história semelhante – mas ainda
assim um crime. E ontem a Comissão Europeia avançou, pela primeira vez, com uma
quantificação da gravidade do problema na UE, e as conclusões só podem arrepiar
um cidadão honesto: as estimativas apontam para um mínimo de 120 mil milhões de
euros perdidos a cada ano na “economia paralela”, um valor brutal que
corresponde ao orçamento de todas instituições europeias, ou então a 16 vezes o
actual défice do Estado português, ou a quase três vezes o valor do PIB do rico
Luxemburgo. Numa altura em que as nossas sociedades precisam de receitas de
impostos como de pão para a boca, é dramático ver que a corrupção aumenta –
pelo menos essa é a impressão de 57 por cento dos europeus. 75 por cento,
entretanto, consideram o problema “generalizado” nos seus países.
Não é o pequeno
suborno a agentes que constitui o grande problema das nossas sociedades, mas
sim a corrupção de alto nível, que a própria Comissão considera como “um grande
desafio” – tradução, nada foi feito e estamos a perder a luta em toda a linha.
As ligações perigosas entre a política e as grandes empresas, em que as mesmas
pessoas que supostamente representam o bem público são na verdade pagas
subterraneamente por interesses privados, constituem o cerne do flagelo – e
isto mesmo na Alemanha, por exemplo. A associação Transparência Internacional
fala também em mais de 50 deputados que, em Portugal, estão nessa situação e
trabalham para os “donos do país” – ou seja, empresas de construção civil e a
banca.
Podemos sempre contra-atacar:
há meia dúzia de anos, um punhado de jovens lituanos identificou
potencialidades anti-subornos nas novas tecnologias disseminadas por pequenos e
poderosos telefones. Nasceu Bribespot (“local do suborno”), uma aplicação para
iPhone, Android ou web que permite a qualquer pessoa em qualquer parte do mundo
denunciar um pedido de suborno de que tenha sido vítima. Os dados mundiais são
depois compilados, divulgados, combatidos... não nos vai recuperar aqueles 120
mil milhões perdidos no ano passado, nem a teia de negócios escuros à volta do
parlamento de Lisboa, por exemplo. Mas é um início. Se for pressionado, leitor,
não hesite em denunciar um corrupto.
Terra dos Fogos
Após uma viagem
de pesadelo em que teve de esperar seis meses ancorado numa baía pelo fim do
rigoroso inverno e ainda enfrentar dois motins à sua autoridade, Magalhães
ultrapassou o rio da Prata e rumou ao sul, convicto de encontrar a mítica passagem
para o Pacífico. Quando atingiu um arquipélago que lhe permitiu finalmente
começar a navegar para oeste, pelo estreito que hoje leva o seu nome e faz a
junção dos dois grandes oceanos, o nortenho Fernão, Fernom na pronúncia mais
correcta, viu ao longe, em terra, dezenas de fogueiras. Escaldado, logo receou
que os indígenas preparassem uma emboscada à sua expedição. Na verdade, os
Yaghan eram pacíficos, mas o nome de “Terra dos Fumos” pegou – mais tarde, e porque
o marketing não é invenção recente, o
nome seria alterado para Terra dos Fogos e finalmente para Terra do Fogo.
“Terra dos Fogos”
é também um dos capítulos de Gomorra
– o corajoso livro de Roberto Saviano sobre a mafia napolitana, a Camorra, que
deu também origem a um aclamado filme. O título do livro de 2007 é inspirado no
texto anti-mafia de um padre da região que terminava com o apelo claro “É tempo
de deixarmos de viver nesta Gomorra”; o padre foi assassinado pela mafia pouco
depois. Gomorra, o livro, fala-nos
dos negócios do crime organizado numa perspectiva ora pessoal, ora
jornalística, ora filosófica, naquilo que já foi descrito como um ONNI –
Objecto Narrativo Não Identificado – cujo objectivo primordial é obter uma
reacção do leitor. E as reacções não se fizeram esperar, dado que Saviano
vendeu milhões de exemplares do seu livro e encabeçou várias listas globais das
obras mais importantes dos últimos anos, isto enquanto recebia repetidas
ameaças de morte vindas da própria Camorra.

“Terra dos Fogos”
é sobre uma região da Campânia, uma histórica parte da Europa, onde se queimam
lixos de forma tão permanente quanto ilegal. A mafia paraliza os sistemas
existentes de recolha e tratamento de resíduos domésticos e industriais; há
muito dinheiro para ser ganho com o lixo, e é exactamente essa a única
preocupação do crime organizado. Uma investigação recente calculava que uma
tonelada de lixo industrial renderia 30 milhões de euros à mafia, que só tem de
se livrar dele como se fosse um acidente. Toneladas de resíduos são assim
queimadas “acidentalmente” a céu aberto, libertando constantemente para a
atmosfera e o solo substâncias mortais como dioxinas ou pior. Os resultados são
estarrecedores. Nenhum italiano arrisca comprar produtos agrícolas ou da
pecuária que sejam oriundos da Campânia (alguns produtos referem
fraudulentamente outras origens por causa disto), e depois de o Japão ter
descoberto leite de búfala contaminado, as vendas caíram a pique em todo o
mundo. Mas isso nem é nada comparado com a taxa de incidência de alguns
cancros, ali o dobro do verificado no resto da Itália. Um facto que só vem
credibilizar o arrepiante nome pelo qual é conhecida a área, com mais de 200
lixeiras ilegais, delimitada pelas localidades de Nola, Marigliano e Acerra – o
“triângulo da morte”.
Dizer que há aqui
um problema é um eufemismo. O problema é evidente, brutal, premente, permanente
– e arrasta-se há décadas, sem que os poderes públicos italianos ou europeus o
consigam ou queiram sequer atenuar. Tal não pode ser tolerável. E se o leitor
pensa que isto não o afecta porque não vive no sul da Itália, responda só para
si – consegue garantir que não é a mafia quem gere os resíduos da cidade onde
vive? É que eu não consigo.
Infidelidades
O ano é 1993. O
local é a SIC, a primeira televisão privada em Portugal, à época recém-nascida.
José Pacheco Pereira, então um comentador que mantinha algum crédito, comentava
o panorama político do mundo ocidental – onde, tal como agora, se verificava
uma esmagadora maioria de governos conservadores e neoliberais. Referindo-se ao
novo e jovem presidente dos EUA, Pacheco troçava do futuro sem remissão da
Esquerda com um soundbite que pegou:
tudo não passaria de um efémero “orgasmo clintoniano”. O que veio a seguir é
mais conhecido: Clinton acabou por presidir a um período de oito anos de
prosperidade crescente e ininterrupta nos EUA e na Europa em geral, e deixou o
seu nome na História como um dos últimos grandes líderes políticos – mas também
como alguém que não era propriamente fiel.
Hollande repete
Clinton no que diz respeito às “amantes de Estado” – o Presidente comete
infidelidades conjugais e os seus assessores protegem-no; os de Clinton
avisavam-no quando Hillary estava por perto, os de Hollande conduzem-no de mota
até a um pied-à-terre na rue du Cirque,
a dois passos do Eliseu, onde o presidente emula as aventuras com actrizes dos
seus antecessores. A política de relançamento económico, a Europa... a
fidelidade? Todas atropeladas pelas rodas da mota.
Já sabemos que a
História se repete sempre, e da segunda vez como farsa: vinte anos depois, não
seria difícil estabelecer o paralelismo com a carreira de François Hollande,
eleito Presidente em França com a missão – e mais do que isso, a promessa – de fazer
virar a agulha do “pensamento único económico” vigente na Europa, repleto de
opções que contribuíram para esta crise e para o seu arrastamento sem fim à
vista, seis anos após o seu início. Seis longos anos, em comparação com os
menos de quatro que custou à França (por exemplo) regressar ao crescimento
económico após a Grande Depressão dos anos 30.

Hollande teve um
assomo. Convocou todos para uma grande conferência de imprensa, não para falar
sobre a sua companheira internada num hospital, mas para nos avisar que vai
atraiçoar também os seus princípios sociológicos e a sua base eleitoral aplicando
em força as mesmíssimas políticas austeritárias que o seu rival Sarkozy
aplicaria, e que a sua orientadora alemã, a chanceler Merkel, lhe dita ao
ouvido: as empresas (não os indivíduos) vão obter uma redução de impostos que
será paga com “cortes na despesa do Estado” (não especificados) até porque “é absolutamente
necessário conter o défice” e “agir na economia do lado da oferta, porque a
oferta vai criar a procura”. Isto numa altura em já são evidências que a) a
austeridade está a destruir as economias muito para além do razoável, sem as
reformar e b) o que está a travar o crescimento económico da França, como aliás
o admitem os seus empresários com imensa capacidade instalada e não utilizada,
é a debilidade da procura. Sem dinheiro, ninguém compra. E se mais provas
fossem necessárias, basta olhar para uma inflação que ameaça tornar-se em
deflação, de tão baixa.
Hollande, o
infiel, anda a copiar o presidente errado: quem lidou com a economia do lado da
oferta, desregulando e criando as bases para o colapso do sistema que vivemos
hoje, não foi Clinton: foi Reagan. E se é para aplicar a velha e errada receita,
os votantes preferirão sempre o original neoliberal à pálida cópia cor-de-rosa
(juro que não é uma piada ao tipo de revistas que Hollande faz vender).
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